O profissional de tecnologia nunca foi tão valorizado. A pandemia acelerou a digitalização das empresas, aumentando ainda mais a necessidade de contratação de profissionais dessa área. O problema é que o Brasil forma muito menos profissionais de tecnologia do que mercado precisa. Por isso, a forma mais fácil de preencher as vagas desse setor era recorrendo ao rouba-monte, ou seja, tirando gente de outras companhias.

A questão é que essa forma de atração de talentos costuma inflacionar os salários – e muitas empresas passaram a questionar se valia a pena pagar um passe tão alto. Como o déficit de mão-de-obra não é exclusividade do Brasil, companhias de outros países passaram a assediar o profissional brasileiro oferecendo salários em euro e dólar.

“A mão-de-obra brasileira é muito valorizado pela criatividade, capacidade de lidar com situações difíceis, pelo autodidatismo e por trabalhar muito. As empresas gostam desse perfil. Com o real desvalorizado, é vantajoso contratar brasileiros”, afirma Fellipe Couto, CEO da Vulpi, empresa especializada em recrutamento na área de tecnologia.

O problema é que a concorrência internacional adicionou um elemento a mais na difícil missão de contratar profissionais de tecnologia. “A empresa que foca só no lado salário, sem fortalecer a cultura da organização, vai continuar sofrendo com o rouba-monte, porque o profissional que souber inglês vai perceber que dá para multiplicar seu salário por cinco ou seis vezes, basta trabalhar para uma companhia de outro país”, diz Couto.

Formação de mão-de-obra

A solução que muitas empresas adotaram para suprir a necessidade de profissionais de tecnologia é a formação e capacitação de mão-de-obra. Esse é o caso da Take Blip, plataforma de comércio conversacional, que vai oferecer 30 mil bolsas de estudos para desenvolvedores.

Outro exemplo é p Bmg, que por meio da Raro Labs, criou a Raro Labs, uma escola de programação. Após o final do curso, os alunos que atingirem mais de 75% de aproveitamento serão contratados pela Raro Labs, Bmg ou empresas parceiras da Raro Academy.

“O curso é mais uma possibilidade de resolvermos a falta de mão-de-obra, mas não a única. Continuamos buscando profissionais no mercado, fazendo parcerias com universidades, buscando recém-formados e oferecendo programas de estágio”, diz Eduardo Mazon, diretor de operações do Bmg.

A vantagem de contratar alunos que passaram pelo curso é que eles chegam com a formação que a empresa precisa, como linguagem de programação e metodologia ágil e soft skills. “Identificamos uma dificuldade para achar profissionais com algumas soft skills, como lidar com pressão, mudança de prioridade. Essa flexibilidade é difícil de encontrar mas podemos treiná-las, assim como desenvolver a linguagem de programação que usamos em nossos apps”, afirma Mazon.

iFood e Stone também são casos de empresas que partiram para a formação de mão-de-obra de tecnologia. Com a Cubos Academy, o Ifood oferece uma formação com duração de 25 semanas em front-end, back-end e soft skills que permite que o profissional comece a atuar como desenvolvedor de software júnior.

Capacitação + inclusão

Por que não unir o útil com o necessário? Vários desses programas são voltadas para grupos minorizados ou de baixa renda. O iFood tem o Vamo Ai, um programa em parceria com o Resilia que oferece a pessoas de baixa renda uma formação na área da Ciência de Dados. “A Reprograma é outro parceiro a que apoiamos para oferecer cursos de programação para mulheres cis e trans”, diz a empresa. “Finalmente temos um programa para formação de jovens para o primeiro emprego com o PROA, que está com a primeira turma em andamento e segunda turma com inscrições abertas.”

O curso da Raro Academy, com duração de 10 semanas, custa R$ 2.993,40 – valor que pode ser pago em seis parcelas após o aluno arrumar emprego. Uma parte das vagas será destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“Uma das nossas preocupações na criação da Raro Academy é também garantir que pessoas em situação de vulnerabilidade social fossem contempladas. Por isso, 10% das vagas serão destinadas aos estudantes que se enquadrem nesse requisito, que receberão bolsas de estudo integrais”, explica Daniel Freire.

No Luiza Code, curso de capacitação em tecnologia oferecido pelo Magazine Luiza, o foco são as mulheres. “Aqui no Magalu, optamos por focar o programa na formação de mulheres, porque tem tudo a ver com o nome e alma da empresa”, afirma Patricia Pugas, diretora de gestão de pessoas do Magalu.

