As vendas de material de construção dispararam nos últimos meses, apesar do cenário adverso de aumento do desemprego e redução da renda. Esse comportamento surpreendente para um momento de crise é reflexo de dois fatores: pagamento do auxílio emergencial e valorização da casa durante a quarentena.

Que comportamentos são esses? Por passarem mais tempo em casa, as pessoas perceberam a necessidade de fazer pequenas reformas e adaptações em seus lares. Da noite para o dia, as casas se transformaram em local de trabalho, de estudo e lazer.

“O setor de material de construção tem se beneficiado do chamado home centric, ja que as pessoas fazem tudo de casa. Isso fez com que a casa passasse a receber uma atenção maior”, disse Rodrigo Pothin, diretor comercial da Telhanorte.

Para o Snic (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento), um pouco desse movimento ressuscita comportamentos dos anos 80, quando esse tipo de gasto fazia parte do orçamento doméstico. “A crise mostrou que o cuidado com a casa e o uso de reservas pessoais e investimentos para pequenas reformas voltaram a fazer parte do orçamento familiar”, afirma Paulo Camillo Penna, presidente do Snic (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento).

E qual o efeito do auxílio emergencial nisso? Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que há sinais de que uma parte do auxílio emergencial foi direcionada para a compra de material de construção. “O auxílio, que contribuiu pra garantir uma parte importante da renda da população, acabou sedo utilizado para compra de material de construção.”

Pothin, da Telhanorte, corrobora essa interpretação. “Observamos que o auxílio foi um gatilho importante de compra, principalmente daqueles itens relacionados a reparos e manutenção”, afirma.

Mas qual o tamanho do crescimento dessas vendas? Se olharmos apenas para o cimento, um dos itens mais importantes da cesta de material de construção, o crescimento nas vendas de junho foi de 24,2% sobre o mesmo mês do ano passado. Foram vendidas 5,2 milhões de toneladas de cimento, segundo o Snic.

Dados da Cielo, que captura as operações por maquininhas, mostram que as vendas de material de construção cresceram 33,1% na semana de 19 a 25 de julho. No começo da pandemia, esse segmento amargou uma queda de 59,7%.

“Essa venda de material de construção surpreende, pois a estimativa era de que as pessoas iriam parar com as obras”, afirma Ana Maria Castelo.

O que as pessoas têm comprado? Na Telhanorte, houve aumento nas vendas tanto de itens que melhoram o conforto do home office como de materiais de construção. Entre os itens que se destacam estão os de organização de casa e utilidades domésticas. Outras categorias têm apresentado crescimento significativo, como tintas, ferramentas e jardinagem, por exemplo.

“Em junho, nosso crescimento de vendas foi de dois dígitos comparado ao mesmo período do ano passado. Nosso e-commerce triplicou de tamanho desde o início da pandemia”, diz o diretor comercial da Telhanorte.

Então tudo são flores para a construção civil? Não é bem assim. Ana Maria Castelo, da FGV, lembra que a venda de materiais de construção não reflete a realidade da indústria de construção “O setor sofreu um baque muito grande de 2014 a 208, encolheu 30%. O que vai bem é o Minha Casa Minha Vida, que não foi afetado. Mas a demanda ainda está fraca para os imóveis de alto e médio padrão.”

O que esperar do futuro? Essa é a grande dúvida, segundo Ana Maria. O auxílio emergencial não será pago para sempre. Os efeitos do fim do benefício serão sentidos no último trimestre. E problemas atuais, como o desemprego e redução da renda, não estarão resolvidos no curto prazo. “O que vai vir? Entraremos de novo no campo das incertezas”, diz Ana Maria.

O que dá para saber é que esse avanço não será suficiente para terminar o ano com crescimento nas vendas. “Esse crescimento dos últimos meses ajudará a minimizar o impacto, mas não será suficiente para atingir o mesmo patamar de vendas de 2019”, afirma o diretor da Telhanorte.

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