O controle da varejista de moda C&A pode trocar de mãos em breve. Segundo informações adiantadas pelo jornal Valor Econômico, os grupos holandeses Cofra e Inca, que representam a família Brenninkmeijer, fundadora da C&A, estudam a venda da sua fatia no negócio. Desde a abertura de capital da empresa, feita no ano passado, a família fundadora passou a ter 65% das ações da varejista.

No fim da noite desta segunda-feira (19),  a C&A informou que seus controladores continuam a apoiar a companhia, em meio a informações publicadas na imprensa sobre eventual interesse deles em vender participação na rede de varejo têxtil.

“A Cofra confirma que nenhum processo está em andamento no que diz respeito à C&A Modas e a Cofra continua sendo apoiador do negócio e sua performance”, afirmou a C&A em fato relevante, referindo-se à holding controladora.

A notícia da possível troca de controle da varejista fez com que as ações disparassem mais de 10% durante a manhã de hoje. No fechamento do dia, os papéis encerraram em alta de 7,27%, a R$ 13,73. Mas por que os investidores ficaram animados com a venda, mesmo diante de um cenário tão incerto para o varejo?

Troca de gestão

A primeira razão parece ser estratégica. A família fundadora já dava sinais, antes mesmo do IPO, de que gostaria de repassar a operação brasileira da marca para a frente. Se a revenda se concretizar, não seria o primeiro negócio desse tipo para a C&A. Os grupos controladores já venderam as operações no México e na China para outras empresas, em uma estratégia de focar nos negócios na Europa.

“A C&A tem uma marca forte e conhecida no Brasil, mas perdeu muito espaço para Renner nos últimos anos. A atual gestão tentou reverter, mas não conseguiu. Mudando o controle e mantendo a marca, os novos donos vão ter a oportunidade de reparar os erros do controlador anterior e fazer o negócio voltar a ganhar espaço”, diz Luis Sales, analista da corretora Guide Investimentos.

Venda com prêmio

A segunda razão para a alta das ações é técnica. Caso a venda realmente seja encaminhada, a família holandesa pode optar por revender diretamente os seus 65% de participação, pedindo um bônus. Assim, as ações podem ser negociadas com o chamado “prêmio de controle” — um valor extra pago pelo novo dono para manter o comando da empresa.

Se a troca do controle for negociada com prêmio, os acionistas minoritários (investidores que participaram do IPO ou que compraram os papéis da C&A até o momento da venda) terão direito ao chamado tag along. Esse mecanismo dá preferência para que os investidores minoritários vendam suas ações pelo preço negociado pelo acionista majoritário.

“A família controladora pode, ainda, fazer uma oferta sequente (follow on), e nesse caso os investidores não teriam direito ao tag along. Por outro lado, a revenda também não teria um bônus: as ações sairiam pelo preço de mercado, sem prêmio de controle”, explica Sales, da Guide.

Como tem sido o desempenho da C&A na bolsa?

Depois de estrearem na bolsa a um preço de R$ 16,50 por ação, os papéis da C&A viveram uma verdadeira montanha russa. Em dezembro do ano passado, eles chegaram à cotação máxima de R$ 18,50, mas a pandemia do coronavírus derrubou os preços. No começo de abril, o pior momento para a C&A na bolsa, os papéis chegaram a valer R$ 6,09.

Desde então houve uma recuperação gradual, mas que não foi suficiente sequer para recuperar os preços da época do IPO. Ou seja, o investidor que embarcou na empresa no processo de abertura de capital sequer conseguiu recuperar o valor inicial aplicado.

E a concorrência?

As ações das principais concorrentes da C&A fecharam em alta nesta segunda-feira — vale dizer, no entanto, que o Ibovespa também teve um dia bom, o que puxa o desempenho dos maiores papéis para cima. As ações das Lojas Renner subiram 3,8% e as da Guararapes (dona da Riachuelo) subiam 1,4%.

“Teoricamente a venda da C&A é uma notícia negativa para Renner e Guararapes, mas acho difícil investidores precificarem isso tão cedo. Até que haja uma nova gestão e que essa gestão mostre resultado, com a melhora dos dados operacionais e com a reconquista de parte do mercado que ela perdeu para a concorrência, os papéis das outras varejistas não devem sofrer”, opina Sales, da Guide.

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