A pandemia transformou profundamente os hábitos de alimentação do brasileiro. Com a transferência do local de trabalho para as residências, todas as refeições passaram a ser feitas dentro de casa. Quem mais sofreu com isso foram os bares e restaurantes, que dependem do movimento do almoço e do jantar para faturar.

“Quase 80% das pessoas que consomem refeições fora de casa são trabalhadores. Com a pandemia, eles deixaram de fazer essas refeições na rua”, diz Ingrid Devisate, diretora executiva do IFB (Instituto Foodservice Brasil).

SetoresAcumulado de março a setembro
Varejo total-22%
Super e hipermercados17%
Material de construção13%
Drogarias e farmácias-2%
Serviços automotivos-14%
Móveis, eletro, departamentos-14%
Postos-31%
Vestuário-50%
Bares e restaurantes-56%
Turismo e transporte-75%

Essa simples de mudança representou um golpe brutal para o setor. Desde o início da pandemia, as vendas de bares e restaurantes amargam uma queda de 56%, segundo dados da Cielo. No mesmo período, as vendas dos setores de atacado (+30%) e de hiper e supermercado (+23%) tiveram crescimento expressivo. O faturamento de serviços especializados, que engloba lojas de conveniência e padarias, subiu 0,6%.

Para Ingrid, esses dados mostram como os gastos com refeição fora do lar foram transferidos para dentro de casa, com aumento de compras em supermercados, atacados e padarias. “Houve um deslocamento do gasto com alimentação. As pessoas não estão gastando no delivery, elas estão comendo comida feita em casa”, afirma Ingrid.

O que mais tem interferido no setor? Para Ingrid, o desemprego e a renda têm um peso grande na decisão de comer fora. Mesmo quem não perdeu emprego, teme uma redução futura de renda. Por isso, acaba cortando o restaurante para poder economizar um pouco.

Outro fator é o medo de sair de casa. “Embora as reportagens mostrem praias lotadas e pessoas saindo de casa, o fato é que tem um contingente muito grande cumprindo a quarentena. Essas pessoas não voltaram para os restaurantes ainda.”

O delivery não está sustentando o setor? A diretora-executiva do IFB diz que não é verdade que 100% dos restaurantes estão trabalhando com delivery.

“Antes da pandemia, 51% dos consumidores faziam suas refeições dentro do estabelecimento e 49% fora. Hoje, 85% comem fora do restaurante, refletindo essas mudanças.”

Dados do IFB mostram que o percentual de restaurantes que operam com delivery saltou de 49% em março para 63% em setembro.

A reabertura não melhorou as vendas do setor? Pior que não. Ingrid diz que os restaurantes ainda esbarram em dificuldades como horário de funcionamento. “Tem local, em que os shoppings fecham a praça de alimentação às 18h. Então, os restaurantes vendem no almoço, mas perdem a receita com o jantar.”

O que mudou foi o percentual de queda nas vendas na comparação com o ano anterior. Em abril e maio, as vendas caíram 55,9% e 49,7%, respectivamente. Em agosto, a queda foi de 23,8%.

Tem loja fechando? Sim. Pesquisa do IFB mostra que o percentual de lojas que não serão reabertas subiu de 3,3% para 5,3% em apenas 10 semanas. “São lojas pressionadas pela queda de receita, negociação difícil de valor do aluguel. Fechar acaba sendo a última solução.”

Com o setor de foodservice vai fechar o ano? Com encolhimento nas vendas. No ano passado, os gastos com refeição atingiram R$ 215 bilhões. A previsão é que esse montante fique em R$ 137,7 bilhões em 2020 e R$ 187,2 bilhões em 2021.

Segundo Ingrid, o setor tem em mente que a volta à normalidade não será mais a mesma. “Muitas empresas continuarão em home office, aquele movimento que havia perto dos escritórios pode nunca mais voltar a ser o mesmo.”

As pessoas vão cozinhar em casa para o resto da vida? Também não é assim. Para Ingrid, as empresas de alimentação vão criar formas mais rápidas de retirada dos pratos e supermercados e padarias intensificarão a venda de comida pronta. “O Brasil não é o país do drive-thru. Devem ser criadas opções de coleta da refeição sem a necessidade de entrar dentro do restaurante.”

Vista geral da praça de alimentação do Vale Sul Shopping, em São José dos Campos, interior paulista
Crédito: Lucas Lacaz Ruiz/Estadão Conteúdo

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