A rede de academias Smart Fit divulgou o prospecto preliminar para a venda de ações em seu IPO. A faixa indicativa foi estabelecida entre R$ 20 e R$ 25 por ação e o preço será definido no dia 12 de julho, após o fim do processo de bookbuilding (em que investidores manifestam sua intenção de compra).

A oferta envolve a distribuição primária de 100 milhões de ações e está sendo coordenada por Itaú BBA, Morgan Stanley, Santander Brasil, BTG Pactual e ABC Brasil. Se conseguir atingir o topo da faixa indicativa, a operação renderá R$ 2,5 bilhões à empresa. Os recursos serão usados na expansão do negócio – com crescimento tanto orgânico (com a construção de novas unidades) como inorgânico (adquirindo academias rivais).

A rede de academias já havia tentado abrir o capital no fim de 2018, mas voltou atrás diante de condições adversas do mercado naquela ocasião. Desta vez, a Smart Fit cogita até ampliar a quantidade de ações da oferta, em 20%, a depender do interesse do mercado. O período de reserva vai de 29 de junho a 9 de julho e os papéis começam a ser negociados na B3 no dia 14 de julho, pelo ticker SMFT3.

Como vai a empresa?

A pandemia de covid-19 não passou despercebida pela companhia fundada por Edgard Corona – hoje a segunda maior rede de academias do mundo, com presença em vários países da América Latina. A crise sanitária fez a receita líquida da Smart Fit cair quase 40% – para R$ 1,26 bilhão em 2020 e R$ 372 milhões no primeiro trimestre deste ano. No final de março, a base de clientes era de 2,38 milhões de alunos, uma queda de 15,6% em 12 meses.

Mas isso não fez a empresa tirar o pé do acelerador: 69 novas unidades foram inauguradas no último ano, fazendo a rede chegar a 929 endereços. No final de 2020, ela recebeu um aporte de R$ 680 milhões e, em março deste ano, usou parte do dinheiro para comprar a rede rival Just Fit, com 27 academias em São Paulo – negócio que foi concluído no dia 16 de junho.

A Smart Fit conquistou espaço no mercado rapidamente. Por que ela deu tão certo? Ela replicou um modelo de negócio low cost que já era muito comum na Europa e nos Estados Unidos, com aparelhos modernos, serviços simplificados e mensalidades acessíveis. E o trouxe para um mercado em que as academias eram caras e com gestão pouco profissional.

“As academias no Brasil ainda têm um certo grau de amadorismo em termos de gestão e qualidade dos serviços. É um mercado muito pulverizado, em que os competidores da Smart Fit não têm a mesma estrutura e não conseguem entregar o mesmo patamar [de qualidade]”, explica o assessor de investimentos Romero Oliveira, da Valor Investimentos. “Nesse ambiente, foi muito fácil para ela aumentar o market share. Ela conseguiu profissionalizar a gestão, reduzir os custos e padronizar o serviço, que é algo que falta nesse setor.”

O desembolso mensal baixo (a partir de R$ 89,90, conforme o plano e a localidade) tem dois efeitos positivos. O primeiro, mais óbvio, é ampliar o acesso a vários estratos sociais. O segundo é garantir uma receita recorrente mesmo daquele aluno que paga e acaba não frequentando. “Como a mensalidade é barata e cai no débito automático, ele não se importa de deixar lá”, diz Oliveira.

Qual é a fotografia do setor depois de mais de um ano de pandemia? “O setor passou por dificuldades. As academias pequenas e médias, de bairro e regionais, sofreram muito. Mas foram resilientes, e nem todas fecharam”, afirma Ricardo Jacomassi, sócio e economista-chefe da TCP Partners. “Já as grandes redes, com a parte financeira e operacional mais sustentável, sobreviveram.”

Ele conta que a visão das grandes redes é que essa fase vai passar e a recuperação da economia será muito forte. Por isso, elas precisam estar capitalizadas para suportar essa retomada e, ao mesmo tempo, preencher os espaços que as pequenas e médias deixaram. “O IPO da Smart Fit é voltado justamente para esses dois pontos: crescer e preencher espaços”, explica.

As academias low cost tendem a captar melhor a tendência de recuperação da economia, e não só por cobrarem menos. “As redes com muitas unidades conseguem negociar melhor os aluguéis. Já as academias de bairro, que têm um gerenciamento não tão bom e dificuldade maior de captar recursos, ficaram para trás”, diz Jacomassi. “Aliás, é um movimento que já vinha ocorrendo e que a pandemia apenas acelerou.”

E como a Smart Fit vem atravessando essa fase? Ela sofreu as mesmas limitações de funcionamento que afetaram todas as outras academias. Mas soube explorar produtos digitais, como treinos online para serem feitos em casa e planos de consultoria nutricional à distância. Esses serviços prenderam o interesse dos alunos e estancaram a sangria das desistências. “Ela agiu bem rápido, e isso funcionou. A queda de receita no período foi de 40% e poderia ter sido muito pior”, afirma Oliveira.

Além disso, implantou mudanças estruturais na gestão da empresa, como medidas de redução de custos. “Eles enxugaram gastos, reduziram o contingente de professores e funcionários”, diz o analista da Valor.

Mesmo na pandemia, a Smart Fit continuou inaugurando unidades e comprou uma rede concorrente. O que isso diz sobre ela? “Isso mostra que, apesar do momento desafiador, eles têm um projeto de longo prazo muito bem definido. Eles querem expandir tanto de forma orgânica como inorgânica”, responde Oliveira. “E não estão se limitando ao Brasil. Eles têm plano bastante agressivo de crescer na América Latina. Apesar de ter sido atrasada pela pandemia, a estratégia continua acontecendo, e com os recursos do IPO eles terão mais condições de levá-la adiante.”

Ainda há espaço para mais crescimento? Sim, e muito. “É um setor que, apesar do crescimento, ainda é muito pulverizado, então a Smart Fit está longe de um ponto de saturação”, afirma Oliveira. “Eles têm muita facilidade de identificar operações [de outras academias] que não vão tão bem, em pontos já reconhecidos e consolidados, e fazer a aquisição.”

Ele acrescenta que o IPO vem em boa hora, já que 2021 caminha para ser o ano de maior volume de operações da Bolsa e IPOs. “A empresa está com apetite para crescimento, mas também vê um momento macroeconômico favorável para tomar um risco maior e fazer a emissão. Mas isso não é a Smart Fit, é o mercado como um todo: as empresas estão aproveitando essa oportunidade.”

Jacomassi diz que as expectativas de recuperação do setor estão muito atreladas ao avanço da vacinação, como já vem ocorrendo nos países desenvolvidos. “A principal determinante para as academias é a recuperação da população ocupada. A pandemia provocou a perda de cerca de 7 milhões de empregos. Se a velocidade do emprego for maior que a esperada, esse setor vai captar muito”, acredita.

O IPO da Smart Fit pode ser uma boa oportunidade para o investidor? É um IPO que certamente chamará atenção, já que se trata de um setor que ainda não tem presença na Bolsa. “Só por ser uma novidade, já é interessante. A B3 é muito limitada em termos de teses de investimentos”, afirma Oliveira.

Mas o sucesso da operação dependerá de como o mercado receberá os preços sugeridos. “A história do case pode ser ótima, mas, no fim das contas, o que importa é o quanto você cobra e paga. O IPO deles de 2018 foi parecido com esse de agora: eles vieram a marcado, pediram um preço muito alto, não houve demanda e eles desistiram. O mercado achou caro demais”, lembra o analista da Valor.

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