A pandemia da covid-19 fez nascer uma série de produtos e serviços, criando novos nichos de mercado para empresas de variados ramos de atividade e startups com soluções voltadas ao combate do coronavírus. A grande maioria não acredita que a chegada da vacina contra a doença vá inviabilizar o negócio. Para elas, as pessoas estão mais conscientes da necessidade de cuidados com a saúde e vão seguir abertas a produtos que ajudem nessa defesa.

A lista de novidades que surgiram nos últimos seis meses inclui tecidos, tintas, equipamentos de raios ultra violeta, capacete de ventilação e até sacos de lixo, todos com materiais antibacterianos e antivirais ou com soluções de proteção contra contaminações.

Para o presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, Cláudio Frischtak, muitos dos produtos fazem parte de mudanças estruturais que o País terá após essa experiência sem precedentes que o mundo todo enfrenta. “Mesmo com a vacina, se esses novos produtos forem competitivos, com preços iguais ou no máximo 5% a 10% superiores aos de similares, serão mantidos no mercado”, avalia.

É o que Tiago Inacio Peixoto acredita. Ele é diretor comercial da Companhia Industrial Cataguases, de Minas Gerais, que fez parceria com a Dalila Têxtil, de Santa Catarina, no desenvolvimento e produção de tecidos com acabamento antiviral e antibacteriano que estão chegando ao mercado em coleções de grandes redes de varejo.

“É obvio que vai ter uma curva (em vendas) em razão do momento que estamos vivendo, mas, pensando num mundo pós pandemia e com vacina, acredito que as pessoas vão estar mais sensíveis e mais abertas a roupas funcionais para se protegerem”, diz Peixoto. “Até porque, se hoje temos a covid-19 amanhã poderemos conviver com outros tipos de coronavírus”, completa André Klein, presidente da Dalila.

A venda de malhas com proteção da Dalila começou em abril e representa hoje 20% da sua produção, de 400 a 500 toneladas ao mês. Na Cataguases as vendas começaram no mês passado e até o fim do ano devem ficar com 10% a 15% da fatia da produção mensal de 1,5 milhão de metros lineares de tecidos planos de algodão.

No processo produtivo, os tecidos recebem um composto de íons de prata com estabilizante natural que inativa os vírus. Por enquanto, testes garantem a proteção por no mínimo 50 lavagens, mas essa durabilidade deve dobrar após conclusão de novo teste. A eficácia dos tecidos foi testada por quatro universidades, entre elas a Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Unicamp, de Campinas.

Em algumas lojas da C&A e no site da marca, uma nova coleção de camisetas masculinas, femininas e infantis feitas com as malhas antivirais da Dalila começou a ser vendida há duas semanas. “Está ocorrendo uma retomada gradual das atividades e, como isso ainda exige muito cuidado, esse tipo de roupa é mais um componente para deixar as pessoas mais confiantes para voltar à rotina”, afirma Mariana Moraes, gerente sênior de Marketing da C&A.

Inicialmente são 20 mil peças que receberam etiquetas especiais informando sobre o tecido, com preços que vão de R$ 40 a R$ 50. Mariana afirma que a intenção é estender o uso do tecido para outros produtos.

Outra empresa de tecidos, a ChromaLíquido, está fornecendo capas para bancos com proteção antiviral para ônibus da Viação Osasco, na Grande São Paulo, e forros para balaústres. Além da proteção aos passageiros, a forração reduz o tempo em que os veículos ficam parados para o processo manual de higienização, informa Ricardo Bastos, diretor de Relações Institucionais. O grupo já tem encomendas de 500 kits (com capas para bancos e suportes) de empresas de transporte público.

Em outubro a ChromaLíquido iniciará a venda de capas para os modelos de automóveis mais vendidos no País em lojas de autopeças, além de atender quatro montadoras que terão o produto em suas redes de concessionárias. Recentemente, a empresa colocou capas em bancos do estádio do Corinthians e está trabalhando no fornecimento de uniformes para empresas, assim como luvas.

A ChromaLíquido tem parceria com a encarroçadora Caio, que produz ônibus já com o tecido, feito de fio de poliamida desenvolvido pela Rhodia com proteção até o fim do produto, independente do número de lavagens. O produto teve sua eficácia comprovada por laboratório independente, seguindo protocolos têxteis das normas internacionais ISO 18184 e AATCC100.

A empresa aguarda chamamento para oferecer os tecidos antivirais a vagões do metrô de São Paulo. “Acredito que muitas pessoas e empresas vão estar mais cautelosas com a saúde após a pandemia e haverá uma adequação natural ao uso desse tipo de produto”, afirma Bastos.

