Depois das aceleradoras, das incubadoras e dos programas de hackathons, as grandes empresas estão apostando em ferramentas mais ousadas e arriscadas para buscar inovação. De olho nas oportunidades, companhias como Via, Banco BV, Eurofarma, Duratex e Stefanini decidiram criar seus próprios fundos – ou carteiras internas – para investir em startups.

Só neste ano, os chamados CVCs (Corporate Venture Capital) investiram US$ 622 milhões (R$ 3,4 bilhões pela cotação do último dia 8) em negócios em estágio inicial – valor 211% superior a todo o montante de 2020 e quase igual à soma dos investimentos feitos desde 2000, segundo dados do Distrito, plataforma de inovação aberta. Com a modalidade, além de ficar de olho em soluções disruptivas em desenvolvimento no mercado, as corporações podem ter alguma rentabilidade com os aportes.

Na estratégia de diversificação, algumas companhias destinam cerca de 70% dos investimentos dos fundos para startups que podem gerar tanto retorno estratégico, quanto financeiro; 20% vão para aquelas empresas apenas com potencial financeiro; e 10% em ativos estratégicos para a empresa, explica Gustavo Araújo, cofundador e presidente do Distrito.

Para ele, o CVC é uma forma de olhar a próxima onda que pode afetar os negócios e criar possibilidades para futuras aquisições. “Não dá para esperar determinada tecnologia explodir no mercado para só aí decidir investir e participar da startup. É preciso se antecipar ao movimento.” E uma das formas de entrar nesse mundo é por meio dos fundos. Ao contrário de um venture capital tradicional, que faz captação entre vários investidores para aplicar em startups, o corporate venture detém capital apenas da empresa.

Na avaliação de especialistas, a evolução dos CVCs é um sinal de maturidade do “ecossistema de inovação” dentro das companhias brasileiras. “Aqui, essa estratégia ganhou tração após a pandemia porque as companhias foram forçadas a buscar a inovação aberta para não ficar para trás”, diz Araújo.

No mundo, os CVCs já existem há muitos anos. Mas, como no Brasil, também tem experimentado uma escalada nos últimos meses ainda efeito dos juros baixos no mundo todo. Só no primeiro semestre, o total de investimento foi de quase US$ 80 bilhões – mais do que o dobro do volume verificado em igual período de 2020. “No mercado interno, o fenômeno de descoberta das startups começou em 2016 como uma forma de reduzir o risco de ficar obsoleto”, diz Luiz Ponzoni, sócio da PwC Brasil.

Complemento

Segundo ele, o CVC é uma ferramenta que se soma a outras estratégias, como os programas de P&D e outras iniciativas internas. Na Dexco (antiga Duratex), a aproximação com as startups teve início em 2017 com o programa Garagem Duratex. Ao longo desse tempo, o trabalho com os empreendedores evoluiu até o lançamento em julho deste ano de um CVC, de R$ 100 milhões. O presidente da companhia, Antonio Joaquim, conta que quase 50% do montante já foi investido na compra de participação de duas empresas.

“Até o fim do ano devemos usar todos esses recursos. Queremos ter uma carteira com um número suficiente de startups que possamos acompanhar de perto. Não queremos ter uma sacola imensa de investidas”, explica Joaquim. As empresas escolhidas têm uma gestão independente para permitir maior agilidade na criação, mas podem ter a ajuda da Dexco. “Nós somos como um transatlântico, com uma estrutura mais rígida. Às vezes, a inovação morre na empresa porque temos de fechar o mês.”

O modelo adotado pelo grupo de tecnologia Stefanini é semelhante. A ideia é investir nas startups e dar autonomia para que elas consigam desenvolver soluções disruptivas. Ao mesmo tempo, é preciso ficar próximo das empresas para conseguir ter um bom resultado, diz o fundador e presidente global grupo, Marco Stefanini.

