Depois de vários anos colocando a casa em ordem, a Trisul voltou ao lucro depois de limitar sua área de atuação à cidade de São Paulo. Essa decisão que pareceu arriscada em um primeiro momento tinha uma justificativa, segundo Jorge Cury, CEO da incorporadora e construtora. “Não tem como perder dinheiro com terreno em bairro bom de São Paulo”, disse ele.

No segundo trimestre do ano, mesmo com a pandemia, a empresa registrou um lucro líquido de R$ 35,5 milhões, uma alta de 31% em relação a igual período de 2019. A Trisul também teve aumento em outros indicadores, como lançamentos e vendas líquidas.

Veja abaixo trechos da entrevista exclusiva de Jorge Cury para o 6 Minutos.

Por que focar a atuação à cidade de São Paulo?

A nossa origem é em São Paulo. Conheço cada rua, cada esquina de São Paulo. Por que a gente tinha que ir para Araçatuba, Araraquara? Nos reposicionamos em São Paulo, o dinheiro começou a voltar e começamos a pagar as dívidas.

Foi uma decisão fácil essa?

Foi. Quando anunciamos essa decisão, o mercado não entendeu. Foi um trabalho duro, tivemos de demitir amigos, reduzir empregos.

Levamos de 2011 a 2014 para voltar a crescer. Aí veio o juro alto, a crise, o distrato. Mas o que mais pegou para gente foi o plano diretor e a lei de zoneamento da cidade. Retardou nosso crescimento em 1,5 ano.

Como essa mudança de reposicionamento mudou os negócios da Trisul?

Hoje, 70% da nossa carteira são de imóveis para média e alta renda, em terrenos que o preço do metro quadrado é de R$ 9.000 para cima.

A gente fazia Minha Casa Minha Vida, hoje não faz mais. Estamos um degrau acima. Temos os outros 30% em imóveis de R$ 250 mil a R$ 600 mil porque a legislação municipal dá benefícios de outorga para imóveis de interesse social e mercado popular.

Por que a localização é importante?

Não tem como perder dinheiro com em bairro bom de São Paulo, em lugares bem localizados e próximos do metrô.

Porque a gente vem dando resultado ascendente desde 2015? Quando teve a crise do distrato, fomos a empresa que mais teve lançamento em bairro bom. A gente tinha terreno em Moema, planta adaptada, fachada bonita. Não tinha muito disso próximo dali. As pessoas pensam duas vezes antes de distratar [em lugares assim].

O segredo é só esse?

O cenário macroeconômico ajudou também. Antes, o juro habitacional tava em 10,5%. Hoje, tá em 7%, tem banco falando em 6,5%. Teve uma redução de quatro pontos. A conta que você tem que fazer é que para cada ponto de redução de juro, cai em 8% a renda necessária para o financiamento. Se caiu 4 pontos, a renda se reduziu em 32%. Por isso, mais pessoas se enquadraram para comprar e financiar um apartamento.

No segmento de alta renda, você tem a pessoa que viveu 30 anos de renda. Agora, nesse cenário de juro baixo, ou ela vai pra bolsa ou compra um imóvel [para ganhar dinheiro].

E como a Trisul se adaptou para a pandemia?

Tivemos de digitalizar nosso time de venda, criar uma imobiliária online, criamos o our vertical, adotamos a assinatura digital. O cliente se sentiu muito confortável para comprar e fechar uma transação de maneira digital e rápida.

E como ficam os imóveis daqui para a frente?

Passamos a adaptar nossos projetos e achamos que apartamentos de 120 m² tinha que ter mais banheiro, pois as pessoas passam mais tempo em casa. Então, se possível, que as plantas tenham três suítes, um banheiro para cada quarto, passamos a decorar com home office. Na área comum, em vez de decorar com salão de festa, que fica parado a semana inteira, passamos a decorar com escritório.

Os apartamentos vão ser mais generosos, com sacada, atenção especial à iluminação.

Mas o home office não tira o apelo de morar em São Paulo?

São Paulo é São Paulo. Quando a economia voltar a crescer de forma mais pujante, quando vier a vacina, quando os encontros voltarem [as pessoas vão querer São Paulo]. Porque não tem atividade nesses haras e fazendas.

Você pode passar três quatro dias em São Paulo e depois vai para sua casa de lazer. Um bom apartamento vai fazer parte da sua vida assim como alguma coisa de lazer.

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