É fato que a pandemia de coronavírus assustou muita gente que vinha migrando das aplicações conservadoras para ativos muito mais arriscados, como ações. Nas últimas semanas, entretanto, com a alta forte da bolsa, o retorno desse investidor para a renda variável foi rápido.

Bernardo Pascowitch, fundador do portal de busca de produtos financeiros Yubb, avalia que essa mudança de chave não foi necessariamente acompanhada por uma reflexão maior sobre os riscos envolvidos nesse mercado.

“As pessoas aparentemente não aprenderam, nesse curto período de tempo, o suficiente com a crise”, avalia. “Temos notado nas últimas semanas um retorno muito forte do otimismo das pessoas físicas, sem entender quais são impactos que existem no mercado, os riscos, as preocupações que as pessoas deveriam ter”.

Segundo ele, a crise evidenciou como o comportamento dos investidores pode ser distinto. De um lado, alguns se mantiveram firmes nos ativos mais arriscados, aproveitando a crise para comprar ações por preços mais baixos.

De outro lado, os mais conservadores buscaram refúgio na renda fixa, a despeito da taxa básica de juros, a Selic, estar no menor patamar da história. “Acho importante prezarmos pelo aumento da educação financeira no Brasil”, afirma.

Veja abaixo a entrevista completa concedida por Pascowitch ao 6 Minutos.

O estoque de CDBs [Certificado de Depósito Bancário, que é um título de dívida de bancos] está em nível recorde. Por que isso está acontecendo? Quando as bolsas passaram pela grande queda no final de fevereiro e início de março, havia um movimento muito forte de migração da renda fixa para a variável. Mas com a grande queda da bolsa, foram notados comportamentos distintos. De um lado, investidores aproveitando o momento de grande desvalorização para aproveitar alguns descontos nos preços de certos ativos.

Tudo caiu muito, e abriu-se espaço para comprar ações por valores muito mais baixos. Um grupo mais agressivo, com mais conhecimento, mais experiência em renda variável, foi às compras.

Mas outro grupo, majoritário na sociedade, é formado por pessoas que ficaram muito preocupadas com esse momento. Não apenas com a queda nos preços dos ativos, a queda da bolsa, mas também com medo de perder o emprego, reduzir sua renda.

Nesse cenário de grande preocupação, de crise econômica, de imprevisibilidade, essas pessoas fizeram um retorno à renda fixa, a investimentos mais seguros, mais previsíveis. Houve uma grande busca por investimentos como CDBs de liquidez diária, LCIs [Letras de Crédito Imobiliário] e LCAs [Letras de Crédito Agrícola].

De forma geral, como está a procura por produtos financeiros durante a pandemia? Estamos observando, isso desde os últimos anos, uma migração para a renda variável. Essa migração nem sempre é baseada em um entendimento completo do investidor do funcionamento da renda variável. Muitas vezes as pessoas querem investir porque viram algum influenciador ou um amigo comentando, mas sem entender de fato como o mercado funciona.

Em momentos de volatilidade maior, como o que atravessamos, essa pessoa tem um comportamento mais errático. Desde março, por conta de toda a crise, observamos um retorno à renda fixa, uma busca maior por investimentos conservadores.

Dentro de ações, a procura foi por ativos menos arriscados, principalmente por empresas pagadoras de dividendos, grandes empresas e menos small caps [empresas menores e que movimentam menos volume na bolsa].

E qual a tendência para o resto do ano? Com a normalização do nível de risco, acreditamos que vai haver um retorno a um cenário de diversificação maior de investimentos. Isso já tem acontecido: vimos a Bolsa bater os 100 mil pontos na semana passada.

A ressalva que fazemos é que as pessoas aparentemente não aprenderam, nesse curto período de tempo, o suficiente com a crise. Temos notado nas últimas semanas um retorno muito forte do otimismo das pessoas físicas, sem entender quais são impactos que existem no mercado, os riscos, as preocupações que as pessoas deveriam ter.

Acho importante prezarmos pelo aumento da educação financeira no Brasil.

Há sinais de que as pessoas estão guardando dinheiro, mesmo que de forma involuntária, por causa da quarentena. Muita gente também poupa com medo do cenário atual. Esses recursos podem se transformar em investimentos? Acredito que sim, mas não sei se efetivamente isso acontecerá.

Conhecendo o perfil do investidor brasileiro, eu arriscaria dizer que o mais provável é que esses recursos virem consumo, viagens. O que também é bom para reativar a economia.

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