As razões são muitas: a competição cada vez maior no setor financeiro, o receio de explosão da inadimplência em 2021, a taxa básica de juros na mínima histórica e o impulso que setores ligados a exportação e ao varejo ganharam no mercado de capitais.

Independentemente do motivo, o fato é que os bancos viram seu peso no Ibovespa se reduzir em quase um terço do final do ano passado para cá.

Entre setembro e dezembro do ano passado, os bancos listados no principal índice da bolsa brasileira representavam 26,6% da chamada carteira teórica do Ibovespa (o índice é montado como se fosse uma carteira composta pelas ações mais representativas do mercado). Na carteira dos últimos quatro meses deste ano, representam 19%.

Para fazer o cálculo, o 6 Minutos considerou as ações do Bradesco (preferenciais e ordinárias), do Itaú Unibanco (incluindo o papel da holding Itausa, que é formado por 90% da ação do Itaú), Banco do Brasil, Santander e BTG.

O principal motivo é a perda de valor das ações dos “bancões”. O índice do setor financeiro, o Índice Financeiro, é o segundo que mais perdeu valor neste ano: a queda é de 26,3%, segundo dados da Investing.com.

Além disso, ao mesmo tempo em que os bancos perderam na crise, outros setores, como os ligados a exportações de commodities e varejo, aumentaram a participação. As principais varejistas somadas (Magalu, Americanas, Renner, Via Varejo e B2W), por exemplo, saltaram de uma fatia de 5,17% para 9,27% no Ibovespa na mesma comparação.

Empresas exportadoras, como a Vale, também ganharam na crise. A mineradora, que no final do ano passado tinha um peso de 8,2% no índice, aumentou sua participação para 10,4%, passando a ser a ação individual de maior peso, à frente do Itaú.

Outro fator que deve ser levado em conta é o aumento no número de papeis que compõe o Ibovespa.

“É importante observar que a carteira de 2019 continha 68 ativos em sua composição, enquanto a carteira vigente contém 77”, afirmou o Itaú Unibanco em nota. “O incremento de 9 ativos causa diluição dos pesos das ações na carteira teórica”.

Medo de calote e juros baixos

Entre os principais motivos para a queda nas ações dos bancos está a dúvida em torno do tamanho da inadimplência no pós-pandemia.

A expectativa é que o calote de consumidores só comece a chegar para valer entre o final deste ano e o início do ano que vem, já que o Banco Central facilitou uma série de renegociações de dívida, com pausas no pagamento de empréstimos.

Da mesma forma, o impacto da pandemia sobre as empresas será sentido apenas mais para a frente.

Por enquanto, apesar de estarem sofrendo severamente com os efeitos da crise, as pessoas jurídicas ainda estão se beneficiando de efeitos amortecedores: além dos refinanciamentos, o adiamento da contribuição das empresas para o INSS e a possibilidade de redução de salários e suspensão de contratos.

“O processo de renegociação de dívidas empurrou a inadimplência com a barriga”, avalia Carlos Macedo, especialista em bancos da casa de análises Omninvest Independent Insights. “Não é de todo ruim, porque os bancos estão protegidos, fizeram muitas provisões. A dúvida é por quanto tempo será necessária essa proteção”.

Outro motivo de peso é o fato de os juros básicos da economia estarem na mínima histórica, de 2% ao ano, o que dá menos espaço para as instituições financeiras cobrarem mais por crédito ou pela administração de produtos financeiros de renda fixa, como fundos de investimento.

“O caso das tarifas cobradas por fundos de investimento de renda fixa é clássico”, exemplifica o presidente da Omninvest, Roberto Attuch. “No passado, você encontrava fundos com benchmark Selic [ou seja, cuja meta era render a taxa básaica] cobrando uma taxa de administração de 4%. Com juros de 10%, você ainda consegue fazer isso, mas como fica com a Selic a 2%?”.

Mais competição: fintechs e Pix

Tudo isso vem acontecendo em um cenário de maior competição com novos entrantes no setor financeiro, oferecendo serviços mais baratos e mais eficiência. Não é segredo que de alguns anos para cá as fintechs (startups do setor financeiro), bancos digitais e plataformas de investimento vêm ganhando terreno no Brasil.

O símbolo desse processo é o novo sistema de pagamentos do Banco Central, o Pix, que entra em vigor em 16 de novembro, permitindo transferências 24 horas por dia, 7 dias por semana, com custo zero para as transações entre pessoas físicas.

Essa é uma ótima notícia para os clientes das grandes instituições financeiras, que podem gastar até R$ 1.000 por ano com pacotes de serviços que têm como principal atrativo o TED e o DOC.

Mas é uma notícia não tão boa assim para os bancos no médio e longo prazo.

“O maior impacto do uso da tecnologia em serviços financeiros virá de modelos de negócios que ainda não conseguimos ver agora, que ainda serão inventados. O modelo do Pix vai levar muitas empresas a repensarem como funciona o seu relacionamento com o cliente”, afirma Macedo, da Omni, citando a tendência de que empresas de fora do setor financeiro ofereçam produtos de crédito a consumidores.

Tendência

E qual a tendência daqui para a frente para as ações dos bancos? Para analistas, o mais provável é que haja uma melhoria, mas que não se volte completamente ao passado.

“Não quer dizer que os grandes bancos vão encolher. Tem muita gente competente nessas instituições. O que vai acontecer é que no espaço de 10 anos, as fintechs vão crescer tão mais que terão 20% do mercado”, diz Macedo.

Para Sales, da Guide, quando se fala de crédito a tendência é de melhoria, até porque o cenário se tornará menos turvo. “Já na parte de queda de receita com serviços, aí não tem muito como fugir”.

Outro ponto importante são as condições macroeconômicas, incluindo o duvidoso cenário fiscal. “Os bancos ainda têm uma participação bastante grande no mercado”, diz Attuch. “Se a economia se recuperar, os papeis irão se recuperar”.

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