Vegetais como o arroz e o feijão estão na base da culinária brasileira. Ainda assim, encontrar alimentos veganos ou vegetarianos continua sendo uma tarefa difícil para muita gente. Segundo Caroline Soares, do Instagram @logoeuveganapobre_, a principal causa desse problema é a falta de referências.

De onde parte esse diagnóstico? Caroline é estudante de nutrição e moradora de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. A influenciadora auxilia seus seguidores na transição para uma dieta com base em vegetais. Faz oito anos que ela excluiu a carne do cardápio (dieta ovolactovegetariana) e há quatro, não consome mais nada de origem animal (veganismo).

No início, a trajetória da Caroline também foi complicada. “Os veganos que eu via na internet eram todos brancos, de classe média alta. Eu sentia que não era possível. O triste é que essa continua sendo a visão de muita gente até hoje.”

Foi em grupos de Facebook que ela teve o primeiro contato com o movimento vegano de periferia. Aos poucos, foi descobrindo receitas mais acessíveis e entendendo que era possível manter uma dieta totalmente baseada em vegetais sem gastar tanto.

“As pessoas têm dificuldade de encontrar alimentos porque os industrializados são vendidos como se fossem uma necessidade para quem está em transição. O marketing dessas empresas tem um mega alcance e faz parecer que comprar um hambúrguer de R$ 23 é a única alternativa”, explica a influenciadora.

O que mostram as pesquisas sobre o assunto? Um estudo da MindMiners aponta que existe  uma demanda por praticidade que o mercado nacional ainda não é capaz de satisfazer. De acordo com o estudo, veganos e vegetarianos costumam cozinhar seu próprio alimento — 40% deles preparam suas refeições em casa em pelo menos cinco dias na semana. O maior grupo (29%) afirma cozinhar todos os dias.

Nessa empreitada, os principais desafios são:

Ficou mais difícil com a pandemia? A nutricionista Micaela Charlone (@comida.sem.regra) lembra que por mais que a alimentação vegana seja só a comida de todos os dias — arroz, feijão, frutas, verduras, lentilha, ervilha –, com a alta nos preços, esses alimentos também não estão muito acessíveis.

No entanto, Caroline Soares, sabe bem como fazer muito com pouco dinheiro. Ela recomenda aproveitar os fins de feira e dar preferência para os vegetais da estação, que costumam ser mais baratos. Além disso, pesquisar bastante sempre acaba ajudando. “Uma vez, fui até um daqueles lugares que vendem pizza de R$ 10 e perguntei o que tinha para mim. Na hora, o cara falou: ‘vou fazer uma pizza de mato para você por 5 conto’.”

Quais são os empecilhos na hora de cozinhar? De acordo com Micaela, alguns pratos sem carne podem exigir um tempo de preparo maior. “Se você vai fazer um hambúrguer de feijão fradinho, por exemplo, que é relativamente barato e não é difícil de fazer, ainda assim, exige um tempo. Por mais que a gente fale: ‘ah, as pessoas estão ficando mais em casa’, elas também estão trabalhando mais do que nunca. As pessoas que recebo em consultório estão exaustas”.

Nem todo mundo tem o privilégio de estar trabalhando em casa, ter tempo para ir no mercado e cozinhar. No entanto, é possível encontrar alternativas. “Dá sempre para buscar o pequeno produtor. Tem muita gente que ficou desempregada e começou a vender marmita na pandemia”, afirma Caroline.

Outra dica é aproveitar os dias de folga para cozinhar e congelar os alimentos. “As pessoas falam como se comendo carne você sentasse na mesa e a comida caísse do céu. Quem come carne também prepara arroz, feijão e salada. Qual é a diferença?”, ela acrescenta.

Como lidar com a falta de opções industrializadas? A solução passa pelas pequenas empresas que deveriam focar cada vez mais em facilitar a vida das pessoas, chegando a mais lugares e trazendo produtos menos processados. A nutricionista Micaela Charlone cita o exemplo do homus, um tipo de pasta feita de grão de bico, que tem um preparo relativamente trabalhoso. Segundo ela, esse é o tipo de alimento que não precisaria ser encarecido por um processo super complexo de fabricação.

Algumas alternativas desse tipo já estão disponíveis nos supermercados, mas acabam passando despercebidas por não trazerem o aviso de serem veganas no rótulo. “Eu olhava gôndola por gôndola para ver as opções que eu tinha. Acabei descobrindo uma massa de pastel sem nada de origem animal. Entrei em contato com o fabricante e os caras são da Penha, é uma empresa familiar que vende em grande quantidade para estabelecimentos. Eu pago R$ 2 por um quilo de massa”, diz Caroline.

E com as recaídas? A primeira dica, segundo Micaela, é se cobrar o mínimo possível. Não há necessidade de começar já planejando várias refeições hiper nutritivas e dando conta de tudo.

A partir disso, a orientação é tentar achar outros favoritos e não substitutos. De acordo com a nutricionista, alguém que adore comer lasanha quatro-queijos, provavelmente não vai conseguir encontrar uma versão vegana que supra essa necessidade logo de cara. A alternativa é encontrar outros pratos que tragam o mesmo nível de satisfação.

Para isso, é preciso mais uma vez buscar outras referências, inclusive culturais. “A culinária brasileira mais clássica ainda tem a ideia muito forte da carne como o centro. Existem várias culturas pelo mundo que têm estruturas menos focadas na proteína animal”, afirma.

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