A marmita nunca esteve tão presente no dia-a-dia dos brasileiros. A novidade é que agora dá para comer comida caseira sem ter o trabalho de prepará-la e transportá-la em potinhos até o serviço. É que muitas empresas se especializaram na entrega de marmitas dos mais variados tipos, como a fit e a vegana. O interesse é tanto que marmita virou nome de uma das categorias de entrega do iFood. O aplicativo Eats For You fornece comida caseira em grandes centros empresariais paulistas. No Uber Eats, a categoria comida brasileira está entre os cinco mais pedidas no aplicativo.

Por que as pessoas estão comprando quentinhas para comer em casa ou no trabalho? Basicamente, por três motivos: comodidade (não perder tempo se deslocando até o restaurante), saudabilidade (dá para escolher opções fit e menos calóricas) e economia (é mais barato do que comer no quilo).

“Vejo como principal motivo a questão da saudabilidade. As pessoas querem reduzir cada vez mais o consumo de alimentos ultra-processados. Por isso, a comida caseira vem ganhando espaço no cardápio de quem estava acostumado a comer fora”, diz Nelson Andreatta, CEO da Eats For You. “A comodidade também é importante: quem trabalha em grandes centros urbanos perde muito tempo se deslocando até o restaurante, aguardando uma mesa e depois pegando fila para pagar. É mais rápido comer no trabalho.”

Por isso, as pessoas estão se preocupando mais com que o que comem. “Há uma tendência de as pessoas se envolverem mais com a própria alimentação de uma maneira geral. Percebemos que os consumidores querem mais informações sobre o que estão consumindo, quais alimentos são mais saudáveis, além de mais experiência e praticidade”, diz Daniella Mello, CEO e fundadora da Cheftime.

Uma das marmitas entregues pelo aplicativo Eats For You
Crédito: Divulgação

Por que comprar marmita pronta em vez de trazer de casa? Muitos fatores estão envolvidos nisso, mas a falta de tempo ou habilidade para preparar a própria marmita explicam o aumento do consumo de quentinhas. Outro fator é a redução do tamanho das famílias.

“Muita gente mora sozinha, ou é um casal em que ambos trabalham fora e não têm tempo de preparar a própria comida. Cozinhar dá trabalho, tem que comprar o alimento e prepará-lo, muitas vezes sobra, desperdício. Por isso, muita gente migra para a compra de alimentos prontos”, afirma Leonardo Paiva, consultor do Sebrae-SP.

Então as pessoas querem comer bem, mas sem perder tempo com isso. “As pessoas querem comer melhor, mas elas também buscam, ao mesmo tempo, mais praticidade e  por isso observamos essa tendência no crescimento de refeições prontas que tragam soluções com alimentos balanceados nutricionalmente e com procedência e rastreabilidade comprovada”, diz Daniella Mello, da Cheftime.

O preço também é fator crucial na hora de optar por uma quentinha? Até mesmo quem recebe vale-refeição precisa economizar na hora de almoçar. Pesquisa divulgada no ano passado pela Sodexo mostrou que o saldo do vale-refeição não chega até o fim do mês para 38% dos usuários. Ou seja, o trabalhador precisa trazer de casa ou pagar do próprio bolso.

Para piorar, comer fora de casa está cada vez mais caro. O valor médio gasto pelo brasileiro no almoço cresceu em 27,33% em cinco anos, passando de R$ 27,36, em 2014, para R$ 34,84, em 2018, segundo levantamento da Ticket, com base nos indicadores da Pesquisa +Valor.

Por isso, muitos brasileiros simplesmente deixaram de comer fora. Pesquisa da Kantar mostra que o percentual de brasileiros que fazem refeições fora de casa em restaurantes do tipo “coma a vontade” caiu de 61% em 2018 para 58% em 2019. Isso significa quase 1 milhão a menos de pessoas comendo fora de casa.

“Enquanto o consumo de refeição fora de casa cresceu em diversos países, no Brasil ele caiu em 2019. Isso acontece porque o brasileiro continua precisando equilibrar o orçamento que esteve muito apertado, reflexo ainda do desemprego elevado, das incertezas econômicas e do aumento do endividamento da população”, afirma Karoline Dilho Alves, account manager da Kantar.

Com todo esse aperto, segundo ela, o brasileiro precisou abrir mão do restaurante nos fim de semana e também nos dias úteis para conseguir uma sobra de dinheiro no fim do mês. “O brasileiro tem sido mais racional, pensando mais no bolso e por isso está gastando menos com refeição fora de casa”, diz Karoline.

Esse movimento tem impulsionado o surgimento de novos negócios? Relatório especial do Sebrae-SP sobre os negócios promissores aponta o fornecimento de alimentos preparados para consumo no lar como um dos que tem mais potencial de crescimento. O número de MEIs (microempreendedores individuais) registrados nessa categoria passou de 93.457 para 171.284 de 2014 para 2018. Esse foi um dos negócios com maior média de crescimento entre 2013 e 2017: 11%.

A Uber Eats diz que “está acompanhando de perto essa tendência e reforçando parcerias com restaurantes focados nesse tema, especialmente PMEs, que estão saindo do mundo off-line e entrando no on-line com uma oferta de pratos simples, gostosos e mais acessíveis aos usuários”.

Bicicleta que funciona como ponto de entrega das marmitas da Eats For You
Crédito: Divulgação

A Eats For You faz justamente a ponte entre empreendedores que trabalham em casa preparando comida e as pessoas que querem esse tipo de quentinha na hora do almoço. Em vez de delivery, a empresa conta com pontos de apoio em que os compradores podem retirar suas refeições em horários pré-estabelecidos. Por enquanto, a Eats For You atua apenas em Alphaville e São Paulo (regiões da Paulista, Pinheiros, Berrini, Vila Olímpia e Brooklin).

O varejo também está atento a esse novo comportamento? Sim, algumas lojas do Pão de Açúcar criaram espaços para consumo de alimentos prontos. E o Carrefour fez uma parceria com a rede Hirota para fornecimento de refeições prontas, as famosas quentinhas.

“Temos buscado desenvolver de maneira consistente o conceito de grocerant em nossas lojas, oferecendo as mais variadas opções de produtos ready to cook (kits gastronômicos com todos os itens necessários para o preparo), ready to eat (pronta para comer), e ready to go (produtos pré-preparados para levar, como saladas lavadas), e espaços que permitem essas experiências de convivência junto do momento de compras dos clientes”, afirma Daniella Mello, da Cheftime.

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