Desde que a pandemia de covid-19 restringiu a circulação de pessoas e derrubou as viagens de negócios e lazer, o setor aéreo emendou um voo de galinha atrás do outro. Cada pequeno progresso na busca por uma vacina contra o coronavírus enchia o mercado de esperança, mas o otimismo diante da incerteza durava pouco. Depois de um ou dois dias no azul, as ações de companhias como Gol, Azul e CVC voltavam a cair.

Quando a pandemia completou um ano, especialistas disseram ao 6 Minutos que ainda não era hora de voltar a investir no turismo. A conclusão era que isso significaria apostar no desfecho rápido de uma pandemia que ainda não tinha um horizonte definido. Sendo que as fragilidades das empresas continuavam lá: margens baixas, excesso de capacidade, impacto do custo dolarizado dos combustíveis.

Na semana passada, porém, diversas notícias agitaram o mercado de turismo. A Gol comprou a regional MAP e a Azul divulgou um plano de expansão de rotas, além de sinalizar que apresentará dentro de até 90 dias uma proposta para adquirir a Latam. Ao mesmo tempo, outros ventos sopram favoráveis: o dólar vem perdendo força e, talvez a notícia mais importante, o calendário de vacinação em São Paulo teve dois saltos seguidos, com anúncios que totalizam 45 dias de antecipação.

Seriam finalmente os sinais positivos de que o investidor precisava para voltar a colocar o setor de turismo na carteira? Voltamos a consultar os especialistas.

Com a vacinação antecipada em São Paulo, o otimismo contagiou a Bolsa e as empresas ligadas ao turismo passaram a enxergar que a recuperação está mais próxima. Essa expectativa é realista? O bom desempenho do turismo e de outros setores que dependem da circulação de pessoas, como varejo e educação, não pode ser dissociado do anúncio feito pelo governo paulista. Mas ele apenas coroou um movimento de antecipação que o mercado já vinha fazendo.

“A última sinalização que João Doria havia feito [no dia 9, quando ele divulgou outro adiantamento de datas] já havia criado expectativas de melhora no mercado”, diz Luis Sales, estrategista-chefe da Guide Investimentos. “A partir do quarto trimestre, podemos esperar uma normalização melhor para o setor. Mas isso precisa ser acompanhado”, pondera.

Roberto Nemr, analista da Ohmresearch, também adota um tom de cautela. “Como em toda antecipação, há uma certa dose de exagero, pois sabemos que não é tão automático assim o processo [de recuperação]. O Chile, mesmo com maioria da população vacinada, teve que voltar a decretar lockdown, então não é tão simples assim. Ainda é um pouco cedo para ter essa euforia”, defende.

Ele acredita que o turismo doméstico irá se recuperar antes do internacional, mas isso só será sentido pelo setor no final deste ano, com as férias de verão. “Julho ‘já foi’”, justifica.

Ricardo Jacomassi, sócio e estrategista-chefe da TCP Partners, tem uma visão mais entusiasmada. Ele observa que, de acordo com a pesquisa mensal de serviços do IBGE, a segunda onda de covid-19 não produziu efeitos tão intensos na demanda por transporte de passageiros como a primeira. “Com a vacinação, as pessoas terão mais clareza para viajar, principalmente dentro do Brasil. O setor já está se recuperando e ficará bem”, acredita.

Onde a CVC se situa nesse cenário de melhora? “Ela vai aproveitar muito essa recuperação do turismo doméstico”, prevê Jacomassi. “Aliás, todas as empresas que operam nesse mercado [doméstico] devem ter resultados robustos.”

Nemr também acredita que as viagens nacionais serão mais relevantes em um primeiro momento, com dólar caro e fronteiras ainda fechadas aos brasileiros, o que deve beneficiar a CVC. “Ela viveu um inferno astral em 2020, com falcatruas contábeis em balanços de anos anteriores. Mas tem andado melhor que as aéreas, até por ter custos fixos mais baixos. Eu a considero um player até mais interessante”, diz o analista da Ohmresearch.

