Não foram só as reservas para inadimplência que determinaram a forte queda de 40% no lucro dos três bancos privados do Brasil no segundo trimestre deste ano. Além das elevadas provisões para calotes, a pandemia de coronavírus também fez sérios estragos na receita do setor com serviços.

Santander, Bradesco e Itaú Unibanco, que divulgaram seus balanços entre a semana passada e esta, enfrentaram um recuo expressivo no faturamento com cartão de crédito, além de redução nos ganhos com taxas de administração de fundos.

O total arrecadado com serviços pelos três bancos somou R$ 20,1 bilhões entre abril e junho, uma retração de 8,3% em comparação com 2019. A queda foi ainda maior, de quase 10%, em relação aos três primeiros meses deste ano.

O principal impacto foi no filé mignon dos serviços bancários, os cartões de crédito e débito, que representam quase um terço de tudo o que as instituições financeiras ganham nessa área.

O faturamento com manutenção e emissão de cartões e com taxas de pagamento (adquirência) se reduziu drasticamente durante a pandemia, registrando queda de 19,5% nos três bancos.

O Itaú, por exemplo, viu sua receita no segmento se reduzir para R$ 2,5 bilhões no segundo trimestre, 23,1% a menos que no ano passado. Os outros bancos também foram fortemente afetados: o Bradesco teve uma receita de R$ 2,3 bilhões (-15,4%) e o Santander de R$ 1,2 bilhões (-18,5%).

“É uma queda muito grande, que está relacionada com o cenário que estamos vivendo. Estamos usando o cartão para pagar supermercado, às vezes farmácia. O uso do cartão se reduziu e mudou durante a pandemia”, aponta Rafael Costa Maciel, gestor de renda variável da AF Invest.

Em seu balanço, o Bradesco abriu o número de transações com cartão no período: foram 417 milhões de compras no cartão, um tombo de quase 25% na comparação com o segundo trimestre de 2019.

“É uma questão conjuntural”, avalia Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos. “A tendência é de recuperação no curto prazo, até pelo o que estamos acompanhando nos dados macroeconômicos. Esse cenário vai se normalizar”.

Corretagem e ganho com fundos também caiu

A queda em cartões não foi o único fator que derrubou os ganhos com prestação de serviços.

Na comparação com o primeiro trimestre, todos os “bancões” privados registraram quedas expressivas no segundo trimestre com assessoria financeira/ corretagem e administração de fundos de investimento por causa da elevada volatilidade da Bolsa na crise.

Em alguns casos, apesar dos esforços recentes dessas instituições para refinar suas assessorias financeiras e aumentar o portfólio de produtos financeiros, houve recuo também na comparação com 2019.

“O Bradesco teve uma queda importante em administração de fundos de investimento, de 12% na comparação com o ano passado”, exemplifica Maciel, da AF Invest. “Acreditamos que parte do problema é estrutural, de concorrência, seja por plataformas de investimento, seja corretoras. O cenário é de juros muito baixos, de migração de portfólios”.

Receita com crédito x receita com serviços

Os bancos possuem duas fontes principais de receitas: com empréstimos, que é a principal, e com serviços. Em um cenário de queda na taxa básica de juros (Selic) e de pressão para redução dos juros na ponta, a avaliação de analistas é que a segunda opção ganha importância.

“Serviços é mais rentável, com um retorno sobre o patrimônio líquido de 50%, 60%. No caso do crédito, o retorno é menor, de 15%”, explica o analista de bancos da XP Investimentos, Marcel Campos.

Ele ressalta, por outro lado, que os serviços estão mais sujeitos à forte competição de novos players do mercado, como bancos digitais, fintechs e plataformas de investimento.

“O retorno de crédito é mais sustentável ao longo do tempo”, pondera.

 

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