Qual a receita de sucesso para transformar uma startup em um unicórnio? Para quem não sabe, unicórnio é o nome dado às empresas iniciantes que atingiram um valor de mercado de ao menos US$ 1 bilhão. No livro “Da Ideia ao Bilhão – Estratégias, conflitos e aprendizados das primeiras startups unicórnio do Brasil” (Portfolio-Penguin), o jornalista Daniel Bergamasco conta como 99, Gympass, QuintoAndar, Loggi, Nubank, Movile, iFood, Ebanx, Arco Educação e Stone chegaram lá.

O segredo dessas empresas não foi reunir uma turma de amigos em torno de uma ideia genial em um escritório modernoso. Elas precisaram de muito método para virar unicórnio. “Tem muita empresa buscando a sua transformação digital. Mas muitas fazem isso do jeito errado. Um jeito errado é ter um comando que não se envolve com a transformação, que demora para aprovar as suas inovações”, disse Bergamasco ao 6 Minutos.

Outro erro é achar que trazer a tecnologia para dentro da startup será a solução para todos os problemas. “Tecnologia é importante, sim. Mas, sozinha, não é o principal pilar da transformação digital. Ela tem que estar a serviço da cultura da empresa e da satisfação do cliente. A tecnologia tem que entender que necessidade do cliente vai ser atendida.”

Qual a receita do sucesso? Ao fazer as pesquisas para o livro, foram mais de 90 entrevistas, Bergamasco se deparou com algumas características comuns nos 10 primeiros unicórnios brasileiros. Todos têm uma cultura muito forte. Além disso, têm capacidade de moldar o negócio com a cabeça do cliente.

Um caso que representa bem essas características é o Gympass. A ideia inicial, que era a venda de diárias em academias, parecia genial, mas não decolava. Sem dinheiro em caixa, os sócios tiveram que demitir funcionários e remodelar o negócio. Inventaram a carteirinha com diárias ilimitadas nas academias. Os clientes curtiram, mas as academias não (estava roubando clientela dos estabelecimentos).

A grande virada aconteceu quando um e-mail de uma analista de recursos humanos da PwC caiu na caixa de entrada da equipe de venda do Gympass. Na mensagem, a analista perguntava se era possível fechar uma parceria com o app para oferecer o passe livre em academias como benefício aos funcionários da PwC. Foi a partir daí, fechando parcerias com empresas, que o Gympass ganhou a musculatura que tem hoje.

“O e-mail poderia ter ficado parado na caixa de entrada. Mas a cultura da empresa, de estar atento a tudo e às demandas do consumidor, não deixou o e-mail morrer”, afirma Bergamasco.

Mas é só isso? Lógico que não. Ter o pensamento de dono faz parte da cultura de 10 entre 10 startups. “Toda empresa quer que o funcionário tenha mentalidade de dono, mas oferecer um ambiente favorável para isso é outra história. Mentalidade de dono não se cobra, se constrói.”

No livro, ele cita o caso da Arco Educação, que envolve os funcionários na contratação do futuro chefe. “A pessoa entende que a empresa precisa de alguém com aquele perfil e que o funcionário em ascensão ainda não está pronto para aquela vaga. É uma forma de estimular essa mentalidade de dono, de fazer a pessoa sentir que se a empresa tem resultado, a vida dela também melhora.”

É permitido errar? Sim! Aliás essa característica é a que mais diferencia esses unicórnios das empresas tradicionais. “Elas sabem usar o erro como vantagem na hora de fazer novas tentativas de inovação”, diz Bergamasco.

O livro cita o caso da Movile, que divide seus projetos em jets skis (pequenos e novos) e transatlânticos (projetos consolidados). Com os jets skis é possível ser mais rápido e arriscar. Os naviozões, diz ele no livro, “precisam ser manejados com cautela extra, sob risco de afundar a operação”.

O que não faltou em nenhuma delas? Bergamasco diz que é imperativo se apaixonar pelo problema, e não pela solução. “Tem que ser obsessivo pelo problema e estar disposto a desconstruir a solução para conseguir atender diversos problemas.”

Mas essa obsessão tem que ser desapegada. “O sonho é lindo, a paixão é linda, mas a obsessão é chata, faz a pessoa perder noites de sono. Mas é essa obsessão desapegada que faz a mágica do unicórnio acontecer. Não é a ideia fixa, não é a cabeça dura. O Gympass foi criado de um jeito e prosperou de outro. É saber lutar a batalha com leveza, agilidade e sensibilidade para ouvir as pessoas e testar novos modelos.”

Para o escritor, todos os empreendedores sonharam grande desde o início. “Todos começaram montando um quebra-cabeças de 1 bilhão de peças, mesmo tendo apenas meia dúzia de peças em mãos. Mas sabiam o desenho que iriam montar, visualizavam grande. Nenhuma delas começou de maneira descompromissada e, de repente, por sorte ou acaso se tornou grande.”

Tem espaço para novos unicórnios? Bergamasco diz que o potencial de inovação é proporcional ao problema que a empresa se propõe a resolver. “E no Brasil não faltam problemas. Tem muitos caminhos a serem trilhados pelas startups em diversos segmentos. Esses unicórnios resolveram problemas que as pessoas tinham. As pessoas que precisavam alugar casa tinham dificuldade para encontrar fiador. O QuintoAndar soube identificar esse problema.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).