De startup à investidora. Esse é o novo perfil da Movile, dona do iFood, Sympla, PlayKids e outras empresas. Depois de receber um aporte de R$ 1 bilhão no meio do ano, a companhia está com caixa suficiente para investir e acelerar startups da América Latina.

Os investimentos, aliás, já começaram. A Movile já colocou dinheiro na argentina Moova (empresa de logística com foco na última milha) e na colombiana Mensajeros Urbanos (entregas expressas).

Rafael Lauand, head de estratégias e new ventures da Movile, disse que o foco dos investimentos da companhia são empresas que ajudam a reduzir os gargalos do setor de logística.

“Temos um gargalo muito grande na última milha (entrega na casa do cliente). A gente olha para as empresas que têm um diferencial nessa cadeia logística. Olhamos a cadeia como um todo, do armazém até a casa do cliente. É nessa última etapa que está o principal problema e é aí que gostaríamos de atacar primeiro”, disse Lauand.

Por que a logística? Porque o e-commerce vai continuar crescendo, mas depende do bom funcionamento dos sistemas de entrega. “Acreditamos na decolada do e-commerce, que vai continuar crescendo 2 dígitos ao ano ao longo dos próximos 5 anos. E o mercado logístico precisa evoluir muito na América Latina, principalmente na última milha.”

Leia entrevista de Lauand para o 6 Minutos.

Essa não é sua primeira passagem pela Movile, não é? O que você andou fazendo antes?

Eu voltei para a Movile em maio. Tive uma passagem anterior no iFood, onde fui head de estratégia e M&A, mesmo função que tenho agora, mas na Movile. Faz um tempinho isso, na época o iFood fazia de 1 a 2 milhões de pedidos por mês. Mas resolvi empreender e passei por duas empresas diferentes. A primeira foi a Vitta e depois o Lar.app. Passei os últimos quatro anos lá empreendendo, tive a oportunidade de vender o app e resolvi voltar. O bom filho à casa torna, não é?

Conta um pouquinho do que é esse lado investidor da Movile?

Vou começar falando sobre o que a Movile não é. Ela não se considera um fundo de venture capital. A maior parte dos investidores que encontramos hoje no ecossistema de startups é de fundos de venture capital, que levantam recursos no exterior e alocam em determinadas teses. O segundo modelo que se encontra é o fundo de private equity, que gosta de entrar em empresas mais consolidadas, com potencial de melhoria grande.

A Movile não se enxerga não se considera nem venture capital nem private equity. Ela se considera uma empresa que constrói teses. E o que seria isso? Ela gosta de determinados mercados, como logística. Acreditamos na decolada do e-commerce, que vai continuar crescendo 2 dígitos ao ano ao longo dos próximos 5 anos. E o mercado logístico precisa evoluir muito na América Latina, principalmente na última milha, nos locais para retirada.

Dito isso, a Movile considera uma empresa que busca as melhores teses na América Latina para fazer seus investimentos. Ela não busca várias empresas diferentes, o foco grande é ajudar a crescer. É o tipo de investidor que coloca a mão na massa, ajuda na construção, muito focada na alta escalabilidade e tecnologia.

Por que esse foco na última milha? Já não tem gente demais investindo nisso?

A primeira coisa que devemos comparar é como funciona nos outros países. Se pensarmos em China e Estados Unidos, eles têm todo tipo de entrega e delivery. Na China, o tempo médio de entrega de um pacote é de dois dias. Nos Estados Unidos, é menos ainda, 1,5 dia. Aqui no Brasil é de 16 dias, prazo muito maior que de outros países. No México, são 15 dias. Na Argentina, 7 dias, mesmo prazo da Colômbia. No Brasil, esse mercado é muito voltado para São Paulo, que possui médias mais baixas. Mas a média Brasil e de duas semanas. E os desafios ainda são grandes para conseguir que a última milha seja mais rápida.

Hoje, a gente faz a entrega no armazém e lá o pedido é separado para ir até a casa do cliente. Nessa etapa tem um gargalo muito grande, que precisa evoluir.

Que empresas de logística podem ser alvo desse investimento da Movile?

Empresas que têm um diferencial dentro dessa cadeia logística. A gente olha a cadeia como um todo, desde o armazém e transportadora até quem faz o pacote chegar na casa do cliente. Essa última milha é o grande problema e é ela que gostaríamos de atacar porimeiro. Por isso fizemos esses dois investimentos, um a Moova, na Argentina, e outro na Mensajeros Urbanos, da Colômbia.

E as empresas brasileiras? Não estão no foco da Movile?

Temos muita vontade de investir, sim. Estamos conversando com empresas com potencial interessante. Mas nesse momento de conversas não posso falar nomes nem nada.

Quando olhamos para os investimentos da Movile, eles começam a se espalhar para a América Latina. Encontramos vários países com potencial de crescimento.

O Brasil é um dos principais focos, mas estamos olhando para a América Latina. Queremos ter impacto em 1 bilhão de pessoas diferentes.

Como esses investimentos em logística conversam com o iFood?

A gente se coloca como fazedor de teses, buscamos investimentos que façam sentido para outros investimentos da Movile. Dessa etapa de logística, a principal empresa do grupo é o iFood, que tem muita inteligência em delivery e enxergamos esse potencial para transportar em novas empresas que podem ajudar a evoluir o last mile. Uma empresa quem tem know how e pode passar conhecimento para o próximo investimento. Mas quando falamos em logística, não estamos buscando sinergias com o iFood.

Você pode falar um pouco sobre o que a Movile Pay tem de novidade?

Em conjunto com o iFood, a Movile Pay tem a meta de criar uma conta digital para facilitar a vida dos restaurantes. A ideia é oferecer soluções bancárias pra facilitar o dia a dia deles, como na adquirência, pagamentos com cartão. Em 7 meses, estamos consolidando essa conta, que já concedeu R$ 300 milhões em crédito a taxas mais atrativas que esse restaurante encontraria no mercado. São mais de 200 mil contas abertas.

E o que o iFood está fazendo para permanecer em primeiro no delivery?

O próximo passo é ajudar cada vez mais o restaurante. Passamos pela pandemia ajudando as pessoas que precisaram ficar dentro de casa tendo uma experiência diferenciada, apesar desse momento único.

Quando olhamos para o mercado de crédito, esses restaurantes conseguem crédito muito caro no setor bancário para se financiar e superar dificuldades. O próximo é ajudar nessa realidade dos restaurantes para que eles consigam crescer mais rapidamente. Assim eles conseguem cuidar melhor da operação em si.

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