A explosão no mercado de ações no Brasil está animando os banqueiros de investimento, que esperam que a receita com assessoria em fusões e aquisições e liderança na venda de títulos de renda fixa e variável seja pelo menos igual ao total de US$ 1 bilhão no ano passado, apesar da pandemia.

A quarentena e outras consequências do Covid-19 interromperam os negócios por 2 meses e meio, mas as ofertas de ações de empresas brasileiras neste ano já apresentam alta de 30%, para R$ 81,4 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg. E muito mais está por vir.

“Os mercados de ações estão super aquecidos com taxas de juros próximas de zero no Brasil e no mundo, e pelo menos 50 empresas brasileiras planejam emitir ações este ano”, disse Cristiano Guimarães, diretor executivo de banco corporativo e de investimento global do Itaú BBA. O banco ocupa a primeira posição neste ano no ranking de receita com comissões de bancos de investimento, de acordo com a Dealogic, com sede em Londres.

Força doméstica

Os brasileiros estão ficando com a maior fatia em muitas ofertas de ações, comprando até 70% do total, de acordo com Hans Lin, chefe do banco de investimento no Brasil do Bank of America, o primeiro em liderança de emissão de ações do país por volume, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Mesmo com mais emissões de ações, as receitas dos bancos com essas transações caíram 6% neste ano em relação ao ano passado, para US$ 237 milhões até 17 de agosto, segundo a Dealogic. As fusões e aquisições e a emissão de títulos de dívida desaceleraram, e a receita de banco de investimento no Brasil caiu 26%, para US$ 436,6 milhões.

O BofA liderou sozinho no início deste mês a venda de US$ 1,6 bilhão em ações da Vale SA de propriedade do BNDES, o maior block trade da história do Brasil. E mais empresas estatais devem vender ações, incluindo a Caixa Seguridade Participações SA, a seguradora de propriedade da Caixa Econômica Federal que já pediu registro para realizar uma oferta pública inicial.

“Os mercados de ações voltaram antes do esperado e, mesmo durante os piores momentos, os investidores de varejo do Brasil entraram comprando”, disse Alessandro Zema, country head do Morgan Stanley, o segundo colocado no ranking de líderes na venda de ações com base em dados compilados pela Bloomberg. O banco liderou a oferta de US$ 1,3 bilhão da Stone nos EUA e está assessorando a companhia em sua oferta para comprar a empresa de software Linx SA.

“Ainda acredito que este ano será o ano do IPO para as empresas brasileiras”, disse Alessandro Farkuh, diretor do Banco Bradesco BBI, o terceiro colocado no ranking de líder de emissões de ações por volume.

Esforço pelas reformas

Os banqueiros atribuíram o otimismo maior no mercado ao Congresso brasileiro, que retomou os esforços para aprovar as reformas, à redução do risco político, bem como às injeções de liquidez dos bancos centrais.

Ao comprar títulos corporativos, títulos do Tesouro e títulos de bancos, inclusive no Brasil, os bancos centrais estão ajudando não apenas os mercados de ações, mas também de dívida internacional, disse Bruno Fontana, chefe de banco de investimento do Credit Suisse Group AG no Brasil.

O governo brasileiro vendeu US$ 3,5 bilhões em títulos de dívida no mercado internacional, assim como empresas como Vale, Petrobras e Braskem. Ainda assim, a emissão de papéis de dívida externa caiu 3,7%, para US$ 14,7 bilhões, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

A queda nas vendas de títulos de dívida corporativa no mercado local foi ainda maior, de 64%, para R$ 47,3 bilhões, segundo os dados compilados pela Bloomberg.

“O mercado de títulos locais plain-vanilla está volátil”, pois os investidores continuam cautelosos com relação às consequências da pandemia, disse Guimarães, do Itaú, acrescentando que ele está otimista com as debêntures de infraestrutura que têm incentivos fiscais e rendem mais do que os títulos do Tesouro brasileiro.

Fusões e aquisições

A atividade de fusões e aquisições do Brasil desacelerou, com o volume total de negócios caindo quase 60% em relação ao ano passado para US$ 14,9 bilhões, mostram dados compilados pela Bloomberg.

“Os negócios de M&A estão demorando mais para sair por causa das incertezas da pandemia, que continuam a persistir”, disse Lin, do BofA, explicando que uma aquisição é um investimento de longo prazo que requer mais confiança na economia.

Algumas empresas estão vendendo ações para levantar capital para negócios, o que pode aumentar o volume de fusões e aquisições no futuro, disse Lin.

Zema, do Morgan Stanley, disse que as empresas inicialmente acumularam caixa para sobreviver aos meses mais críticos da pandemia, “mas agora um processo de consolidação está começando e devemos ver muito movimento de fusões e aquisições vindo de setores como consumo, varejo e educação, entre outros.”

Investimento no Brasil

As empresas estrangeiras que já conhecem o Brasil sentem-se mais confortáveis ​​para investir porque “podem ver a oportunidade com mais clareza”, disse Fontana, do Credit Suisse.

“A moeda mais fraca também estimula as fusões e aquisições cross-border”, disse ele, acrescentando que o real desvalorizado está tornando os ativos mais baratos no Brasil e fornecendo um ponto de entrada mais favorável para empresas de private equity. O real perdeu cerca de 26% de seu valor em relação ao dólar até agora neste ano, o pior desempenho entre as principais moedas do mundo, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Fontana previu cerca de R$ 70 bilhões em ofertas de ações a partir de agora até o final do ano, com os investidores mudando de fundos de renda fixa para ações. Os fundos de ações representam apenas cerca de 10% do total de R$ 5,6 trilhões nos fundos brasileiros, e Fontana acredita que o número pode aumentar para cerca de 30%.

“O impacto da pandemia foi muito menos negativo do que o inicialmente esperado no negócio de bancos de investimento no Brasil,” disse Fontana.

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