Na véspera da entrada em vigor da segunda fase do open banking, infraestrutura de TI que permite troca de dados simples e rápida entre instituições financeiras, o Banco Central adiou o início em quase um mês: em vez desta quinta-feira (dia 15), os sistemas deverão estar prontos em 13 de agosto.

A razão do adiamento é simples: a maior parte dos bancos está atrasada na implementação da infraestrutura, que nesta etapa permitirá o acesso a dados, como histórico de crédito e movimentação bancária, dos clientes que assim autorizarem.

“Eu diria que 80% dos players estão atrasados nos prazos. A maior parte dos bancos priorizou soluções internas, e agora buscam complementar algumas etapas contratando terceiros”, explica Juan Ferrés, fundador da consultoria Teros, que desenvolve estratégia de dados e soluções para open banking.

A preocupação sobre os inúmeros desafios da implementação do open banking não aparece somente nos bancos. Muitas financeiras do varejo, por exemplo, que possuem todo o interesse em ter acesso a dados que revelem um perfil mais claro do comportamento financeiro dos brasileiros, só devem entrar em 2022 na fase de compartilhamento de informações.

“É consenso, todo mundo quer abraçar o open banking. Todos querem participar. O problema é menos estratégico e mais de prazo. Os prazos são muito agressivos”, aponta Alexandre Borges, gerente de sistema de TI da Midway (financeira do Grupo Guararapes, detentor da Riachuelo).

Para as financeiras, a adesão ainda é opcional. A entrada na segunda fase daqui um mês é obrigatória somente para os maiores bancos do país, ou seja, instituições de porte acima do equivalente a 1% do PIB (Produto Interno Bruto).

Tempestade regulatória perfeita

Além da implementação dessa nova infraestrutura ser bastante complexa, o fato é que há uma espécie de tempestade regulatória perfeita quando o assunto é tecnologia no setor financeiro.

Do ano passado para cá, houve mudanças de regras para instituições de pagamentos, implementação e uma série de aprimoramentos no Pix (novo sistema de pagamentos instantâneos do BC), novas regras para registro de recebíveis de cartão e o open banking, cuja primeira fase entrou em operação em 1º de fevereiro deste ano.

“Muitas instituições estão se dando conta de que não têm braço para fazer tudo”, explica o fundador da Teros. “As mesmas instituições estão tendo que cumprir quatro frentes regulatórias ao mesmo tempo. Recentemente, o BC ainda anunciou a moeda digital internacional”.

Na avaliação de Ferrés, as instituições financeiras não estão enfrentando problemas com a fase de implementação das APIs (Application Programming Interface, em inglês, ou Interface de Programação de Aplicativos), que é a especificação de como o open banking deve funcionar.

Entretanto, esse módulo representa somente 20% do que precisa ser feito, segundo ele, já que transformar a infraestrutura em uma funcionalidade que permita o desenvolvimento de produtos um pouco mais sofisticados é bem mais difícil. Metade das instituições financeiras deram prioridade para soluções caseiras na implementação do open banking, mas a tarefa se mostrou muito mais complexa do que o esperado.

“Tem muita gente entrando com uma solução muito simplificada, mas qualquer coisinha a mais que precisa fazer, já não é possível”, aponta Ellen Muneratti, CEO de open banking da Teros. “A intensidade dos requisitos regulatórios está fazendo parte das empresas revisitarem a posição de aderirem”.

Na avaliação de Borges, da Midway, há um dilema dos participantes do mercado entre demorar para entrar no open banking, que promete ser uma revolução em diversos sentidos, e dar conta de implementar todas as inovações tecnológicas.

“Estaremos com o sistema já pronto ainda em 2021. Mas entraremos possivelmente em 2022”, explica. “Estamos em uma fase de grandes entregas. Há um mês lançamos nossa conta digital, estamos lançando o Pix da Midway. Mas ficar esperando demais dá a chance do concorrente ir na frente e fazer. Temos convicção de que a fase de compartilhamento de dados será abraçada muito rapidamente pelo mercado”.

Busca por solução de fora e gargalo de mão de obra

De acordo com a Teros, o interesse de instituições financeiras em buscar soluções de terceiros aumentou de forma considerável. “No ano passado, tínhamos cinco, no máximo 7 conversas em andamento. Agora temos de 70 a 100 interessados. O interesse se multiplicou por pelo menos 10”, afirma Ferrés.

Existe uma outra questão importante nisso tudo, que é o gargalo de mão de obra especializada. “Existe um gargalo enorme de mão de obra, de desenvolvedores, etc. Outro gargalo é de produtos, regulatório, de custos”, explica Muneratti.

 

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