Por Gabrielle Tétrault-Farber e Antoni Slodkowski

TÓQUIO (Reuters) – A velocista bielorrussa Krystsina Tsimanouskaya deixou Tóquio a bordo de um voo rumo a Viena sob a proteção diplomática da Polônia nesta quarta-feira, menos de 72 horas depois de se recusar a obedecer as ordens de sua equipe e voltar para casa.

A aparente deserção de uma atleta olímpica ao estilo da Guerra Fria se tornou uma das principais notícias dos Jogos e pode isolar ainda mais Belarus, que está sob sanções financeiras e econômicas do Ocidente após uma repressão do presidente Alexander Lukashenko contra a oposição desde o ano passado.

Depois de passar duas noites na embaixada da Polônia, a velocista de 24 anos entrou no avião no aeroporto de Narita usando óculos de sol decorados com as palavras “EU CORRO LIMPA”.

Inicialmente, ela pegaria um voo para Varsóvia. Um porta-voz do governo polonês disse que na última hora ela optou por um voo com destino à capital da Áustria por temer por sua privacidade e segurança depois que a notícia sobre seu plano veio a público e repórteres reservaram assentos no voo.

As preocupações são particularmente grandes devido a um incidente ocorrido em maio, quando um avião da Ryanair foi forçado a pousar em Belarus e um jornalista dissidente foi preso, disse a fonte polonesa.

A corredora causou um incidente diplomático no domingo, quando disse que seus treinadores abreviaram sua participação nos Jogos de Tóquio, exigindo que ela fizesse as malas na Vila Olímpica e levando-a a aeroporto contra sua vontade por ela tê-los criticado publicamente.

Ela se recusou a embarcar no voo e pediu proteção da polícia japonesa.

“Não voltarei a Belarus”, disse ela à Reuters na ocasião.

O Comitê Olímpico Nacional de Belarus não respondeu a um pedido de comentário nesta quarta-feira, tendo informado anteriormente que os treinadores decidiram retirar a atleta dos Jogos seguindo conselho de médicos a respeito de seu “estado emocional e psicológico”.

O Ministério do Interior da Áustria disse que Tsimanouskaya pode contar com o apoio do país em sua chegada a Viena. O ministério prevê que ela viaje para Varsóvia, mas se ela pedir asilo na Áustria, isso será tratado de acordo com a legislação local, acrescentou.

O político de oposição bielorrusso baseado na Polônia, Pavel Latushko, disse que ela irá à Varsóvia, e o vice-ministro polonês das Relações Exteriores, Marcin Przydacz, confirmou que ela continua sob os cuidados dos serviços diplomáticos de seu país.

Um porta-voz do Ministério do Interior de Belarus não foi encontrado para comentar sobre a segurança do voo de Tsimanouskaya. Autoridades do governo bielorrusso pouco disseram publicamente sobre o caso dela.

COI INVESTIGA

O Comitê Olímpico Internacional (COI) iniciou uma investigação sobre a alegação de Tsimanouskaya de que foi retirada da Vila Olímpica, e disse nesta quarta-feira que recebeu um relatório da equipe bielorrussa.

“O COI está montando uma comissão disciplinar para estabelecer os fatos deste caso e para ouvir as duas autoridades – Artur Shumak e Yuri Moisevich – que supostamente se envolveram neste incidente”, disse o porta-voz do COI, Mark Adams.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, acusou o regime do presidente bielorusso, Alexander Lukashenko, de intolerável “repressão transnacional” no assunto.

O incidente chamou a atenção para Belarus, onde a polícia reprimiu dissidentes após uma onda de protestos desencadeada por uma eleição no ano passado que, segundo a oposição, foi fraudada para manter Lukashenko no poder.

Autoridades bielorrussas caracterizaram os manifestantes antigovernamentais como criminosos ou revolucionários violentos apoiados pelo Ocidente e descreveram as ações de suas próprias agências de segurança como apropriadas e necessárias.

(Por Gabrielle Tétrault-Farber e Antoni Slodkowski em Tóquio, Alan Charlish em Varsóvia; reportagem adicional de Karolos Grohmann, Parniyan Zemaryalai, Akira Tomoshige, Angie Teo e Pak Yiu)

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