A força do atacarejo está mudando a configuração das redes varejistas. O GPA, dono do Pão de Açúcar, vai vender 71 das suas 103 lojas Extra Hipermercados para o Assaí. Com essa transação, o GPA deixa de operar o formato de hipermercado e se concentra nos modelos de supermercado premium e de proximidade.

Já o Assaí, numa tacada só, consegue adicionar, 71 lojas à rede de atacarejo e assim ganha musculatura para competir com o Atacadão. O Carrefour, dono do Atacadão, já havia feito vários movimentos para expandir a operação de atacarejo – comprou o Makro e o Big.

Especialistas dizem que essa transação faz sentido tanto para o GPA quanto para o Assaí. Primeiro porque o GPA precisa se concentrar nas operações mais rentáveis. “O formato de hipermercado tem sido desafiado no mundo inteiro, não apenas no Brasil. O hiper foi um modelo que deu muito certo dos anos 80 até a virada dos anos 2000. Mas com o desenvolvimento de outros formatos de loja, o hiper ficou sem um papel claro na cabeça do consumidor”, afirma Eduardo Yamashita, COO da consultoria Gouvea Ecosystem.

Segundo ele, o formato de hipermercado deixou de fazer sentido com o avanço do atacarejo. “O atacarejo cresceu muito, com uma proposta muito clara de preço baixo e baixa conveniência. O supermercado e de conveniência se firmaram com a proposta de rapidez e serviço. E o hiper ficou no meio, não é tão conveniente quanto a loja de bairro nem tão barato quanto o atacarejo”, diz Yamashita.

Para Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail, a saída do GPA do modelo de hipermercado é uma decisão triste, mas corajosa. “É uma pena se considerar a importância que esse formato já teve. Mas é uma decisão estratégica e racional, que prioriza os fomatos mais rentáveis.”

E o que o Assaí ganha?

O Assaí ganha muita coisa na guerra do atacarejo. O presidente do Assaí, Belmiro Gomes, projetou que as vendas da rede podem chegar a R$ 100 bilhões em 2024, após a incorporação dos hipermercados Extra. Essa é a mesma estimativa de faturamento do Carrefour para 2024.

“Com essa transação, o Assaí incorpora ativos de qualidade e já um salto na corrida contra o Atacadão, que recentemente fez aquisições importantes para sua marca de atacarejo”, afirma Serrentino.

Para a XP, o negócio é importante tanto pela localização dos hipermercados Extra quanto pela possibilidade de atingir novos consumidores.

“A transação deve acelerar o plano de expansão do Assaí adicionando localizações estratégicas, espalhadas por várias capitais brasileiras e grandes cidades. Além disso, como esses locais estão em áreas metropolitanas, eles devem ser capazes de atender a uma demanda cativa do canal B2B (bares e restaurantes próximos) e, ao mesmo tempo, ser uma alternativa interessante para os clientes pessoa física”, diz relatório assinado por Danniela Eiger, head de Varejo e co-head de Equity Research, Thiago Suedt, analista de varejo e Gustavo Senday, analista de Varejo da XP.

Segundo eles, as lojas maiores do Extra devem permitir ao “Assaí oferecer uma experiência melhor, com maior sortimento de produtos e ofertas de alguns serviços (ex: açougue)”.

Como o mercado reagiu?

As ações do GPA subiam 13,95%, a R$ 31,55 às 15h10. Já as do Assaí caíam 2,80%, a R$ 17,36. Em seu relatório, a XP mantém recomendação de compra para os papéis do Assaí e neutra para os do GPA.

“Embora a transação possa parecer cara à primeira vista, olhamos os principais indicadores e o valor potencial a ser destravado para os acionistas de ASAI e estimamos que ela pode agregar valor mesmo sob premissas conservadoras. […]”, afirmam os analistas.

O porém, segundo o relatório, é a questão da governança. “A governança pode ser vista como um problema, pois envolve partes relacionadas e não estará sujeita à aprovação dos acionistas minoritários, o que pode levar os investidores a aplicarem um desconto de governança aos múltiplos atuais de ASAI. No entanto, o Assaí tem um histórico de execução sólido, enquanto a transação faz sentido estrategicamente e, portanto, acreditamos que os investidores devem dar o benefício da dúvida para a companhia.”

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