Menos auxílio emergencial, uma das maiores crises econômicas da história e aproximação do fim do prazo de renegociações de dívidas. Nesse cenário, muita gente ficou esperando que, em algum momento, haveria um forte repique de calotes no Brasil entre o final de 2020 e o início deste ano.

Não por acaso, os bancos aumentaram bastante suas reservas para fazer frente a um eventual salto da inadimplência, o que ajudou o resultado do setor a cair de forma significativa no ano passado. As três grandes instituições financeiras privadas (Itaú, Bradesco e Santander) apresentaram juntas um lucro líquido de R$ 51,8 bilhões, uma cifra de fazer inveja a qualquer outro setor, mas ainda assim uma queda de 24,6% ante 2019.

Aparentemente, esse cenário mudou, segundo analistas especializados. Apesar dos calotes mostrarem aumento, a onda de não pagamentos prevista não se confirmou na proporção esperada, pelo menos até agora. Isso abre caminho para redução de provisões para devedores duvidosos e para a volta de balanços turbinados.

Os analistas do Goldman Sachs, por exemplo, acreditam que o lucro dos grandes bancos brasileiros deve subir 34%, em média, no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. “As provisões devem cair significativamente em relação ao primeiro trimestre de 2020, já que os bancos fizeram uma quantidade relevante de reservas para se antecipar à deterioração da qualidade das carteiras”, apontaram em relatório.

“Os bancos provisionaram muito mais que o necessário”, aponta Carlos Macedo, especialista em bancos da casa de análises OhmResearch. “Dependendo do banco, a inadimplência ou está caindo ou, na pior das hipóteses, estável. Isso permite uma redução nas provisões e, só aí, você já tem um alívio para a rentabilidade do setor”.

Consumidores recorreram menos ao cheque especial e rotativo

Desde o início de 2020, os bancões vêm elevando as chamadas PPDs (provisões para pagadores duvidosos), que são uma espécie de reserva que fazem em seus balanços para fazer frente à inadimplência. Esse cenário não se confirmou, segundo analistas, por algumas razões.

Em primeiro lugar, o auxílio emergencial, apesar de ter sido reduzido e interrompido no primeiro trimestre, tirou muitos brasileiros do sufoco. Além disso, o medo da pandemia reduziu bastante o uso de linhas de crédito perigosas para o endividamento.

No ano passado, por exemplo, os novos empréstimos do cheque especial tombaram quase 20%, uma queda muito mais pronunciada do que as concessões de crédito para pessoas físicas como um todo, que caíram 1,9%. A categoria, que representava 20% de todos os empréstimos a pessoas físicas em 2019, viu sua participação reduzida a 16,7%, enquanto outras modalidades bem mais baratas, como o crédito pessoal e o crédito consignado, ganharam terreno.

“O Bradesco, por exemplo, fechou o ano passado com quatro vezes mais reservas de provisão do que a inadimplência observada de fato”, aponta Marcel Campos, analista do setor financeiro da XP Investimentos. “Mas o uso de cheque especial e rotativo do cartão caiu bem, e as carteiras de crédito estão mais seguras, aparentemente. Tem muito crédito consignado, crédito imobiliário e empréstimos para grandes empresas, que possuem risco menor”.

Para Macedo, da OhmResearch, a má notícia para os bancos é que a receita com serviços no primeiro trimestre não deve vir forte, já que foi o primeiro período cheio de operação do Pix, novo sistema de transferências gratuitas do Banco Central. “Além disso, sazonalmente é um período fraco para as receitas com serviços, com menos gastos com cartão de crédito, por exemplo”.

Por outro lado, os bancões vêm reduzindo suas despesas, e a pandemia acelerou esse quadro. “É importante considerar também que alguns players reduziram muito seus custos. O Bradesco fechou mais de mil agências, e deve fechar mais 300 neste ano”, reforça Campos.

Bradesco deve ter melhor desempenho, Santander o pior

Na avaliação dos especialistas, o Bradesco é o banco onde esse efeito de redução das provisões será mais notado no lucro, pelo fato de ter feito mais reservas, proporcionalmente, e também porque reduziu custos. No ano passado, segundo dados do balanço da instituição, as provisões somaram R$ 25,7 bilhões, um aumento de 78,4% na comparação com 2019.

Na avaliação do Goldman, o banco tem condições de apresentar uma alta de impressionantes 70% no seu lucro recorrente, devido principalmente ao espaço que possui para reduzir as provisões, além de redução de custos. No caso do Itaú, esse raciocínio também deve se aplicar: os analistas acreditam que o lucro pode subir 34%, sempre na comparação com mesmo período do ano anterior.

Na outra ponta, o Santander, que foi o grande banco que menos provisionou, deve ter o resultado mais fraco em comparação com o ano passado. “O Santander quase não fez provisão, portanto não deve sentir muito este impacto”, diz Campos, da XP.

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