Ao formar mulheres, ela diz que a empresa pretende contribuir para acabar com a baixa participação feminina no setor de tecnologia – só 25% das vagas são ocupadas por mulheres. “Queremos ir além disso, queremos ter mais de 25% de mulheres no setor”, diz a executiva.

Para Renata Zenaro, líder de pessoas em tecnologia da Stone, a formação ajuda a reduzir um problema educacional do país. “Sabemos que há falta de formação acessível de qualidade, que o ensino superior não é para todos e que há um gap entre o conteúdo programático e as demandas reais das empresas. Infelizmente, as oportunidades não chegam tão facilmente para alguns públicos. Quando criamos uma formação, ampliamos o nosso alcance, damos oportunidades, e garantimos um alinhamento entre a formação que será oferecida aos estudantes e as nossas necessidades.”

Papel social da capacitação

Um grupo de executivos defende que é papel das empresas assumir parte da responsabilidade pela formação da mão-de-obra de tecnologia. “Esse déficit não é um problema só meu ou do meu vizinho. É de toda a sociedade. Se continuarmos só roubando o funcionário do vizinho, vamos perder mais tempo e dinheiro com recrutamento do que com inovação para melhorarmos nossos produtos e serviços”, diz o CEO da Vulpi.

O iFood cita um estudo da Brasscom que estima que o país terá um déficit de 300 mil profissionais até 2024 para falar de seu papel na capacitação. “Olhando para esse cenário, reforçamos o papel de empresas como o iFood para mudar esse contexto e fazer parte da solução. Estamos certos de que a educação é o caminho para fazer a diferença e contribuir para que o Brasil alcance seu potencial de se tornar uma referência mundial no mercado de tecnologia.”

Renata Zenaro, líder de pessoas em tecnologia da Stone, diz que a empresa investe não apenas na capacitação profissional, mas também na promoção de educação básica de qualidade. “Para nós, faz todo sentido investir nesse tipo de formação: a gente usa o nosso maior expertise para ajudar jovens com qualificação técnica e, de quebra, formamos profissionais para nós e para o mercado.”

Para Patricia Pugas, do Magalu, a formação de mão de obra também ajuda a dar uma carreira a quem não tinha essa oportunidade. “Ajudamos a resolver um problema de mão-de-obra, que é de todos, mas também um problema social: dar oportunidade a quem não tinha, direcionar para uma carreira que a pessoa talvez não conseguisse em outra circunstância.”

Além do papel social, eles também demonstram preocupação com a sobrevivência do ecossistema de empresas. “O hunting existe porque não dá tempo das empresas esperarem os profissionais se formarem. Mas é preciso dosar a mão no hunting para não prejudicar empresas que ainda estão em desenvolvimento. Às vezes, chega uma companhia grande e tira tanta gente de uma pequena que inviabiliza seu funcionamento”, diz Daniel Costa, co-fundador e head of people da Take Blip.

Contratação sem fronteiras

Outra forma de suprir a necessidade de gente de TI é derrubando as fronteiras geográficas. O profissional de tecnologia, muito mais do que os de outras áreas, já era adepto do home office. Com a pandemia, esse formato se consolidou e permitiu que as empresas contratassem gente de todos os lugares.

“Hoje, podemos olhar para o mundo inteiro como um banco de currículos para explorar e importar. Contratamos gente de todos os lugares. O modelo remoto abre fronteiras e permite que a pessoa trabalhe no interior, em outra cidade ou Estado”, afirma Juliano Becker, líder de pessoas da Pagar.me, empresa de pagamentos da Stone.

Apesar de não haver fronteiras para contratação, ele diz que a preferência é por profissionais brasileiros. “Queremos melhorar a capacitação da mão-de-obra daqui, ajudando o mercado e fomentando o conhecimento.”

Na Park Education, a busca por profissionais vai além do Brasil. “Também buscamos no exterior”, diz Eduardo Pacheco, Co-CEO e Co-Founder da rede de franquias de ensino de idiomas. “Não damos [capacitação], pois a curva de aprendizagem seria longa demais.”

Para os profissionais de TI que buscam uma colocação lá fora, a dica de Pacheco é ampliar o conhecimento de outro idioma. “Os profissionais precisam de capacitação em inglês também.”

Empresas aceleram formação de profissionais de TI com programas específicos

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).