O pânico na bolsa de valores e a queda brusca da rentabilidade dos ativos de renda variável escaldaram os investidores menos arrojados, que estavam começando a tolerar um pouco mais de risco. Muitos tomaram o caminho de volta e decidiram concentrar o patrimônio só na renda fixa. Mas essa volta para o território seguro não tem sido fácil.

As aplicações mais tradicionais de renda fixa também estão passando por uma fase turbulenta. Alguns títulos do Tesouro Direto, por exemplo, tiveram rendimento negativo de mais de dois dígitos nos últimos 30 dias. E com a taxa Selic a 3,75%, o CDI deve ter o menor rendimento da história.

Tesouro Direto com perdas dignas de renda variável

Os títulos do Tesouro, considerados o segundo porto-seguro do investidor conservador (perdendo só para a poupança), estão com um comportamento volátil. Nos últimos 30 dias, os títulos mais longos despencaram, com perdas de mais de 20%. Veja alguns deles:

TítulosRentabilidade nos últimos 30 dias
Tesouro Prefixado 20221,11%
Tesouro Prefixado 20210,94%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 20210,87%
Tesouro Selic 20210,34%
Tesouro Selic 20230,33%
Tesouro Selic 20250,26%
Tesouro Prefixado 2023-0,17%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2023-0,29%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2020-1,16%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2025-2,56%
Tesouro Prefixado 2025-3,04%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2024-3,21%
Tesouro IPCA+ 2024-3,52%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2027-4,60%
Tesouro Prefixado 2026-4,78%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2026-5,24%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2029-6,02%
Tesouro IPCA+ 2026-6,16%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2031-7,17%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2030-8,04%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2035-11,26%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2040-12,56%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045-14,18%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2050-15,83%
Tesouro IPCA+ 2035-16,59%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2055-16,63%
Tesouro IPCA+ 2045-26,29%

Isso significa que quem investiu no Tesouro perdeu dinheiro? Não necessariamente. Vamos explicar: os títulos do Tesouro têm datas de vencimento específicas, mas o investidor pode decidir vendê-los antes desse prazo. Como isso não representa o resgate do investimento e sim somente a venda em mercado secundário, o preço do título é estabelecido pela chamada marcação a mercado. Esse valor é influenciado pela oferta e demanda pelo título e, claro, pelas condições da economia do país.

Com a piora das perspectivas, em razão do coronavírus, os títulos de curto prazo acabam sendo menos penalizados por dois motivos. O primeiro é que a data de vencimento é mais próxima — se perceber que as condições não estão boas e decidir segurar o título até o vencimento, o investidor receberá o retorno contratado. O segundo é a previsibilidade: é bem mais difícil calcular o que acontecerá no longo prazo, por isso os títulos mais curtos permitem um cálculo mais certo do preço justo.

“Quem não tem necessidade de resgatar o recurso deve respirar fundo e manter o fôlego, porque se ele decidir revender esses títulos agora, o prejuízo será colhido”, diz Fábio Macedo, diretor comercial da corretora Easynvest.

CDI encolhendo mais e mais

Uma das medidas do Banco Central para tentar remediar a crise que se avizinha foi o corte na Selic, a taxa básica de juros. A profundidade da crise pode levar a outros cortes pelo BC, mas ainda é cedo para dizer. De qualquer forma, como o CDI acompanha a Selic, o índice também deve ficar por volta dos 3,75% ao ano.

Entre janeiro e março, o rendimento do CDI foi de pouco menos de 1%. No mesmo período, a inflação oficial ficou em 0,52%, o que significa que a correção de preços consumiu metade de todo o rendimento do índice — isso sem falar no desconto tributário que os investimentos atrelados ao CDI sofrem. Embora a perspectiva de inflação seja baixa (em torno de 2,5% neste ano), quem tiver rendimentos atrelados ao CDI verá o retorno real caindo.

“As empresas que emitem esses títulos estão agora aumentando o prêmio, para tentar atrair o investidor”, diz Macedo, da Easynvest. Mas esse retorno maior só vale para os títulos novos — ou seja, para quem vai fazer uma aplicação daqui pra frente.

Vale lembrar que quem já tinha dinheiro investido em CDBs, LCIs, LCAs ou outros investimentos com retorno calculado pelo CDI vai continuar com as condições contratadas. As taxas do pré-crise estavam variando entre 90% e 110% do CDI para títulos de curto prazo. Veja algumas simulações:

  • Quem tem um título que rende 90% do CDI deve ver um rendimento de aproximadamente 3,3% ao final do ano.
  • Quem tem um título que rende 100% do CDI deve ver um rendimento de aproximadamente 3,7% ao final do ano.
  • Quem tem um título que rende 110% do CDI deve ver um rendimento de aproximadamente 4,1% ao final do ano.

Com o desconto da inflação e do Imposto de Renda, alguns desses títulos podem ficar bem próximos do zero a zero.

O que fazer, então? A decisão de resgatar os títulos agora pode ser ruim, principalmente para quem tem investimentos que estão com retorno negativo. Já aqueles que estão nessa situação de zero a zero talvez devam analisar outras opções. Mais do que nunca, essa decisão deve ser levada em conta considerando a necessidade de liquidez e a tolerância ao risco.

“A recomendação é que o investidor entenda sua necessidade de caixa. Ele precisa de dinheiro no curto prazo? Então é melhor fugir do risco. Ele precisa de dinheiro pingando na conta mensalmente? Então também não é hora de dar chance para os títulos com baixa liquidez”, aconselha Macedo, da Easynvest.

Por outro lado, a renda variável tem sido um território perigoso para quem tem baixa aceitação ao risco. Embora os ativos tenham se desvalorizado, e por isso estejam com um preço mais atrativo do que antes da crise, ninguém sabe ainda quais serão os impactos da pandemia do coronavírus sobre as empresas.

“Fundos imobiliários, por exemplo, estão postergando o pagamento de dividendos mensais, por causa do fechamento do comércio”, lembra o diretor comercial da Easynvest.

Nesse momento, o prognóstico do investidor em renda fixa não é dos melhores. Quem puder migrar para títulos recém-emitidos, e com retorno maior, pode ver algum ânimo no rendimento da carteira. Mas é importante dizer que, mesmo na renda fixa, o risco está crescendo, já que a chance de falência de instituições emissoras é maior na crise. Por isso, a chave é conhecer o seu nível de tolerância à volatilidade e apertar os cintos até que tudo isso acabe.

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