Três meses após o início das regras que regulamentam o uso de patinetes elétricos em São Paulo, o número de equipamentos em circulação caiu e a prefeitura ainda não criou as estações onde eles devem ser deixados.

Na praça Silvio Romero, no Tatuapé, na zona leste da capital paulista, não havia nenhuma unidade na última sexta-feira (dia 7). Nas avenidas Faria Lima, na zona oeste, e Paulista, na região central, que há seis meses estavam tomadas pelo equipamento, também é possível observar a queda na oferta. As maiores empresas não informaram quantos patinetes circulam na capital nem qual foi a redução de equipamentos nas últimas semanas.

Sinais da crise

Na avenida Faria Lima, a reportagem do Estado de S. Paulo encontrou dez patinetes estacionados no acesso à estação de metrô e outros cinco quebrados e sem bateria atrás de uma banca de jornal, à espera de funcionários das empresas que alugam o equipamento compartilhado. O cenário é diferente do observado em outubro do ano passado, quando havia um número maior de patinetes no mesmo local, segundo relatos de usuários frequentes.

O consultor de negócios Vitor Soares, de 22 anos, também observou a redução da oferta do modal. “Os patinetes estão sumindo. Já me acostumei a usá-los do metrô Faria Lima até a avenida Pedroso de Moraes, onde trabalho, mas agora tem vezes que não encontro nenhum equipamento.”

Na Paulista, a situação é semelhante. Menos de dez patinetes estavam na calçada do lado oposto ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), mesmo local onde já houve o dobro de unidades. “O número de patinetes por aqui caiu bastante, infelizmente. O equipamento agiliza o meu deslocamento, consigo chegar mais rápido ao destino. Mas acredito que é preciso ter mais infraestrutura”, avalia o garçom Leandro Henrique, de 32 anos.

“Decisão de mercado”

O sumiço dos patinetes está relacionado à saída de empresas que operavam em São Paulo ou da redução da operação das que continuam no mercado (caso da Rappi). Procuradas, startups afirmaram que a decisão de deixar São Paulo foi tomada em razão de questões estratégicas ou de sustentabilidade financeira. Nenhuma operadora citou as novas regras da prefeitura como motivo para a saída ou a diminuição da operação na cidade.

Procurada, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes afirmou que a redução de patinetes está relacionada a “uma decisão de mercado das próprias empresas”.

Para o professor Paulo Furquim, coordenador do Centro de Regulação e Democracia do Insper, a criação de uma regulamentação restritiva é a hipótese mais “plausível” para a saída de empresas de São Paulo.

“É um modelo de negócio com viabilidade econômica. O ponto principal para ele funcionar bem – tanto para a cidade quanto para a empresa – é que se tenha alguma política voltada para tornar viável e segura a utilização desse meio (de transporte)”, diz o professor.

Em relação ao sucesso e viabilidade do modelo de negócio, ele acredita que o compartilhamento tem potencial na cidade, por ser um opção de transporte complementar a ônibus, metrô e trem. “Tem demanda grande não só para pequenos deslocamentos, como nas ciclovias das avenidas Faria Lima e Paulista. (O compartilhamento de patinetes e bicicletas) é o futuro da mobilidade, pois conecta os troncos de transporte público”, avalia.

Furquim afirma que o poder público focou na restrição do uso antes que o modal tivesse se popularizado a ponto de virar um problema para a cidade. “Em Paris, por exemplo, primeiro houve a intenção de viabilizar, de fazer crescer o uso até o ponto de ficar problemático. E depois as autoridades vieram com medidas restritivas. Em São Paulo foi o inverso: primeiro (a prefeitura) jogou as restrições para depois falar em criar uma estrutura.”

Estações não saíram do papel

As estações para onde as operadoras levarão os patinetes após o uso, previstas na regulamentação, ainda não foram criadas pela prefeitura. Segundo a gestão Bruno Covas, a secretaria de Transportes, por meio da Companhia de Engenharia de Trânsito (CET), “está se reunindo com as empresas credenciadas para definir os locais” onde elas serão instaladas. Segundo as regras municipais, os patinetes não podem ser deixados em qualquer lugar.

Já os usuários podem estacionar o equipamento em vias com ciclovias ou ciclofaixas. Da rua, o equipamento será levado para as estações — assim que elas forem instaladas.

(Com Estadão Conteúdo)

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