Crentes de que estão sofrendo preconceito no Facebook, conservadores frustrados encontraram um novo refúgio: a rede social Parler, que alcançou o primeiro lugar em downloads após a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

O Parler, que se autodenomina “uma rede social não tendenciosa e de livre expressão”, pode ser o bote expiatório da controversa eleição presidencial de 2020. Ironicamente, os entusiastas de Parler contam com o Facebook para espalhar a palavra sobre o aplicativo alternativo – e precisará dele se quiser continuar a crescer.

“Corra e me siga no Parler”, escreveu no Facebook o autor conservador e radialista Mark Levin. “Estou tentando encorajá-los o máximo possível a se juntarem a mim imediatamente, já que no Facebook ou Twitter eu continuarei a ser censurado.” A postagem no Facebook recebeu 13.000 reações.

“Cansado de se preocupar com a censura nas redes sociais?” postou Susan B. Anthony em seu perfil. “Junte-se a nós no Parler para ter acesso a conteúdo pró-vida não filtrado.”

“Assuma o controle e tenha novas conexões no Parler!” um grupo do Facebook com mais de 15.000 membros anuncia.

Normalmente, a atenção dada ao concorrente alertaria o Facebook. A empresa tem um histórico de impedir que serviços rivais ganhem força por meio de seu site, bloqueando links para download de aplicativos e evitando a exibição completa de conteúdo publicado. Até agora, no entanto, a empresa não tentou evitar que os usuários migrassem para Parler.

Por um lado, o Facebook tem um o histórico de bloqueio, cópia ou aquisição de concorrentes que o colocou no centro de investigações antitruste da Comissão Federal de Comércio dos EUA, do Departamento de Justiça e de procuradores-gerais do estado. A FTC deve decidir sobre o arquivamento de um caso nas próximas semanas, com a equipe apoiando a mudança, informou a Bloomberg. Deixar os usuários divulgarem links do Parler em suas páginas pode ajudar o Facebook a afirmar que o mercado é competitivo e reprimir os legisladores de ambos os lados do corredor que criticam o domínio da empresa.

Tanto o Facebook, quanto a Parler não se pronunciaram quanto ao assunto.

O número de downloads do Parler, aplicativo lançado em 2018 por John Matze e Jared Thomson, cresce exponencialmente desde maio. Apenas em outubro, a rede social ganhou 314.000 novos usuários, um aumento de 23% em relação a setembro, de acordo com a empresa de análise móvel SensorTower. Em 8 de novembro, quando as projeções anunciaram Joe Biden como candidato eleito dos Estados Unidos, o Parler teve 636.000 instalações entre a App Store da Apple e o Google Play, o maior número de downloads que o aplicativo já viu em um único dia.

Desde 3 de novembro, o presidente Donald Trump tem postado mensagens no Facebook e no Twitter alegando que ele não perdeu a eleição — e que houve fraude generalizada. Seguidores que acreditam nele têm postado o mesmo no Facebook, que rotula as postagens de Trump com links para o contexto, explicando que Biden é o vencedor projetado e que não há irregularidades na contagem de votos.

O Facebook também removeu diversos grupos de protesto pedindo o fim da contagem de votos, por medo de que eles incitassem à violência no mundo real. O Twitter também tem rotulado postagens com informações incorretas sobre a eleição, e colocando telas de alerta sobre as falsas alegações de vitória e fraude de eleitores de Trump.

Nesta terça-feira (10), três dos cinco aplicativos gratuitos mais baixados da a App Store são aqueles “adotados” por usuários conservadores: o Parler ocupa o primeiro lugar, seguido pela MeWe Network e Newsmax.

A rede social abarcou, particularmente, usuários cujas postagens foram corrigidas por informações das quais discordam. Nancy Keasberry-Pappa, uma professora de jardim de infância que mora em Las Vegas, disse que baixou Parler depois que o Facebook colocou um aviso “falso” em um dos vídeos que ela postou, sobre a falta de público um evento de Biden no Arizona. “Não sei se o Facebook deveria estar policiando isso”, disse ela. “Apesar de estar na plataforma há anos, postando fotos e colecionando amigos, em sã consciência não consigo continuar. Sinto que estou contribuindo para algo em que não acredito.”

A interface do Parler é bastante parecida com a do Twitter. Ambas plataformas possuem o mesmo layout básico, com emblemas “verificados”, hashtags e a possibilidade de os usuários seguirem um ao outro. Ele hospeda vozes conservadoras peso-pesado como Candace Owens, Eric Trump, Kayleigh McEnany e Dan Bongino, que também são ativos no Facebook.

A governadora republicana de Dakota do Sul, Kristi Noem, postou no Twitter na segunda-feira que ela se juntou a Parler. “Precisamos de plataformas que respeitem e protejam a LIBERDADE DE EXPRESSÃO”, escreveu Noem, adicionando seu nome de usuário para que os seguidores a encontrem lá.

Outros assuntos “tabu” ou bloqueados em outras plataformas também foram abraçados pelo Parler. Adeptos do QAnon – que acredita que uma seita mundial de pedófilos satânicos governa os Estados Unidos há anos – usam a plataforma para se comunicar. A rede social também conta com a hashtag #holohoax , que traz à tona a discussão sobre a negação do Holocausto. No Parler, o usuário neofascista @TheProudBoys carrega um emblema de “Influenciador”.

A ideia de que o poder do Facebook permitiu silenciar os conservadores se tornou um ponto de discussão entre os republicanos em Washington. Os senadores devem confrontar o CEO Mark Zuckerberg, juntamente com o CEO do Twitter, Jack Dorsey, sobre o assunto em uma audiência de 17 de novembro. Os dois executivos também enfrentaram reivindicações tendenciosas, que eles negaram durante audiência no final de outubro. Os aliados de Trump, que continuam a contestar os resultados claros das eleições, podem sugerir que os CEOs estão participando do que eles insistem, sem evidências, é um encobrimento da mídia.

Outros aplicativos, como Gab e Triller, também tentam usar as alegações de tendenciosidade do Facebook para recrutar usuários conservadores. Eles não conseguiram ganhar terreno significativo, em parte porque a influência do Facebook não vem do conteúdo do site, mas do tamanho de sua rede — e da capacidade de espalhar fácil e amplamente uma mensagem para recrutar novos seguidores.

Mas, se ocorrer um êxodo de usuários do Facebook para plataformas alternativas, em breve, Facebook, Instagram e Twitter terão que decidir se permitirão seus usuários a compartilhar o conteúdo dessas “redes sociais de direita”. Se o fizerem, “então estarão permitindo que exista algo” em sua plataforma que de outra forma nunca tolerariam, disse Alex Stamos, diretor do Stanford Internet Observatory e ex-chefe de segurança da informação do Facebook.

“Eles podem acabar sendo meta-moderadores dessas plataformas menores”, disse Stamos, membro da Election Integrity Partnership, uma coalizão de entidades de pesquisa que monitoram plataformas de desinformação eleitoral. “Mas se você bloqueá-los, o que torna mais fácil fazer a moderação, isso é claramente anti-competitivo.”

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