A manobra para mudar o teto de gastos gerou uma revisão em cadeia das projeções para a alta dos juros. Ao menos cinco instituições financeiras revisaram para cima suas projeções para o aumento da Selic a ser promovido pelo Banco Central na próxima semana, agora com um acréscimo de pelo menos 125 pontos-base.

Até o começo da semana, era praticamente consenso de que o Copom (Comitê de Política Monetária) faria dois ajustes de 100 pontos base nas reuniões de outubro e dezembro, levando a taxa de 6,25% para 8,25% ao final do ano. Agora, as estimativas levam a taxa para até 9,25% ao final do ano.

O UBS BB passou a ver alta dos juros de 150 pontos-base nas duas últimas reuniões do Copom de 2021, ante 100 pontos-base para cada do cenário anterior. A Asa Investimentos também prevê dois aumentos de 150 pontos-base.

Com mais aperto contratado para o começo de 2022, a taxa básica de juros da economia concluiria o ano que vem em 10,25% nominal, maior patamar desde julho de 2017 e 825 pontos-base acima da mínima histórica de 2% que vigorou entre agosto de 2020 e março de 2021. A Selic está atualmente em 6,25%.

“O que for preciso é, de fato, o que for preciso”, disse o UBS BB em relatório, fazendo referência a fala recente do presidente do BC, Roberto Campos Neto, de que a autarquia fará o “que for preciso” para a ancoragem da inflação no médio e longo prazos.

Apesar dessas previsões mais agressivas, a maioria passou a estimar que o Copom fará uma alta de 125-pontos na reunião de outubro. “Mudamos de 100 para 125 pontos para a reunião de outubro e isto levará a SELIC para 8,5% este ano (mantemos 100 pontos na reunião de dezembro). Muitos podem argumentar que seria necessário mais juros neste momento, mas quando se fala de Política Monetária nunca é o que você acha, mas o que você acha que o outro acha, neste caso o outro é a diretoria do Banco Central e há muitas evidências que a função de reação do colegiado é mais cautelosa que muitos no mercado”, afirma André Perfeito, economista-chefe da Necton.

Ainda na quinta, o Morgan Stanley elevou a 125 pontos-base o prognóstico de aperto monetário na próxima reunião do Copom. Para a instituição financeira, “125 pontos-base agora são os novos 100 pontos-base” –referindo-se à indicação do BC de não antecipar aumentos de forma agressiva.

Para o Morgan, contudo, agora ser mais duro na política monetária seria elevar os juros em 150 pontos-base –número precificado na curva de DI.

O banco diz que vai monitorar quatro itens principais.

Qualquer pista sobre a magnitude do ritmo da próxima reunião em dezembro estará no foco, assim como se os membros do Copom mencionarão explicitamente os riscos específicos do regime fiscal –decorrentes do possível enfraquecimento da principal âncora fiscal do Brasil–, em vez da menção mais moderada de riscos às contas públicas que normalmente incluem nas comunicações.

Além disso, a atenção se volta também para as projeções de inflação do BC para o próximo ano com novas premissas de câmbio, juros e preços de energia, assim como para a deterioração de expectativas de inflação e indicadores centrais desde a reunião anterior.

A magnitude de aumento de 125 pontos-base para a próxima semana agora é prevista também pelo Credit Suisse, que calcula ainda outra elevação de 125 pontos-base em dezembro e mais duas altas adicionais no começo de 2022 –a primeira de 100 pontos-base e a segunda de 75 pontos-base, levando a Selic a 10,5% ao fim do ano que vem.

“Embora a decisão final (sobre o teto de gastos) ainda esteja para ser vista, em nossa opinião ambas as soluções (para o impasse) representam uma mudança no quadro fiscal do Brasil e uma piora dos fundamentos e vão exigir ação mais assertiva da política monetária para ancorar expectativas de inflação e reduzir o atual patamar de inflação para o centro da meta”, disse o Credit Suisse em nota.

Na véspera, outro grande banco estrangeiro, o JPMorgan, havia aumentado a 125 pontos-base sua projeção de adição da taxa Selic pelo Banco Central nas próximas duas reuniões do Copom, com o BC forçado a acelerar o ritmo de aperto monetário devido à deterioração do balanço de riscos para os preços.

A onda de ajustes foi ditada pela percepção de piora do cenário para as contas públicas –que impacta inflação– após o governo pressionar por uma aumento do Auxílio Brasil (novo Bolsa Família) em parte bancado com recursos fora do teto de gastos.

A perspectiva de fim da âncora fiscal provocou uma liquidação nos mercados brasileiros na quinta, que se estendia para esta sessão, com nova alta do dólar e dos juros futuros e queda da bolsa.

(Com Reuters)

 

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