A paralisação de atividades de serviços atingiu também o ensino superior. Faculdades e universidades tiveram que fechar as portas para os alunos de graduação, mas, diferentemente de segmentos que agora lutam pela sobrevivência, algumas instituições conseguiram não só evitar demissões como mantiveram as atividades.

A explicação passa pela decisão do Ministério da Educação (o MEC) de autorizar em caráter excepcional e provisório, por causa da pandemia do coronavírus, que aulas presenciais fossem substituídas por conteúdo à distância. Com esse aval, instituições que já faziam uso recorrente de plataformas virtuais para transmitir conteúdo aos alunos dentro dos limites então vigentes puderam ampliar a participação desse modelo de ensino.

É o caso da Kroton, a divisão de ensino superior da Cogna, o maior grupo de educação no país — são 822 mil alunos em cursos presenciais e à distância de graduação.

A Kroton suspendeu as aulas presenciais para cerca de 330 mil estudantes em todo o país — são quase 176 unidades próprias — há duas semanas, no último dia 16. Mas decidiu manter as atividades.

“Estamos a todo vapor, professores, tutores, diretores. A diferença é que todo mundo trabalha agora de maneira remota, de casa”, disse ao 6 Minutos Marcos Lemos, vice-presidente acadêmico da Kroton.

A seguir, o executivo conta como o grupo se preparou para as mudanças:

Como fazer os alunos se adaptarem ao novo formato? Lemos diz que a transição foi planejada em cima do modelo acadêmico da Kroton. “Os alunos já estavam familiarizados com o ambiente digital. Eles já tinham que se preparar para as aulas, fazer atividades de fixação depois das aulas e podiam interagir e tirar dúvidas com os professores em uma das duas plataformas que utilizamos via streaming”, afirma.

E as aulas? Como foi feita a adaptação do conteúdo? A Kroton já havia transferido 70% do conteúdo das disciplinas presenciais para as duas plataformas online que utiliza. Com a iminência da quarentena a partir da primeira semana de março, professores passaram a gravar e a disponibilizar o material restante.

“Também preparamos os professores para dar aulas de maneira remota e para fazer as postagens do que seria o material de aula dentro da própria plataforma, em que as turmas já estavam criadas. Usamos vídeo-aulas tanto síncronas (simultâneas para professor e alunos) como assíncronas”, afirma Lemos.

Mas se o aluno se matriculou para uma gradução presencial, ele não sai prejudicado com a aula à distância? Lemos diz que não se trata de uma migração e diz que haverá retorno das aulas presenciais tão logo a situação seja normalizada. O próprio MEC esclareceu que essa autorização é provisória.

E como manter o engajamento do aluno? A Kroton aposta em um sistema de avaliação continuada por meio de uma plataforma digital, a LMS (sigla em inglês para Sistema de Gestão de Aprendizagem).

É um sistema de avaliação em que os alunos, ao longo do semestre em cada uma das disciplinas, soma pontos a partir das atividades que realiza dentro da plataforma. “Com esses pontos, a gente consegue mensurar e acompanhar o engajamento do aluno ao longo do semestre. Temos metas para a operação em cada curso: até determinada semana, um percentual ‘x’de alunos precisa ter atingido uma certa pontuação”, afirma Lemos.

Segundo ele, os números mais recentes mostram que os alunos estão se mantendo participativos apesar das incertezas com a pandemia: o indicador de engajamento está 13% acima em relação ao mesmo período de 2019.

“Estamos em linha em engajamento esperado, o que para nós é um alento. É uma preocupação saber se o aluno presencial que deixa de ir à unidade não vai se desligar. Não é o que está acontecendo, pelo contrário”, diz o executivo.

Mas e as disciplinas práticas? Essas aulas, que são muito comuns em cursos na área de saúde (como medicina) e em disciplinas de engenharia e que acontecem em laboratórios, não serão conduzidas dentro do ambiente online.

“Vamos retomar essas aulas e reprogramá-las em um calendário de reposição assim que tivermos o retorno presencial dos alunos para as unidades”, afirma Lemos.

E se a quarentena demorar mais tempo? Lemos diz que, para os conteúdos que são essencialmente teóricos, as aulas podem ser conduzidas até o fim do semestre por meio das plataformas digitais. Mas ele faz uma ressalva em relação às provas.

“A portaria do MEC permite que até atividades de avaliação sejam conduzidas de maneira remota. Mas, no momento, não achamos que isso será necessário”, afirma o vice-presidente da Cogna. “Colocamos as avaliações para o final do semestre. Se for necessário, podemos entrar um pouco no mês de julho.”

Vai haver desconto nas mensalidades com as aulas à distância? Lemos diz que essa questão não está prevista. “Os nossos professores estão trabalhando com a mesma dedicação. Ninguém entrou em férias. As aulas práticas terão que ser repostas. As nossas unidades que ficam em espaços físicos de terceiros continuam a ter que pagar aluguel com valor integral. Os nossos custos operacionais continuam os mesmos”, diz.

Como ficaram os cursos de EAD (educação à distância)? Com 492 mil alunos na modalidade EAD, a Kroton manteve as aulas normalmente. Segundo Lemos, a modalidade sofreu impacto reduzido. “Alguns alunos tiveram que remarcar atividades de avaliação porque foram afetados de alguma forma pela doença”, exemplifica.

Qual a visão sobre o ensino superior depois da crise? Lemos diz acreditar que haverá o que ele chama de quebra de paradigma. Segundo ele, a crise vai deixar mais evidente a necessidade de incorporação cada vez maior de elementos de tecnologia e interação ao dia a dia das atividades acadêmicas no modelo presencial.

“No Brasil, há ainda resistência ao ensino à distância dentro de alguns redutos, como as universidades públicas. Mas, sem a utilização da tecnologia do ensino à distância, não seria possível atingir o número de alunos que atingimos. Vai haver uma mudança de mentalidade do órgão regulador do governo e do aluno”, afirma.

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