Jorge Moll Filho, o cardiologista que construiu uma rede de mais de 50 hospitais e laboratórios no Brasil, está prestes a emergir como um grande vitorioso em um setor que a pandemia virou do avesso.

A fortuna pessoal de Moll pode ultrapassar R$ 40 bilhões se o império de saúde que ele criou, a Rede D’Or São Luiz, conseguir emplacar uma das maiores ofertas públicas iniciais já feitas no Brasil, de acordo com o Índice Bloomberg de Bilionários. As estimativas são baseadas no ponto médio da faixa de preço por ação proposta no IPO, incluem ações detidas pelo fundo Delta e não consideram que ele possa vender ações na oferta. Anteriormente, sua fortuna era estimada em torno de US$ 2,7 bilhões (R$ 13,9 bilhões).

A Rede D’Or não comenta por estar em período de silêncio.

Como a maioria dos bilionários do setor de saúde, Moll viu seus negócios serem levados ao limite pela Covid-19. Ainda mais com o Brasil sendo particularmente impactado pelo vírus, registrando mais de 6,6 milhões de casos da doença e o segundo maior número de mortes no mundo.

Efeito Covid

Os hospitais da Rede D’Or trataram mais de 230.000 casos de Covid-19 até setembro, enquanto lidavam com a alta de cancelamentos em procedimentos eletivos. O número geral de pacientes atendidos durante esse período caiu 14% em relação ao ano anterior para 1,3 milhão. O lucro líquido caiu 83% no período.

Ainda assim, os investidores estão otimistas com a empresa, graças a uma recuperação nas receitas do terceiro trimestre. A Rede D’Or disse no prospecto que “ajustou rapidamente sua estrutura de custos fixos” para enfrentar as consequências da pandemia, afirmando que isso também ajudará a melhorar o desempenho no futuro.

“A Rede D’Or fez um trabalho fenomenal consolidando o mercado de serviços médicos no Brasil e vai ter o envelhecimento da população como uma alavanca à frente”, disse Fernando Fontoura, gestor da Persevera Asset Management. “A família Moll está no ramo da saúde há muito tempo e é muito comprometida.”

Nascido no Rio de Janeiro, Jorge Moll, 74, foi um pioneiro em perceber que a falta de hospitais de alto padrão no Brasil oferecia uma oportunidade de negócio lucrativa. O Brasil possui um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, mas o SUS tem filas intermináveis, burocracia e equipamentos desatualizados. Os que podem pagar frequentemente procuram hospitais privados para atendimento.

Moll fundou uma rede de laboratórios de imagem para diagnóstico em 1977, mas foi só no final da década de 1990 que começou a apostar em hospitais de saúde de alto padrão. Uma de suas primeiras apostas foi comprar o Copa D’Or, um hotel luxuoso no bairro de Copacabana, no Rio, e transformá-lo em um hospital. Moll disse que seu objetivo era imitar o sucesso da Clínica Mayo, de Minnesota.

Maior rede

Com grandes apoiadores globais, incluindo o fundo de private equity Carlyle Group e o fundo soberano de Cingapura, GIC, a aposta deu certo. A Rede D’Or possui hoje a maior rede de hospitais privados independentes do Brasil, segundo a empresa, com 51 unidades próprias e mais 32 projetos em desenvolvimento. A Rede D’Or estima ter algum tipo de vínculo com cerca de 22% dos médicos em atividade no Brasil.

Moll está apostando que há espaço para mais. As cinco maiores operadoras hospitalares independentes do Brasil respondem por menos de 3,5% do total de leitos operacionais atualmente, de acordo com o prospecto. Apenas 47 milhões de pessoas, ou 22% da população, têm acesso a planos privados de saúde, segundo dados da ANS.

O IPO da Rede D’Or, que tem a formação de preço agendada para 8 de dezembro, pode levantar até R$ 12,7 bilhões, tornando-se o segundo maior IPO do Brasil e avaliando a empresa em mais de R$ 100 bilhões. A família Moll também pode vender uma parte de sua participação se a demanda for alta, via o fundo Delta, segundo prospecto. O Bank of America está liderando a transação.

Um dos apoiadores iniciais da ideia de Moll vai ficar de fora da maior parte da bonança da oferta: o bilionário André Esteves. Ainda que o BTG Pactual esteja entre os coordenadores do IPO, a instituição financeira chegou a ter quase um quarto da Rede D’Or, uma das mais bem-sucedidas apostas de sua operação de merchant banking. No entanto, foi forçado a se desfazer totalmente da fatia em 2015, ao enfrentar uma crise de liquidez desencadeada pela prisão de Esteves, que mais tarde seria solto e absolvido de todas as acusações.

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