A estrela dos fundos de renda fixa voltou a brilhar. Em um cenário de aumento das taxas de juros e fuga dos investidores da Bolsa, essas aplicações captaram R$ 39,7 bilhões em agosto até a última segunda-feira (dia 30), de acordo com dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais).

Nesse mesmo período, os fundos que aplicam em ações perderam R$ 422,1 milhões e os multimercados, que investem em renda fixa e variável, atraíram somente R$ 125 milhões.

“Esse aumento na taxa de juros está diretamente ligado com a maior predisposição do investidor de aplicar em renda fixa”, aponta Lucas Taxweiler, analista em investimentos da plataforma Magnetis. “A gente combina isso com a grande correção que aconteceu no mercado acionário nos últimos dois meses”.

O movimento acontece em meio à alta da taxa básica de juros, a Selic, hoje em 5,25% ao ano –para o final do ano, as expectativas do mercado já estão em 7,5%.

“Se o investidor acessar a plataforma do Tesouro Direto hoje, ele encontra título prefixado de dois dígitos, pagando mais de 10% ao ano. Isso faz os olhos do investidor brilharem”, diz Taxweiler.

Além disso, o Ibovespa já caiu 6% do início de julho para cá, o que vem desanimando muita gente.

“O mês de agosto não foi bom para a Bolsa, teve muita volatilidade com os juros aumentando, o que eleva o interesse em renda fixa”, afirma Jansen Costa, sócio-fundador da Fatorial Investimentos. “A Bolsa zerou os ganhos de rentabilidade no ano, e por isso a busca por algo que tenha rentabilidade positiva está acontecendo. Não só em produtos atrelados à renda fixa, mas também produtos internacionais”.

Menos exposição em renda variável

A edição de agosto de uma pesquisa feita pela XP com 293 assessores de investimento e agentes autônomos mostrou que houve uma queda de 16% dos clientes que pretendem aumentar sua exposição em renda variável, e um aumento de 38% entre os clientes que querem reduzir essa exposição.

“A sucessão de tentativas de quebra do teto de gastos com Bolsa Família e precatórios, a crise hídrica, o avanço ainda maior do Lula nas pesquisas e, por fim, a alta da taxa de juros locais fizeram o cotista mais avesso ao risco resgatar e buscar investimentos mais seguros”, avalia João Beck, economista e sócio da BRA.

Para ele, o cenário não deve melhorar para a renda variável devido à temperatura cada vez mais elevada da crise política e da chegada da variante Delta do coronavírus ao Brasil. “Ainda temos muitos problemas não resolvidos e um novo receio da variante delta chegando ao Brasil. Os ruídos eleitorais devem se acentuar e se estender também pro ano seguinte próximos das eleições.”

Cautela

Apesar de ser natural que o investidor olhe com atenção para a rentabilidade da renda fixa, o conselho, segundo Taxweiler, é ter cautela.

“A pergunta que o investidor deve se fazer é: será que os juros vão parar de subir? Será que o nosso fiscal, que é o principal fator que contribui para esse pico na curva de juros vai melhorar?”, alerta ele. “Em um período pré-eleitoral, é uma decisão bastante arriscada de se tomar. Ele pode comprar um título que hoje paga 10% ao ano, mas que amanhã pode estar pagando 11%, 12%. Investir nesse tipo de título só vai ser uma boa ideia se o investidor acreditar que os juros de fato vão se estabilizar.”

No mês passado, os únicos papéis que não tiveram rendimento negativo foram os do Tesouro Selic. E apenas um deles, com vencimento em 3 anos, entregou retorno superior ao da caderneta de poupança, que foi de 0,24% em agosto. O papel mais penalizado, o Tesouro IPCA+ para 2045, já contabiliza perda de 21,11% no ano.

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