Fim de ano é época de retrospectivas – e, no mundo dos investimentos, não é diferente. Este é o momento em que aparecem aqueles rankings com os “melhores fundos de investimentos de 2021”, listados em função dos retornos, ou seja, da rentabilidade que cada um conseguiu entregar aos cotistas. Os melhores fundos de ações, os melhores multimercado, e por aí vai.

Se você é uma daquelas pessoas que aproveitam o fim de ciclo para fazer planos e começar o próximo ano atacando aquilo que precisa ser melhorado, pode ser que conclua que está na hora de rever o portfólio e dar uma renovada em seus fundos de investimentos. E nada melhor que um desses rankings para mostrar quais são os melhores fundos para investir, não é mesmo?

Mas será que encher o carrinho com o “top 5” ou o “top 10” de 2021 é a melhor maneira de garantir bons resultados em 2022? Talvez não seja tão simples assim.

“Essa é a técnica do retrovisor: olhar para trás esperando que aquilo vai continuar. Mas 12 meses são um prazo muito curto, especialmente em um cenário de grande estresse como 2021, em que tudo balançou muito: as Bolsas, os juros, o câmbio, a inflação”, afirma Pedro Albuquerque, analista de portfólios e advisory da Inter Invest. “Se, a cada ano, o investidor ficar renovando a carteira, ele não vai ter bons resultados no longo prazo. Os grandes fundos têm teses de investimentos que muitas vezes levam anos para dar certo.”

Mas, se o fundo foi bem, isso não quer dizer que o gestor fez uma boa leitura do cenário e, portanto, ele é bom? “Nem sempre! Em 2020, por exemplo, todos os fundos que tinham correlação com o dólar, como os cambiais e os de BDRs, tiveram um bom desempenho, independentemente da capacidade do gestor”, recorda Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV-EAESP. “Mas se um fundo apresentou um desempenho consistente ao longo do tempo, em comparação com outros da mesma categoria, aí podemos dizer que houve habilidade do gestor, ou em selecionar ativos melhores, ou em comprar e vender os ativos na hora certa.”

Albuquerque pensa parecido e diz que, para se ter certeza de que a leitura de um gestor é boa, ele precisa mostrar resultado por anos seguidos, com consistência. “Às vezes, o fundo dá sorte, do mesmo jeito que você pode comprar uma ação e ela ter uma alta de 50%. Com gestoras acontece a mesma coisa, uma gestora pode ganhar dinheiro por vários motivos”, afirma.

Ele lembra que a sorte, um dia, vai embora. “Muita gente dá sorte em um ano, fica no topo da lista e depois tem um ano horrível, então acaba ficando no zero a zero, na média. Já o gestor que não tem tanta sorte, mas está sempre fazendo um trabalho bem feito, vai ter um resultado bom no longo prazo.”

Certo, então um histórico de bons acertos é importante e um ano seja uma janela curta demais para analisar a consistência de um fundo. Então o certo seria considerar uma janela de tempo de qual tamanho? “Se, em vez de considerar apenas o último ano, o investidor olhar para os últimos 3, 5, 10 anos e enxergar bons resultados, aí sim poderá dizer que eles foram reflexo de uma gestão bem feita. Três anos já é uma janela boa para começar”, responde o analista da Inter Invest.

Já Claudia diz que janelas mais longas são essenciais para os fundos de previdência, mas pondera que, para os demais, isso é relativo. “Esses rankings vão escolher uma janela de tempo que não necessariamente será a mesma do investidor. Não é um retrato fiel olhar um histórico para 5 ou 10 anos, se a pessoa está há muito menos tempo dentro daquele fundo”, afirma. “Mas a indústria de fundos é muito volátil, fundos nascem e morrem o tempo todo. Por isso, um fundo que já está na praça há muito tempo e vem apresentando bons resultados é algo positivo.”

Além desses critérios quantitativos, o que mais é importante em um fundo? “Há diversas medidas qualitativas que importam: a formação dos gestores, a qualidade e capacidade técnica do time de gestão, o tamanho do fundo, o patrimônio total gerido pela casa”, enumera Claudia. “A FGV publica um anuário da indústria de fundos com as informações das maiores assets, que representam 90% do patrimônio gerido pela indústria. Esses dados capturam bem essa vertente mais qualitativa.”

Para Albuquerque, um dos fatores mais importantes é o controle de risco. “Vários fundos mais antigos entregam bons retornos não porque subiram horrores, mas porque caíram menos quando o mercado caiu. Gostamos de gestoras que têm uma equipe de risco separada para acompanhar as posições”, conta.

Também chamam a atenção do analista equipes antigas, que trabalham juntas há mais tempo. Além de maior sinergia entre os membros, isso significa experiência acumulada ao longo de várias crises, o que dá bagagem e repertório aos profissionais.

“Outro ponto interessante é a partnership de algumas gestoras, em que os analistas são sócios da casa e precisam aplicar seu próprio dinheiro dentro dela. Isso faz com que esses profissionais se engajem e cuidem do fundo com muito mais carinho que alguém que apenas presta serviço para aquela empresa”, justifica Albuquerque.

Boa parte das informações destacadas pelos dois especialistas estão ao alcance do investidor, nos sites das gestoras e nas cartas que elas publicam periodicamente. Esses materiais dão uma boa amostra de como uma casa funciona, como os gestores pensam e qual a atenção dada aos riscos.

Qual é a melhor forma de compor uma carteira de fundos? “É verdade que, em 2022, teremos uma preocupação maior com a volatilidade, por conta das eleições presidenciais. Mas, para qualquer momento macroeconômico, a ideia de uma carteira diversificada com ativos com baixa correlação é sempre desejável, em qualquer tipo de montagem de portfólio. É uma estratégia saudável e que reduz o risco a que se está exposto”, define Claudia.

Albuquerque frisa que é importante compor uma carteira com fundos que sejam efetivamente diversificados, ou seja, descorrelacionados uns com os outros. “Não adianta ter cinco fundos de ações e todos serem parecidos. Ter estratégias diferentes aumenta a segurança em momentos de queda do mercado. O mercado tem fundos com estratégias de crescimento, de dividendos, de juros, de inflação, de exterior… dá para ter uma carteira bem variada”, ensina.

Moral da história: vale ou não vale a pena olhar para os rankings de fundos? “Para conseguir dizer quem foi melhor, o ranking olhou o passado. E não existe nenhuma garantia de que o futuro vai acontecer como o passado foi. Nada assegura que o fundo que liderou o ranking vai repetir essa proeza no futuro”, ressalva Claudia, citando uma máxima conhecida por muitos investidores. “Gestores que provaram que são capazes de entregar bons resultados talvez tenham um crédito maior com relação a suas habilidades do que outros gestores. Mas, se o futuro fosse totalmente previsível, nossos problemas estariam resolvidos.”

Albuquerque, por outro lado, considera que um ranking bem feito pode ser uma grande ferramenta para o investidor. “Se somarmos os fundos do Inter, da XP, do BTG, do C6 e assim por diante, são mais de 20 mil fundos. Como escolher cinco? Um ranking é um filtro e facilita a tomada de decisão. Mas cada investidor vai ler essa lista de uma maneira, de acordo com suas preferências, seu perfil de risco e o tipo de estratégia em que está interessado.”

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