No Café Journal, no bairro Moema, em São Paulo, equipamento parecido a um micro-ondas foi instalado há três semanas próximo à entrada. É o BOX UV-C, caixa com luz ultravioleta em que os clientes colocam celulares, chaves, bolsas e carteiras para eliminar germes, bactérias, fungos e vírus presentes nos itens de uso constante.

O gerente executivo do Café, Neuri Coletto, informa que todas as embalagens de produtos que serão entregues pelo sistema de delivery passam pela caixa de esterilização antes de saírem do estabelecimento.

A BOX UV-C foi desenvolvida pela Pop Up Live, startup criada por executivos de empresas de São Paulo ligados ao ramo de eventos que viram seus negócios despencarem na pandemia. As lâmpadas UV-C s são importadas da Alemanha e cada caixa recebe duas delas de forma que a radiação atinja todo seu interior. “Ela é de fácil manuseio. O usuário coloca o objeto, fecha a porta e aperta um botão. Inicia-se um ciclo de um minuto e meio, suficiente para a eliminação de até 99,99% dos microrganismos”, explica Ricardo Van Meenen, um dos sócios da Pop Up.

Segundo ele, não existe restrição de uso de objetos ou alimentos, e a caixa não altera o aroma nem o sabor de produtos alimentícios. Além de bares, a Box, que custa R$ 4,1 mil, está sendo instalada na entrada de condomínios para que os moradores possam esterilizar embalagens, alimentos, correspondências e objetos pessoais antes de irem para suas residências. Segundo a empresa, o produto atende conformidades da Anvisa.

Sacos de lixo com material capazes de neutralizar vírus e bactérias estão à venda em várias redes de supermercados. Desenvolvido pela Embalixo, fabricante de embalagens para lixo há 17 anos e hoje com sede em Hortolândia (SP), o produto é feito de uma composição de polímeros e sua eficácia foi atestada pela Unicamp. Para se diferenciar dos demais, ele tem cor prata.

O diretor comercial Rafael Costa informa que a Embalixo sempre investe em inovação e oferece soluções exclusivas ao mercado como saco para lixo feito de planta com tecnologia que captura a emissão de gás carbônico, saco com repelente, com neutralizador de odores “e o primeiro saco vegano do mundo.”

A empresa produz 800 toneladas ao mês de sacos plásticos e 10% hoje são da linha antiviral, participação que nos próximos meses deve chegar a 25%, prevê Costa. “Consumidores contam que estão usando os sacos antivirais até para cobrir cadeiras e como cesto de roupas”, diz.

No segmento de desinfecção, a DeVant Care, especializada em soluções automatizadas de biodesinfecção para a área hospitalar, está importando da França o Nocotec, aparelho de 6 quilos que poder ser usado em clínicas, escritórios, empresas, residências, hotéis e outros ambientes.

Ivam Cavalcante Pereira, diretor executivo da empresa, informa que um frasco com solução de peróxido de hidrogênio com prata é acoplado ao aparelho e espalha vapor seco.

A aplicação é feita diariamente e, dependendo do tamanho da área a ser desinfectada custa R$ 10 ao dia. A DeVant, com sede em Cotia (SP) vende, aluga ou faz comodato do Nocotec, que tem registro na Anvisa.

“Com a chegada de uma vacina contra o coronavírus pode haver uma redução do uso do aparelho, mas como serve para todo tipo de desinfecção acredito que muitos continuarão utilizando pois a cultura da precaução está arraigada”, afirma Pereira.

Na mesma linha, mas com equipamento portátil, a O2Led Illumination, empresa de Minas Gerais que atua na geração de luz por lâmpadas de Led, está produzindo o SterBox, aparelho para descontaminação de ambientes pequenos, como os automóveis. Com foco principalmente em táxis e veículos de aplicativos, funciona com uma saída USB e esteriliza o ambiente inteiro, informa Roberto Cardoso, presidente da O2Led.

O SterBox custa R$ 398 e também pode ter uso doméstico. O equipamento tem laudos de aprovação de sua eficácia do laboratório LS Analyses.

Já a cirurgiã-dentista Paula Machado, preocupada com o retorno ao trabalho em sua clínica, juntou-se a outra profissional do ramo, Eliane e seu marido, o engenheiro Juliano Dillenburg e criaram a startup Meister Safe para fornecer projetos de aplicação de raios ultravioletas para descontaminação de ambientes.

“Nossa equipe avalia o tamanho da área, número e potência das lâmpadas necessárias, local de instalação para garantir a eficácia da esterilização e assessora o cliente no uso da luz ultravioleta”, afirma Paula, que já presta o serviço para consultórios médicos e dentários, escolas e lojas.

Depois de colocar no mercado, em agosto, tintas com compostos antivirais que atuam em superfícies, a WEG registrou crescimento de 49% nas vendas em relação às tintas poliuretanas sem a propriedade. Ela é recomendada para hospitais, móveis, equipamentos hospitalares, laboratórios, consultórios e equipamentos médicos e odontológicos, eletrodomésticos, supermercados, indústrias e veículos.