Como a compra da MAP pela Gol, o plano de expansão de rotas da Azul e o interesse dessa mesma companhia em adquirir a Latam se relacionam? Eles mostram uma tendência de consolidação, que faz sentido neste momento e ocorre também em outros setores. “Mais que estratégico, é um movimento oportunístico. Em um momento de crise, as empresas em melhor situação financeira vão às compras”, explica Nemr. “Elas enxergam na debilidade de outros players uma via de crescimento a um custo bem mais baixo do que teriam em uma situação normal. Então acabam se beneficiando.”

Sales ressalta que ter um horizonte mais claro de retomada favorece que empresas como a Azul tomem risco e captem dívida para fazer esses movimentos. “Comprando a Latam, a Azul pode entrar em rotas em que não tem penetração”, explica. “Já a movimentação da Gol não tem um impacto tão grande diante do tamanho da empresa, mas vale para aumentar sua presença em Congonhas [onde a MAP tem slots de voo].”

Jacomassi vai além e vê chances de que até empresas estrangeiras tirem uma casquinha do mercado brasileiro, favorecidas por mudanças na legislação. “Há espaços vazios, e eles serão preenchidos de alguma maneira. Isso também está sendo visto por companhias europeias, sobretudo as low cost, que enxergam boas oportunidades [de compra] aqui. Nem todas as brasileiras estão com saúde financeira para isso.”

As viagens corporativas podem não voltar ao que era antes, já que as empresas viram que era possível substituir as reuniões presenciais por conferências virtuais. O fluxo de turistas vai preencher essa lacuna deixada pelo viajante de negócios? Os três especialistas apostam que sim. Depois de quase um ano e meio com restrições de viagem, eles acreditam que existe uma enorme demanda reprimida. “Depois de tanto tempo, viajar será uma prioridade. Como o orçamento está reduzido, as pessoas vão prestigiar o turismo doméstico, mais acessível”, diz Nemr.

Sales aponta que, na quarentena, as pessoas passaram a consumir mais bens e menos serviços, e agora isso irá se inverter, com maior procura por viagens. “A perda de renda foi maior nas classes menos favorecidas. As mais abastadas vão apenas trocar os destinos internacionais pelos locais”, afirma.

Ele inclusive aposta em uma paulatina retomada das viagens corporativas. “O home office tem impacto sim, mas alguns setores têm necessidade de voltar a operar de forma mais presencial, com contato físico com clientes, visitas a filiais. Um modelo híbrido parece fazer mais sentido.”

Esta é uma boa hora para comprar ações dessas empresas, aproveitando os preços ainda descontados? Mesmo com o avanço da vacinação, o risco de um revés sanitário que imponha um novo fechamento da economia, como ocorreu agora no Chile, nunca pode ser completamente descartado. “Mas esse risco começa a ficar bem menor, e isso se reflete no preço das ações do setor, que tende a voltar aos níveis pré-pandemia”, explica Sales.

Na visão do estrategista-chefe da Guide, a Azul foi a empresa do setor que melhor se recuperou do baque pandêmico. “Ela performou bem, já devolveu boa parte das perdas e não aumentou dívida. Ela usou a gestão de cargas como um grande fazedor de receitas, enxugou custos e saiu bem mais forte da crise, inclusive com chance de adquirir a Latam”, comenta.

Por outro lado, a Gol sofreu um pouco mais, mas tem um cenário positivo pela frente, diz o especialista. “Ela está com uma defasagem maior de preço. Teve um desembolso grande de caixa para incorporar a Smiles e neste momento tem uma dívida maior para administrar. Mas suas rotas são mais focadas em capitais, o que ajuda na recuperação”, afirma.

Ele conclui que, monitorando os riscos envolvidos, tanto Azul como Gol são oportunidades vistas com bons olhos para o segundo semestre e início de 2022.“Temos uma empresa melhor posicionada, com preço mais caro [Azul] e outra [Gol] com maior horizonte de retomada após a vacinação, mas risco maior”, resume.

Já Nemr tem preferência pela Gol, por entender que a empresa fez um controle de custos eficiente e tem diante de si uma consolidação mais simples de executar (com a MAP). “Se a Azul realmente for comprar a Latam, aquele é um bicho grande, com muito problema de endividamento, então pode ser uma deglutição mais complexa”, pondera.

Ele acrescenta que, no patamar atual de preços, a CVC é outra possibilidade. “Ela ainda está abaixo de R$ 30. Muito acima dessa faixa, eu não compraria, talvez só até uns 10% [acima]”, diz.

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