Ele conta que a preferência é pela compra de participações majoritárias das startups, mas hoje já é possível fazer investimentos com opção futura de conversão em ações. Em 2020, a empresa destinou R$ 500 milhões para investir durante 3 anos em startups. No primeiro ano, houve a aquisição de sete negócios. “O critério de escolha é ter uma solução que faça sentido para a companhia, que esteja relacionada ao nosso core business”, diz Stefanini.

Na avaliação de Araújo, do Distrito, o movimento dos CVCs está apenas no início no Brasil. “Tudo que é tecnológico atrai mais do que o tradicional. Não vejo retração nem com a recente alta dos juros”, diz ele. Helisson Lemos, da Via (antiga Via Varejo), concorda. A empresa acaba de aprovar R$ 200 milhões para investir em startups nos próximos cinco anos. “Comparado com os investimentos da aceleradora, o CVC pega empresas mais maduras e aplica valores maiores.”

As três primeiras empresas do CVC da Via foram escolhidas em setembro: GoPublic, Poupa Certo e Byebnk. Todas têm alguma interação com o BanQi, uma fintech comprada no ano passado. A fórmula usada é de fazer o investimento nas empresas com a opção de se tornar sócio no futuro. “Fazemos o investimento mediante metas. Se a startup for exitosa, podemos nos tornar sócios dela”, diz Lemos.

‘Último estágio da inovação’

O banco BV foi um dos precursores em apostar nos Corporate Venture Capital (CVC) no Brasil. Em 2018, a instituição criou um dos maiores fundos do País, com capital de R$ 300 milhões. Nesse período, investiu em 9 startups e em 12 fundos de venture capital, diz o diretor executivo de Estratégia e Inovação do banco BV, Guilherme Horn.

Ele conta que a estratégia é destinar 70% do montante direto em startups e 30% na participação de fundos que investem em várias empresas. “Em tese, o CVC é o último estágio de maturidade de inovação aberta. Antes de chegar até aí, é preciso entender qual o objetivo da empresa e ver quais alternativas se têm no mercado.”

O CVC, completa ele, vem depois de vários programas de inovação, aceleração e incubação. “É o último estágio no relacionamento com startups.” Horn conta que a instituição escolheu duas teses para investir nesse “ecossistema”: buscar empresas que dominam tecnologias que o banco não domina ou que atuam em áreas em que a instituição ainda não está.

O executivo conta que normalmente olha mais a questão estratégica do que o retorno financeiro de alguma investida. “Mas é óbvio que, se um negócio não traz valor, não faz sentido investir.” Segundo ele, à medida que as oportunidades vão surgindo, a empresa poderá aumentar o valor do fundo ou criar uma nova carteira. “A pandemia acelerou o digital em todos os setores. E, muitas vezes, a aquisição de uma startup representa ganhar tempo.”

‘Buscamos sinergia com os negócios’

Na Eurofama, o Corporate Venture Capital (CVC) foi criado em maio de 2019 e já investiu em cinco empresas. Outras duas passam, no momento, por um processo de due diligence (avaliação). O objetivo é chegar a dez investimentos até o fim do ano que vem, quando a carteira será fechada.

No total, o fundo foi criado com R$ 45 milhões, sendo que R$ 15 milhões já foram desembolsados. “Temos o objetivo de criar uma nova carteira, sempre com o foco em saúde”, diz Helton Carvalho, diretor de empreendedorismo e digital da Eurofarma.

Ele acredita que o CVC fecha o ciclo de inovação aberta dentro da empresa, que já acelerou 40 startups (serão 50 até o fim do ano). “Com o fundo, a companhia busca retorno financeiro, mas também quer negócios que tenham sinergia com a empresa”, diz Carvalho. Em boa parte das investidas, a Eurofarma entra com participação minoritária, mas sempre está presente nas reuniões. “Esse negócio une o que há de melhor nos dois mundos. A startup tem oportunidades dentro da organização, e a organização pode ter mais agilidade com a startup.”

Algumas empresas com participação da Eurofarma já prestam serviço ou vendem seus produtos para o grupo, conta o executivo. “Temos startups que, depois de seis meses de aporte, já estão dando retorno financeiro. Dentro de um CVC tanto a parte financeira, quanto a estratégica são importantes.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).