Após um primeiro movimento de fortes descontos e promoções para atrair passageiros ainda ressabiados, as companhias aéreas poderão ter que aumentar seus preços no longo prazo para conseguir cobrir custos e continuar operando, pelo menos enquanto houver algum grau de preocupação com a pandemia de coronavírus.

Essa é a avaliação de especialistas no setor aéreo, que lembram que as despesas das empresas do setor, que já são tradicionalmente altas, estão aumentando ainda mais por causa das medidas de higienização e proteção de passageiros contra a infecção.

As receitas, por outro lado, só caem por causa da redução expressiva no número de passageiros, seja pelo medo de contrair o vírus, seja pelas dificuldades econômicas que empresas e pessoas físicas estão enfrentando.

“No longo prazo, a tendência é que subam as tarifas a um patamar mais elevado do que antes da pandemia”, afirma Alessandro Oliveira, do Nectar (Núcleo de Estudos do Transporte Aéreo), do ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica).

A grande pressão sobre as tarifas vem do delicado equilíbrio entre receitas e despesas de uma companhia aérea.

Dados divulgados pela Iata (Associação Internacional do Transporte Aéreo) ajudam a ilustrar esse dilema. Para um voo ser lucrativo, em geral, o avião precisa voar com pelo menos 75% dos assentos ocupados. No ano passado, segundo a entidade, de 122 companhias aéreas do mundo, apenas quatro conseguiram chegar ao ponto de equilíbrio (não ter prejuízo) com menos de 60% de ocupação.

Se restrições de saúde obrigarem as empresas a reduzir o número de pessoas por avião, para que se consiga manter uma distância maior entre os passageiros, a entidade estima que as tarifas teriam que aumentar mais de 40% apenas para compensar de custos.

Viagens corporativas em baixa

Além de tudo, o setor aéreo terá que lidar com uma nova realidade em que as viagens de negócios, que antes da crise representavam cerca de 60% da receita de um voo, perderão parte da importância atual para os negócios.

Algumas empresas já estão descobrindo que o uso da tecnologia pode substituir com eficácia encontros pessoais.

“Mais da metade dos passageiros antes da pandemia eram corporativos, onde está o filão mais lucrativo para as aéreas. Mas as empresas estão em crise, e muitas descobriram que reuniões virtuais funcionam”, explica Oliveira. “Se as empresas aéreas perderem densidade, seus custos aumentam”.

A crise também afasta a possibilidade de entrada de novas companhias no mercado brasileiro, o que poderia estimular concorrência e tarifas menores.

Um exemplo é o da aérea britânica Virgin Atlantic, do bilionário Richard Branson, que no final do mês passado cancelou os planos de atuar no Brasil sem nunca ter saído do chão.

“Temos um problema de recessão econômica, e quem poderia montar uma nova empresa aérea não vai fazê-lo agora”, diz o especialista do Nectar.

Promoções no curto prazo 

No curto prazo os especialistas afirmam que a tendência é de promoções agressivas para convencer o passageiro a voltar a voar.

“Acredito que podemos esperar preços muito baixos e agressivos”, afirma John Grant, analista da consultoria OAG Aviation Worldwide. “Na Europa, já vemos algumas companhias aéreas reentrando no mercado oferecendo ofertas incríveis, e é provável que isso aconteça também na América Latina”.

O momento atual, avalia Oliveira, é de experimentação. “No curto prazo, vai haver um pouco de experimentação de mercado, tentativas de indução de promoções, e promoções mais amplas, menos cirúrgicas do que vinham sendo”, afirma.

 

 

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