Em uma primeira olhada, o Itaú Unibanco entregou na noite desta terça-feira (dia 3) um balanço do primeiro trimestre de 2021 impressionante, com um lucro líquido recorrente de R$ 6,3 bilhões, mais de 11% acima da estimativa de analistas de mercado e 63,6% maior do que o resultado do mesmo período de 2020.

Tinha tudo para as ações arrebentarem no pregão seguinte da bolsa, correto? Errado. A verdade é que os papéis do maior banco privado do Brasil tombaram 4,2% nas negociações, em um sinal claro de desapontamento do mercado com o resultado do período entre janeiro e março.

Afinal de contas, por que o balanço não agradou? O 6 Minutos conversou com analistas especializados sobre o tema, e ouviu que parte dos resultados apresentados não deve se repetir nos próximos trimestres. Além disso, as receitas com serviços subiram somente 1% e as despesas caíram menos do que o imaginado para o período, apesar da avaliação de que o banco está enxugando sua estrutura.

“O resultado cresceu muito no ano a ano, e veio acima das nossas expectativas. A qualidade que a gente não gostou”, diz o analista de bancos da XP Investimentos, Marcel Campos.

Veja abaixo os principais pontos.

Uma parte significativa desse resultado não deve se repetir

O resultado de tesouraria (que reflete ganhos ou perdas com investimentos em títulos públicos, derivativos, câmbio e ações) foi 224% maior do que a do primeiro trimestre de 2020, algo que não deve se repetir nos próximos exercícios.

Essa margem financeira com o mercado, como é chamada pelo banco, foi de R$ 2,4 bilhões, muito acima do que costuma ser registrado. “Esse resultado não vai se repetir todos os trimestres”, aponta Carlos Macedo, especialista em bancos da casa de análises OhmResearch. “E foi um dos principais fatores que turbinaram o lucro do banco neste trimestre”.

Outro ponto apontado por analistas é que a redução das provisões para calotes, que automaticamente melhora o resultado do banco e que também não tem um impacto perene, foi muito maior do que se imaginava. “O Itaú tinha uma provisão equivalente a 320% de cobertura da inadimplência, e isso se reduziu para 298%. São 20 pontos percentuais a menos. Só isso já fez o resultado ser muito maior do que estávamos esperando”, diz o analista da XP.

Em entrevista a jornalistas, o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que a inadimplência, apesar de ter dado sinais recentes de alta, está em um nível bem menor do que o esperado. De acordo com ele, o calote deve aumentar nos próximos meses, mas ainda assim em patamares mais baixos inclusive que o pré-pandemia.

Margem de crédito com clientes caiu

Já a chamada margem financeira com clientes, que reflete o resultado da instituição financeira com empréstimos, totalizou R$ 16,2 bilhões, queda de 5% ante mesmo período de 2020. É uma linha sempre acompanhada pelos analistas, já que é considerada como um ponto que pode adicionar valor ao banco ao longo de um período maior de tempo.

“É uma linha mais estável, mais sustentável, que de fato gera valor para o banco”, explica Campos.

Maluhy Filho, presidente do Itaú, afirmou que um dos motivos para essa redução é o fato de que as modalidades com taxas de juros mais elevadas, como o cheque especial, tiveram o uso bastante reduzido durante a pandemia. “Mas o cheque especial e o crediário estão acelerando a contratação. Veremos uma recuperação da margem no próximo trimestre”, ressaltou o executivo.

Macedo, da Ohm, lembra que linhas como crédito imobiliário e de veículos, que possuem risco e taxas de juros menores, vêm ganhando relevância na carteira dos bancos. Isso é positivo para a inadimplência, que tende a ficar mais controlada.

Receitas com serviços estão em queda

Outro ponto que o mercado não viu bom bons olhos, mas que já era esperado, foi o baixo crescimento das receitas com serviços. Entre janeiro e março, o Itaú lucrou R$ 9,5 bilhões com essa linha, alta de somente 1% ante mesmo período de 2020 –o próprio banco, em seu guidance (projeções e metas para o ano), antevê uma alta entre 2,5% a 6,5%.

A queda com tarifas de conta corrente foi de 7,5% no período, enquanto os serviços com cartões de crédito e débito tiveram redução de 4,5%, com destaque para adquirência (taxas das maquininhas de cartão), com recuo de 15,6% no período.

“A adquirência é uma linha que tende a quase zerar nos bancos ao longo do tempo”, avalia Macedo, da Ohm, explicando que há cada vez mais concorrentes atuando no segmento, que também é afetado por novidades como Pix e o open banking (plataforma que conectará as diferentes tecnologias usadas pelo setor financeiro).

Despesas caíram pouco

Os analistas ainda avaliam que as despesas do banco, apesar de estarem em queda, poderiam ter recuado mais no primeiro trimestre. As despesas do grupo como um todo, incluindo outros países, subiram 3,2%, para R$ 12,5 bilhões, mas no Brasil a queda foi de 0,8%.

“Para o cenário que estamos enfrentando, com a digitalização, fechamento de agências e custo bem menor para adquirir novos clientes, acreditamos que os bancos reduziriam a sua estrutura física mais rápido, com foco maior em eficiência”, afirma Campos, da XP. “Esperávamos uma queda maior das despesas”.

 

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