Reinaldo Richter, diretor da empresa, informa que também foram lançados recentemente vernizes para pintura de fechaduras, corrimão de escadas e interiores de veículos, inclusive em versão aerossol, de fácil aplicação. “Continuaremos desenvolvendo outras tintas viricidas, nas mais diversas formas de aplicação, e que serão lançadas brevemente”, informa.

O executivo acredita que o produto vai se manter no mercado mesmo no pós-pandemia e passará a ser requisito em novos projetos arquitetônicos, principalmente para lugares de muita circulação. “Desde o lançamento temos recebido inúmeras consultas a respeito das propriedades e performance da tinta. Várias construtoras já estão testando o produto e incluindo no seu vendor list (lista de fornecedores)”.

A Marcopolo produziu mais de 500 unidades do ônibus rodoviário Biosafe, com soluções de segurança como tecidos antivirais nas poltronas, nos balaústres e nas cortinas, bancos individuais em três fileiras, dispositivo de renovação de ar a cada três minutos, sistema de desinfecção do ar-condicionado com UV-C e luz ultravioleta para desinfecção dos banheiros. Segundo a fabricante, 200 unidades foram para empresas brasileiras e 300 exportadas.

A empresa de carrocerias de ônibus também desenvolveu um totem que é colocado nas rodoviárias e em terminais para medir a temperatura do passageiro, identificar se está usando máscara, ler o QR Code da passagem e fornecer álcool gel.

Entre as empresas que adquiriram o totem estão a Viação Ouro e Prata, grupo gaúcho que oferece viagens rodoviárias para vários Estados, a Serra Verde Express, operadora do trem turístico entre Curitiba e Paranaguá (RS) e a rodoviária de Caxias do Sul. A Federação Gaúcha de Futebol utiliza totens e o FIP Onboard (névoa seca de desinfecção) para desinfetar vestiários e espaços de jogadores, juízes e comissão técnica em jogos realizados em Porto Alegre e Caxias do Sul.

O FIP Onboard é um serviço de desinfecção que a Marcopolo passou a oferecer de forma avulsa e tem entre os clientes a Viação Garcia, de São Paulo – que adquiriu 200 aplicações para desinfecção de ônibus nas garagens –, a Serra Verde, para aplicar nos vagões dos trens turísticos, um hotel de Porto Seguro (BA), além de empresas de Caxias do Sul para uso nas áreas administrativas. A Randon aplica nos ônibus de transporte de funcionários.

Na área diretamente ligada à saúde, a Roboris, empresa de São Paulo especialista em robótica, criou um capacete de ventilação que pode evitar a intubação de pacientes com dificuldades respiratórias. A ideia de desenvolver a Bolha de Respiração Individual Controlada (BRIC) surgiu no início da pandemia, quando o presidente da empresa, Guilherme Thiago de Souza, teve contato com um grupo de engenheiros que estudava o desenvolvimento de ventiladores mecânicos.

Inicialmente a empresa tentou importar equipamento similar para adaptações, mas, com as dificuldades naquele momento em trazer esse tipo de produto de fora, partiu para o desenvolvimento baseado em estudos do que já havia internacionalmente e na literatura.

“Desenvolvemos junto com fornecedores polímeros exclusivos, criamos método de fabricação próprio para não ter problemas com patentes já existentes, fizemos um protótipo e levamos para médicos do Hospital das Clínicas testarem e validarem”, conta Souza. O capacete é uma bolha transparente, individual e descartável com conexões respiratórias e antecede a entubação, indicada para casos graves.

Além de manter a boa oxigenação sem precisar de uma sala de UTI, a BRIC serve como proteção de equipes de saúde por exemplo no transporte aéreo de pacientes ou nas ambulâncias. Até a fase do protótipo funcional aprovado pela Anvisa, a Roboris investiu cerca de R$ 400 mil.

Como não é da área de fabricação de equipamentos médicos e clínicos, a Roboris fez parceria com outra empresa desse ramo, a Mikatos, para a produção em série da BRIC até que conclua procedimentos para a criação de uma divisão para essa atividade. Foram vendidas até agora 500 unidades para mais de 40 hospitais públicos e privados de vários Estados pelo preço de R$ 1,2 mil (mais impostos). A empresa Abelha Táxi Aéreo e Aeromédico, de Cuiabá (MT), que tem frota de nove aviões, dos quais seis podem ser convertidos em UTIs, também está utilizando o capacete.

A Toyota, por sua vez, desenvolveu uma espécie de cortina para separar os passageiros dos motoristas de modelos Corolla usados como táxis e transporte por aplicativos. Até agora foram entregues 470 unidades às concessionárias da marca.

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