Outubro foi mais um mês em que os investidores do Tesouro Direto não tiveram trégua. A maioria dos títulos públicos fecharam no vermelho, mas alguns conseguiram manter a cabeça acima da linha d’água — é o caso, por exemplo, do Tesouro Selic, que teve em setembro o primeiro retorno negativo desde 2002. Dos 28 títulos públicos negociados no mercado, apenas 7 ficaram no positivo, e apenas 2 conseguiram bater a inflação estimada para o mês.

As expectativas para os juros continuam sendo o principal pêndulo para o Tesouro Direto. Com o repique da inflação e a aparente aposta do Banco Central de que não será necessário aumentar a Selic para conter os preços, o cenário de juros de médio prazo ficou nebuloso.

“Se o Banco Central estiver certo, estamos diante de uma oportunidade para o investidor. Mas se a autoridade monetária estiver errada, o mercado vai ficar muito esquisito nos próximos meses”, prevê Guilherme Artmann, chefe de renda fixa da corretora Easynvest.

Veja o rendimento do Tesouro Direto em outubro:

TítulosVencimentoOutubroNo ano
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais01/04/20213,47%20,3%
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais01/01/20312,4%17,36%
Tesouro Prefixado01/01/20210,19%4,17%
Tesouro Selic01/03/20210,16%2,41%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/20210,13%4,1%
Tesouro Selic01/03/20230,1%2,11%
Tesouro Selic01/03/20250,03%1,66%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2030-0,03%-
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2027-0,04%2,56%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2024-0,12%4,64%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2040-0,12%-
Tesouro Prefixado01/01/2022-0,21%6,36%
Tesouro IPCA+15/08/2024-0,22%4,61%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2026-0,22%3,26%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2045-0,26%-7,09%
Tesouro Prefixado01/01/2026-0,27%-
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2029-0,32%1,2%
Tesouro IPCA+15/08/2026-0,35%-
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2031-0,43%-
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2025-0,46%4,47%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2035-0,48%-2,58%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2055-0,54%-
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2050-0,59%-8,62%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2023-0,62%5,8%
Tesouro Prefixado01/01/2025-0,65%2,8%
Tesouro Prefixado01/01/2023-0,68%5,9%
Tesouro IPCA+15/05/2035-1,01%-7,42%
Tesouro IPCA+15/05/2045-2,51%-15,25%

Tesouro Selic

Depois da primeira queda em 18 anos, os títulos preferidos dos investidores conservadores voltaram a ficar no azul. Mas não espere nenhum desempenho surpreendente. O Tesouro Selic com vencimento em 2025, que teve queda de 0,46% em setembro, fechou outubro com ganho de 0,03% — quase nada.

Apesar de não ser suficiente para recuperar o que foi perdido no mês passado, a estabilidade de outubro dá tranquilidade ao investidor conservador, que ficou de cabelo em pé só de ouvir falar em retorno negativo.

“O investidor que é mais cauteloso sofre quando acontece algum solavanco. Ele acreditava que as LFTs (como são chamados os Tesouro Selic) eram um porto seguro, mas depois do que aconteceu esse investidor está se sentindo perdido. Prova disso é a saída em massa dos fundos DI”, aponta Artmann, da Easynvest.

Tesouro prefixado

Os títulos prefixados, que até pouco tempo eram os líderes em rentabilidade, também foram contaminados pelo cenário de incerteza. É que como não se sabe para onde vai o juro no curto prazo, o investidor fica sem saber se o retorno contratado vai ser atrativo.

É um cenário completamente diferente de meses atrás, quando o BC estava sinalizando a queda de juros e quando a inflação estava comportada. “Vimos toda a discussão de teto de gastos afetando o mercado de juros, e as curvas continuam subindo. O mercado já está precificando um aumento de juros já na próxima reunião do Copom, e não há expectativa de corte na Selic pelo menos até o final do governo Bolsonaro”, explica o chefe de renda fixa da Easynvest.

Apesar disso, a maioria dos títulos prefixados acumula um desempenho positivo no ano, o que ainda indica possibilidade de ganho para quem embarcou na janela certa.

Títulos de longo prazo

Quem já estava na pior e continua assim são os títulos de longo prazo. A incerteza quanto ao fiscal brasileiro é só mais um componente do cenário econômico caótico à frente. Os títulos do Tesouro Direto com vencimento longo estão sofrendo desde o início da pandemia do coronavírus, justamente porque desde então ficou difícil estimar qualquer coisa. Se não dá para saber quando a economia vai se recuperar, que dirá calcular o cenário inflacionário das próximas décadas.

Títulos atrelados ao IGP-M

Feliz da vida estão os investidores que tem na carteira algum título do Tesouro atrelado ao IGP-M. Com retorno de até 20% no ano, esses títulos são os mais atrativos entre os 28 negociados pelo Tesouro. Mas antes de encher os olhos, é importante que o investidor saiba que esses títulos são raríssimos no mercado.

“São títulos que deixaram de ser emitidos pelo Tesouro há um tempo, e os que estão no mercado estão nas mãos de bancos e gestoras. São pouquíssimos os investidores que têm algum título atrelado ao IGP-M na carteira, e obviamente quem tem não vende de jeito nenhum”, conta Artmann.

A razão para a caça ao tesouro é simples: o IGP-M, índice de referência para o rendimento desses títulos, deve fechar o ano próximo dos 20%.

Por que o rendimento do Tesouro Direto varia?

Os títulos do Tesouro têm datas de vencimento específicas, mas o investidor pode decidir vendê-los antes desse prazo. Se fizer isso, ele não estará resgatando o título e sim vendendo-o no mercado secundário. O preço do título é estabelecido pela chamada marcação a mercado, e é influenciado por dois fatores: a oferta e demanda pelo título e as condições da economia do país (juros e inflação, principalmente).

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).