Se você frequenta o Instagram, deve ter percebido que a quarentena provocou uma verdadeira explosão na quantidade de lives, as transmissões ao vivo.

Dependendo do horário – especialmente o final de tarde, considerado o momento “clássico” para esse tipo de comunicação –, há dezenas delas disputando a sua atenção.

A oferta exagerada pode reforçar sentimentos de ansiedade e angústia, pois só é possível escolher uma transmissão para acompanhar por vez.

Caso a opção seja ficar “zapeando” pelos canais, assim como fazemos diante da TV quando estamos procurando algo interessante para assistir, o resultado pode ser ainda mais frustrante: a sensação de que nada está sendo absorvido.

Humanidade compartilhada

Grande parte das lives das últimas semanas têm como tema, obviamente, a crise do coronavírus e suas implicações. Mas será que todas essas pessoas estão compartilhando algo realmente interessante, inédito e urgente – os pressupostos para uma transmissão ao vivo?

Para a psicóloga Renata Sansoni, a necessidade de se fazer presente foi amplificada pela pandemia. Grande parte do apelo das lives, tanto para quem faz quanto para quem participa, é a perspectiva de interação em tempo real com as outras pessoas, que podem fazer comentários, perguntas ou mandar emojis.

“Em um momento como esse, as pessoas têm medo de ser esquecidas e querem se sentir parte de um todo. Aflora com mais força o sentimento de humanidade compartilhada”, descreve a psicóloga.

Deve-se reconhecer, portanto, que o excesso é em grande parte motivado por um desejo genuíno de conexão e pela preocupação em apoiar e acolher as outras pessoas num momento tão delicado.

Efeito rebote

As boas intenções não eliminam, entretanto, o fato objetivo de que há muitas lives que simplesmente não deveriam existir num cenário em que há uma preocupação geral dos especialistas em saúde mental com o nível de ansiedade das pessoas em quarentena.

Renata chama a atenção para o efeito rebote que esse excesso pode gerar: as pessoas estão tão preocupadas em acolher umas às outras, em ouvir e ser ouvidas, em tentar reduzir a ansiedade própria e alheia por meio dessas conexões, que a superdose pode ter o efeito contrário.

“É como alguém que está com enxaqueca, exagera nos remédios e isso só faz aumentar a enxaqueca, em vez de reduzi-la”, ela compara.

Para a psicóloga, as lives estão se tornando um superlativo da necessidade humana de se expor e de expressar. Ela percebeu também que, como provável estratégia para vencer a concorrência acirrada, muita gente está recorrendo às transmissões ao vivo em parceria. “Na falta de um conteúdo próprio que justifique uma live, a pessoa imagina que o encontro com outra pessoa, por si só, possa ser essa justificativa”, avalia Renata.

Três minutos no máximo

Incomodada com o excesso de lives no Instagram e com a longa duração de muitas delas, Luciana Sato, fundadora da Rede Héstia – comunidade feminina de apoio compartilhado –, passou a oferecer um espaço de divulgação na plataforma para depoimentos gravados sobre a quarentena – aprendizados, experiências, reflexões.

Um dos pedidos de Luciana é que a duração não passe de três minutos. “Isso ajuda a pessoa a refletir antes de falar, para entender o que de fato é relevante naquilo que ela pretende compartilhar”, avalia.

Um dos problemas das lives é justamente a falta de limite de tempo. “Muita gente divaga bem além do que seria suficiente”, constata Luciana. E tempo é algo que ela não está tendo durante a quarentena, como tantas outras pessoas. Com duas crianças pequenas em casa e uma série de afazeres acumulados, Luciana dificilmente consegue acompanhar uma live do começo ao fim, por mais interessada que esteja.

Que tal um detox?

O excesso de estímulos desperta a comparação, a autocobrança, a sensação de que é preciso fazer, falar e mostrar para ser percebido, ser aceito e não ser esquecido. Há até uma síndrome já descrita pela Psicologia para traduzir esse sentimento, batizada de Fomo, iniciais de “fear of missing out”, medo de perder algo.

O melhor antídoto, sugere a psicóloga Renata, é o exercício da autoempatia. “Isso diz respeito a fazer escolhas a partir da auto-observação e do autoconhecimento. O que é realmente importante para mim agora? Que critérios devo usar para selecionar os momentos em que me farei presente? O que preciso priorizar para me sentir melhor?”

Um bom exercício de autopercepção é fazer um detox: ficar um dia longe do Instagram. Substituir o tempo usado na rede social por um bom livro, um filme, uma série. Enfim, buscar outras fontes de diversão e inspiração, até mesmo para avaliar o grau de dependência provocado pela sensação de estar sempre conectado.

Programas de auditório

A especialista em branding Lívia Farnese lembra que as aparições no Instagram ajudam a compor a imagem não apenas da própria pessoa, mas também da marca à qual ela está vinculada, seja como empreendedora ou como empregada.

Para muitos usuários, observa Lívia, o Instagram já deixou de ser apenas uma rede social: transformou-se numa espécie de canal de televisão pessoal. As lives fariam, assim, papel semelhante ao dos programas de auditório – atrair a atenção e conquistar público para o restante da programação.

“A lógica faz sentido, mas o equívoco está na ideia de que é preciso fazer de qualquer forma, mesmo sem muita reflexão e planejamento, só porque muita gente está fazendo”, diz Lívia. “Nessas circunstâncias, são grandes os riscos de criar um lugar de desconexão com a espinha dorsal de uma marca pessoal ou de um negócio.”

Assim, sugere a especialista, é importante fazer quatro perguntas fundamentais antes de recorrer às lives:

  1. O assunto tem conexão real com o universo da minha marca?
  2. O meu público tem interesse no tema?
  3. Abordá-lo trará que tipo de interação e de retorno?
  4. A provável percepção das pessoas estará em sintonia com os atributos que eu gostaria de ressaltar em mim ou na marca associada a mim?

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