O segmento de cargas, um dos menos glamourosos da aviação, se tornou uma das únicas fontes de renda das companhias aéreas em meio à crise causada pela pandemia de coronavírus.

A queda no número de voos, combinada com o aumento no consumo de itens que vão de iPhones a remédios, elevou as taxas de frete. Com muitas pessoas ainda em quarentena e comprando majoritariamente pela internet, a tendência é que a demanda permaneça alta, especialmente com a aproximação das festas de fim de ano.

“Fronteiras fechadas não significam que as pessoas não estão comprando”, disse Um Kyung-a, analista de companhias aéreas da Shinyoung Securities, em Seul. “A alta no preço do frete deve continuar, já que a capacidade de carga permanece limitada.”

O tipo de mercadoria transportada mapeia o desenrolar da pandemia. Máscaras e luvas deram lugar a semicondutores e peças de computadores, à medida que o home office cresceu entre a população. O volume de alimentos frescos também aumentou. Quando as vacinas para a doença forem comercializadas, aviões serão usados para entregar bilhões de frascos rapidamente e em um ambiente com temperatura controlada.

Em circunstâncias normais, cerca de 60% da carga aérea global é transportada no porão dos voos de passageiros. Com centenas desses jatos estacionados esperando o fim da pandemia, os volumes de carga caíram neste ano — enquanto os custos do frete aéreo dispararam. O valor para transportar um item de Hong Kong para os Estados Unidos, por exemplo, aumentou cerca de 70% desde janeiro.

A Bloomberg Intelligence prevê que a capacidade total das frotas aéreas de passageiros não retornará aos níveis pré-pandemia antes de 2022. Nem todas as companhias aéreas são capazes de fazer uma transição para lidar com as novas circunstâncias. Mas as que podem não perdem tempo.

Nos Estados Unidos, a United Airlines elevou a receita com cargas em mais de 36% no segundo trimestre, para US$ 402 milhões. Já American Airlines relançou serviços exclusivos de carga após um hiato de 35 anos. Em setembro, a companhia espera operar mais de 1.000 voos somente de cargas, principalmente com Boeings 777 e 787, para 32 destinos na América Latina, Europa e Ásia.

Companhias aéreas da Ásia, como a Singapore, Korean e Asiana removeram alguns assentos de passageiros de seus aviões a fim de liberar mais espaço para o transporte de cargas.

A Emirates, quarta maior transportadora de carga do mundo, disse que “reagiu muito rapidamente” à mudança na demanda, ampliando sua rede de carga para cerca de 50 destinos entre abril e julho deste ano. “Trabalhamos sem parar para usar não apenas nossa frota de cargueiros, mas também nossas aeronaves de passageiros para voos de carga.”

O redirecionamento das aeronaves, no entanto, não compensou todos os prejuízos da crise do coronavírus para a aviação global. Boa parte das companhias aéreas estão perdendo dinheiro e demitindo dezenas de milhares de funcionários.

Rota de comida

“Alimentos enlatados, coisas que as pessoas comprariam no supermercado, agora são transportadas de avião, pois essa é uma forma mais eficiente de serem entregues em todo o país”, disse Daniel Putut, diretor da Mentari Airlines, companhia aérea da Indonésia. “Com os passageiros caindo drasticamente, temos que encontrar outros meios de receita.”

A Qantas trocou pessoas por peixes. A companhia tem transportado produtos frescos da Austrália para a Ásia, incluindo “quantidades significativas” de atum para o Japão e truta coral para Hong Kong. Já a Fiji Airways está ganhando um pouco mais com o transporte de frutos do mar e kava, disse o CEO Andre Viljoen durante uma apresentação na semana passada.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.uol.com.br/whatsapp.