As ações do banco digital Inter deram um salto de quase 25% com a divulgação de um acordo de investimentos a ser feito com a StoneCo. A empresa de maquininhas se comprometeu a adquirir uma participação acionária de até 4,99% do capital social do Inter, desde que não ultrapasse R$ 2,5 bilhões, em um follow-on que o Inter pretende fazer futuramente.

Nessa jogada, a Stone age como um investidor âncora – aquele que se compromete a adquirir uma grande quantidade de ações com o objetivo de tornar viável o IPO ou follow-on de uma empresa. Em troca, ela ganha o direito de preferência na aquisição do Inter, por até seis anos, caso os controladores queiram vendê-la, além de uma cadeira no conselho. O preço por unit que a processadora de cartões pagará é de R$ 57,84, já considerando o desdobramento dos papéis na proporção de um para três aprovado na última semana.

E as novidades não param por aí: em outro fato relevante, o Inter anunciou que pretende fazer uma reorganização societária, cuja viabilidade ainda está em estudo, para migrar sua base acionária atual para a Inter Platform, empresa que será listada na Nasdaq americana.

Com isso, o atual acionista do Inter terá três opções: receber ações da Inter Platform nos EUA, receber BDRs dessas ações aqui no Brasil ou receber o montante de sua participação em dinheiro, após avaliação da empresa.

Entenda o que está em jogo com essa movimentação e o que as duas empresas podem ganhar com a parceria.

Potencial de sinergia é grande

A grande sacada da parceria é aproximar as bases de clientes de uma empresa com a outra e oferecer serviços e produtos entre elas, fenômeno conhecido como cross-selling.

De um lado, os clientes da Stone (que são em sua maioria comerciantes de varejo) poderão se conectar com o InterShop, marketplace do Inter, além de consumir serviços de crédito e outros produtos financeiros do banco. De outro, os clientes Inter ganharão na Stone uma experiência de pagamentos digital via dispositivos móveis de que até então não dispunham.

“A Stone já vinha investindo em novas plataformas e tecnologias, tanto é que comprou a [empresa de software] Linx recentemente. Poder utilizar a plataforma do Inter é muito interessante para ela”, comenta Vitor Souza, especialista da mesa de renda variável da Valor Investimentos. “Além disso, explorar a capacidade de financiamento do banco vai impulsionar a parte de empréstimos. A ideia é que os varejistas [clientes da Stone] aproveitem isso.”

Além disso, o Inter pode ajudar a Stone a melhorar suas ofertas de capital de giro aos clientes. “Isso pode ser oferecido por meio de FIDCs [fundos de renda fixa que aplicam em títulos de créditos a receber de uma empresa] ou pela antecipação de recebíveis que a Stone pode fazer para seus clientes, por exemplo”, explica Rafael Ragazi, analista da Nord Research.

Parceria ajuda a fortalecer as duas empresas contra o Pix e o Nubank

Para Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, o acordo foi uma decisão estratégica bastante agressiva por parte da Stone. O objetivo foi se antecipar a uma realidade que atingirá em cheio empresas de meios de pagamento como ela: a inevitável queda de receita, a partir do crescimento do Pix.

“De acordo com um estudo da [consultoria alemã] Roland Berger, a adoção em massa do Pix pelos brasileiros pode cair até 80%, no cenário mais agressivo, em que o Pix domina o débito e as maquininhas se tornam dispensáveis. Então a Stone está se antecipando a essas consequências negativas”, ela explica.

Do lado do Inter, Simone explica que a parceria com a Stone injetará não apenas capital, mas também fôlego para reconquistar o espaço perdido principalmente para o Nubank.

“O Inter começou muito bem como uma fintech e depois perdeu gás. Essa parceria é uma boa oportunidade para ele se associar a uma marca forte e voltar a enfrentar o Nubank. A Stone hoje é a sexta maior empresa em valor do mercado financeiro”, ela ressalta.

Por que o Inter quer sair da Bolsa brasileira?

Existem duas explicações para isso. A primeira tem a ver com o mercado brasileiro: nossa Bolsa é volátil demais. “A B3 é uma loucura, é muito sujeita a oscilações atreladas à cena política brasileira. Abrindo capital em economias mais estáveis, você preserva os papéis dessa volatilidade”, explica Simone. “Foi o que a XP fez: sair da montanha-russa. Há impactos, claro, mas eles são amenizados pelo ambiente do mercado de capitais externo.”

A outra tem a ver com planos mais ambiciosos do Inter: tornar-se uma empresa global. A abertura de escritórios na Europa e EUA já é um passo nessa direção. E a listagem na Nasdaq ajudará a fortalecê-la como empresa global de tecnologia.

“Estar lá facilita comparar a ação do Inter com outras empresas que têm esse mesmo perfil: fintechs com elevado potencial de crescimento. É um perfil muito diferente das empresas de tecnologia que temos no Brasil”, compara Ragazi.

Ele avisa que, se for aprovada, essa reorganização societária dará um pouco de trabalho para o investidor que hoje tem ações do Inter no Brasil. “Quem optar pelas ações nos EUA precisará abrir conta em uma corretora lá e pagar imposto de renda de acordo com a lei americana. Mesmo quem optar pelas BDRs terá o fator câmbio, que influenciará no retorno final.”

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