A fila de varejistas de moda, calçados e acessórios que recorreram à Justiça para repactuar prazos de pagamento com seus credores não para de crescer. A última a engrossar esse movimento foi a TNG, que protocolou seu pedido de recuperação judicial na semana passada.

Ao menos 13 grupos desses segmentos entraram com pedidos de proteção judicial de 2020 para cá, segundo levantamento da consultoria Alvarez & Marsal. Esse é o caso da Cavalera, Le Postiche e Itapuã Calçados, só para citar alguns nomes (veja lista mais abaixo). A previsão é que o número de recuperações dobre em 2021.

“As varejistas que já vinham sofrendo com problemas de caixa, acabaram entrando na crise de 2020 sem recursos para se sustentar em um cenário de fechamento de lojas e um regime intermitente de abre e fecha do comércio. A ausência de caixa não ajudou a fazer frente à ausência de faturamento”, disse João Paulo Carvalho, sócio-diretor da Alvarez & Marsal.

No começo da pandemia, segundo ele, os bancos renegociaram dívidas das empresas na expectativa de que haveria melhoras em 2021. “Mas não foi o que aconteceu. Em março, voltamos a ter fechamento de lojas. Sem extensões de contratos, com dívidas sendo executadas, sem dinheiro para investir no digital, restou a essas empresas pedir proteção judicial para tentar se reerguer e voltar a operar de maneira mais eficiente”, disse Carvalho.

O baque nesses setores foi forte. Dados do ICVA (Índice Cielo do Varejo Ampliado) mostram que o faturamento do setor de vestuário caiu mais de 80% em abril de 2020 em relação a igual período de 2019. O setor ainda opera abaixo do patamar pré-pandemia. Em março,  o segmento de tecidos vestuários e calçados caiu 41,5% frente a fevereiro, segundo a pesquisa de comércio do IBGE.

Mas o que todas essas redes têm em comum? Para começar, a maioria das redes que entraram em recuperação estavam localizadas, principalmente, dentro de shoppings centers, que ficaram fechados por mais de 60 dias no ano passado. Neste ano, esses estabelecimentos voltaram a ser afetados por medidas de restrição de circulação de pessoas para conter a pandemia de coronavírus.

“O setor têxtil tem sido um dos maiores afetados pela pandemia tanto em 2020 quanto em 2021. E isso não é só no Brasil. Acompanhamos o desempenho em vários mercados e em todos eles, os setores mais prejudicados foram os de vestuário e calçados”, disse Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem, consultoria de varejo.

Mas foi só isso? Não. O que mais pesou para as empresas que entraram em recuperação judicial foi o fato de ainda dependerem muito das vendas presenciais e pouco do e-commerce.

“Esse setor é muito dependente da compra física, apesar do crescimento das vendas online. A maioria não estava preparada para vender no online, dependendo muito do tráfego de clientes, da compra de impulso, da experimentação. Tudo isso deixou de acontecer com as medidas de restrição”, diz Yamashita.

Por que algumas empresas sentiram a crise mais que outras? Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail, diz que não dá para generalizar a situação para todas as empresas que recorreram à recuperação judicial. “Houve um somatório de coisas. O que estamos vivendo é totalmente atípico, o varejo sofreu um tombo desproporcional e imprevisível. Obviamente, para empresas em situação menos saudável, que toma um tombo como o do ano passado, a situação se complica. No caso da Le Postiche, a demanda por produtos de viagem despencou.”

Mas ele afirma que algumas foram mais resilientes. “Essas conseguiram se ajustar, enquanto as outras não tiveram fôlego para o novo momento. Um dos fatores que contribuiu é a capacidade de melhorar as vendas digitais. Quem já tinham plataformas digitais conseguiu se equilibrar melhor. E outras foram rápidas para aderir à MP de redução de salários e para renegociar contratos de locação”, diz Serrentino.

Para Carvalho, da Alvarez & Marsal, dá para dividir a situação das empresas em dois grupos: as que estão boa situação financeira e prontas para fazer aquisições e aquelas com dificuldade para se manter de pé em um mundo cada vez mais digital. “As que estão bem capitalizadas conseguem fazer boas aquisições e aproveitar o momento mercadológico. Essas tendem a fazer um movimento de consolidação, caso do grupo Soma com a Hering.”

Que outros efeitos foram sentidos? A pandemia afetou também o tipo de roupa que o consumidor passou a usar. Saíram os ternos, as roupas e calçados sociais e entraram os moletons, agasalhos e pijamas.

“O consumidor mudou bastante. Antes, ele comprava roupa e calçado por ocasião: festa, sair, trabalhar. Ficando mais tempo em casa, ele sentiu menos necessidade de comprar novos itens e passou a usar o que já tinha ou migrou para categorias de roupas mais confortáveis”, afirma Yamashita.

Por que a TNG pediu recuperação? Em nota, Tito Bessa Junior diz que começou 2021 acreditando que o pior havia passado. “Mas infelizmente esse novo fechamento de aproximadamente 50 dias das principais lojas da TNG em 2021 somado às restrições do final de 2020 e início deste ano nas principais capitais que operamos, não nos restou outra opção a não ser buscar uma proteção legal com o intuito de reestabelecer nosso fluxo de caixa para que possamos operar normalmente e preservar empregos,  evitando que ações de execução e outras constrições inviabilizem nossa capacidade de operar”, disse.

O que vai acontecer agora? Para Serrentino, da Varese Retail, a situação do varejo se deteriorou neste ano. “No segundo semestre de 2020, tivemos uma recuperação que permitiu que varejo pudesse respirar. Não esperávamos pela segunda onda de coronavírus e novos fechamentos com menos medidas compensatórias do governo e reduções de locações com shoppings.”

Para Carvalho, da Alvarez & Marsal, o número de recuperações, tanto judiciais quanto extrajudiciais, vai continuar subindo em 2021. No ano passado, 1.179 empresas entraram em recuperação judicial.

“Quando olhamos para 2020 e 2021, vemos um potencial de crescimento de recuperações de 50%, elevando esse número para 1.800. Essa previsão se baseia na correlação entre o PIB e o total de recuperações. Na sequência das crises, temos empresas com dificuldade para fazer frente aos pagamentos e buscando proteção”, afirma.

MarcaDívida (R$)
2016
Barreds102.727.664,00
Equuss13.991.849,00
Luigi Bertolli, EMME, GAP e Offashion513.254.150,00
2018
Farrawi Modas2.653.924
2019
Grupo Paquetá638.000.000,00
2020
Camisaria Colombo1.890.000.000,00
Fatto a Mano36.313.975,00
Le Lis Blanc, Dudalina, John John, Bobô, Rosa Chá e In 1.435.953.404,00
Leader1.099.797.225,00
Lojas Radan26.016.791,00
MCD Brasil, Gotcha35.602.045,00
RC Atacado1.980.013,00
Via Uno40.736.846,00
Zabumba, Raphaella Booz, All Mine, Ana Hickman16.091.433,00
2021
Cavalera34.000.000,00
Itapuã Calçados199.148.212,00
Le Postiche64.600.000,00
TVG200.000.000,00
Total6.350.867.533,00

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