A maior preocupação dos investidores com a China e a lacuna cada vez maior entre as taxas de vacinação devem manter a pressão sobre ativos de mercados emergentes em relação a países desenvolvidos, de acordo com alguns participantes.

A investida da China contra o setor de tecnologia justo quando a economia do país está em desaceleração ajudou a levar o indicador global de ações dos mercados emergentes para uma mínima relativa em 17 anos frente a pares do mercado desenvolvido. A propagação de variantes do coronavírus também pesou, já que as campanhas de imunização em nações em desenvolvimento estão atrasadas em relação a países na América do Norte e Europa.

As bolsas dos EUA e Europa tendem a continuar apresentando melhor desempenho como reflexo da recuperação de economias avançadas, retomada das viagens e taxas de vacinação próximas da imunidade coletiva.

“Prevemos desempenho mais forte dos mercados desenvolvidos ao longo do resto do ano”, disse Andrew Sheets, estrategista-chefe de ativos cruzados do Morgan Stanley. “Mercados emergentes enfrentam mais pressão da Covid e mais incerteza em torno de novas variantes devido às taxas de vacinação mais baixas.”

O índice MSCI Emerging Markets – onde empresas chinesas respondem por um cerca de um terço do total – entrou brevemente em território negativo no acumulado do ano na semana passada, enquanto o indicador MSCI World de ações de mercados desenvolvidos mostra alta de cerca de 15%.

O índice MSCI Emerging Markets Currency perdeu mais de 1% em relação ao recorde de junho, enquanto o dólar avançou, um tradicional obstáculo para países em desenvolvimento.

Reversão rápida

O tom mais pessimista para mercados emergentes surge depois desse grupo dominar o crescimento nos últimos meses de 2020 e no início deste ano. Investidores acumularam ações mais sensíveis aos ciclos econômicos com apostas na reflação, na esteira da recuperação pioneira da China do impacto da pandemia.

Agora, a China se torna uma espécie de pária ao reprimir a iniciativa privada, a qual acusa de agravar a desigualdade, aumentar o risco financeiro e desafiar a autoridade do governo. Enquanto isso, a segunda maior economia do mundo também enfrenta um surto causado pela variante delta, levando analistas a reduzir as projeções de crescimento econômico diante dos maiores riscos.

A cepa, que é altamente contagiosa, se espalhou por quase metade das 32 províncias da China em apenas duas semanas. Pelo menos 46 cidades aconselharam residentes a não viajar, a menos que seja absolutamente necessário.

“Já faz algum tempo que estamos neutros em relação a mercados emergentes, guiados em grande parte por uma combinação de aperto da política e momentum mais fraco da China”, disse Patrik Schowitz, estrategista global de multiativos da JPMorgan Asset Management. “Os eventos mais recentes da Covid aumentam nossa cautela e obscurecem ainda mais as perspectivas gerais para mercados emergentes.”

Acesso às vacinas

O acesso desigual às vacinas aumenta ainda mais a lacuna da recuperação entre economias avançadas e em desenvolvimento, alertou o Fundo Monetário Internacional no final do mês passado. O Fundo reduziu a projeção de crescimento para economias emergentes de 6,7% para 6,3%, enquanto elevou as estimativas para mercados avançados em 0,5 ponto percentual, para 5,6%.

Enquanto a porcentagem da população com imunização completa tenha aumentado para cerca de 50% nos EUA e União Europeia, está em cerca de 20% no Brasil, 8% na Índia e na Indonésia e em apenas 4% nas Filipinas.

A acessibilidade às vacinas tem um impacto direto no ritmo de reabertura entre os países, e é uma questão fundamental para os investidores, disse Zijian Yang, chefe de multiativos para Ásia-Pacífico da Allianz Global Investors.

“No futuro, tudo se resume a quais países podem efetivamente imunizar a população o mais cedo possível contra elementos desconhecidos, como novas variantes do vírus”, disse. “Com essa perspectiva, mercados desenvolvidos de fato superam o desempenho dos emergentes no momento.”

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