Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil encerraram o semestre passado com uma rede de proteção contra eventuais calotes de quase R$ 20 bilhões. Ao mesmo tempo, os atrasos entre 15 e 90 dias medidos pelo Banco Central estão na mínima histórica.

Qual a razão dessa discrepância? É muito simples. Os bancos sabem que a inadimplência vai começar a dar as caras no mês que vem, quando termina o prazo de seis meses dado pelo governo para que as instituições financeiras não façam provisões para renegociação de dívidas de consumidores e empresas.

Em meados de março, em resposta à crise do coronavírus, o CMN (Conselho Monetário Nacional) aliviou essas regras por 120 dias para que os bancos tivessem espaço para renegociar as dívidas de clientes. Em resposta, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou que os bancos atenderiam aos pedidos de prorrogação.

“Essa inadimplência baixa de hoje é artificial, devido à prorrogação de pagamentos. Quem pegou 120 dias de carência no final de março, começa a ter que pagar agora. Isso vira inadimplência após 90 dias, ou seja, lá para setembro que isso começa a aparecer nos balanços”, aponta Marcel Campos, analista de bancos da XP Investimentos.

Na avaliação do especialista, o real impacto será notado a partir do mês que vem e alcançará o pico em dezembro, se estendendo ainda para o primeiro trimestre de 2021.

Haverá o efeito ainda da interrupção ou redução do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, que o governo não tem condições fiscais de manter por muito tempo, pelo menos não nesse tamanho.

O problema é que a ajuda chegará ao fim sem que os efeitos da crise tenham acabado: o desemprego continua em alta e a renda está em queda.

Efeito rebote

Contra esses efeitos que serão sentidos mais para a frente que os bancos se anteciparam, reservando em seus balanços recursos para fazer frente à inadimplência que está por vir.

“Existe um lag [atraso] na inadimplência. Houve algumas ações do governo para que os bancos não cobrassem dívidas, não deixassem as pessoas jurídicas e físicas inadimplentes no momento de maior dificuldade da covid-19”, aponta Rafael Costa Maciel, gestor de renda variável da AF Invest. “Em algum momento vamos ver o efeito rebote”.

Para ele, do ponto de vista do investidor, é positivo que os bancos tenham se antecipado. “Os bancos já se anteciparam e fizeram provisões gigantescas, o que tende a minimizar esse aumento da inadimplência que vem pela frente”.

No caso dos três grandes bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander) essa reserva fez com que o lucro do segundo trimestre desabasse 40% na comparação com o mesmo período de 2019. O Banco do Brasil também sofreu, apresentando rombo de 25% em seu resultado na mesma comparação.

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