Quem acreditava que só a renda variável poderia derreter durante a crise do coronavírus pode ter levado um susto no mês passado. Os títulos do Tesouro Direto com vencimento mais longo fecharam o mês de abril com desvalorização de até 26%. Dos 29 títulos disponíveis para a comercialização, apenas sete tiveram desempenho positivo, e apenas cinco ganharam do CDI, que foi de 0,28% no mês.

Veja abaixo:

TítulosVencimentoÚlt. 30 dias
Tesouro IPCA+2045-26,29%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2055-16,63%
Tesouro IPCA+2035-16,59%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2050-15,83%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2045-14,18%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2040-12,56%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2035-11,26%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2030-8,04%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais2031-7,17%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais2029-6,02%
Tesouro IPCA+2026-6,16%
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais2031-6,28%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2026-5,24%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais2027-4,6%
Tesouro Prefixado2026-4,78%
Tesouro IPCA+2024-3,52%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2024-3,21%
Tesouro Prefixado2025-3,04%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais2025-2,56%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2020-1,16%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais2023-0,29%
Tesouro Prefixado2023-0,17%
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais20210,03%
Tesouro Selic20250,26%
Tesouro Selic20230,33%
Tesouro Selic20210,34%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20210,87%
Tesouro Prefixado20210,94%
Tesouro Prefixado20221,11%

O que explica esse desempenho? Desde o início do ano, os títulos com vencimento mais longo estão sendo penalizados. Essa variação negativa nada mais é que um desconto que esses títulos sofrem ao serem negociados no mercado secundário.

Vamos explicar: os títulos do Tesouro têm datas de vencimento específicas, mas o investidor pode decidir vendê-los antes desse prazo. Se fizer isso, ele não estará resgatando o título e sim vendendo-o no mercado secundário. O preço do título é estabelecido pela chamada marcação a mercado, e é influenciado por dois fatores: a oferta e demanda pelo título e as condições da economia do país.

Com a piora das perspectivas econômicas, os títulos de longo prazo perdem a atratividade. Isso porque as previsões mais longas ficam mais incertas — não se sabe como o PIB, a inflação ou outros indicadores andarão. É mais difícil acertar o preço justo por esses títulos, então quem decide vendê-los acaba pagando o preço da imprevisibilidade.

Já os títulos de curto prazo, que estão operando no azul, são beneficiados por dois fatores. O primeiro é a data de vencimento mais próxima — se perceber que as condições não estão boas e decidir segurar o título até o vencimento, o investidor receberá o retorno contratado. O segundo é a previsibilidade: é mais fácil calcular o que acontecerá em um horizonte de até cinco anos.

Por que os prefixados vão bem? Porque o investidor já sabe quanto vai receber por eles, desde o princípio. Como o retorno é contratado no momento da emissão, não há nenhum obstáculo ou imprevisto que vá aumentar ou diminuir essa rentabilidade. É por isso que a busca por esses títulos aumentou, elevando também o preço de negociação no mercado secundário.

Por que os títulos de inflação estão indo mal? O mercado prevê que a pandemia do coronavírus será como um freio na economia, esfriando o reajuste de preços. Com isso, a inflação em 2020 deve ficar abaixo de 2% — algo que não acontece desde 1998. Essa perspectiva também reflete no retorno desses títulos e, consequentemente, na sua atratividade.

Então é hora de desembarcar do Tesouro Direto? Não necessariamente. É importante lembrar que os rendimentos (positivos ou negativos) da tabela só valem para quem decidiu vender ou comprar um título. Quem tem algum investimento no Tesouro e não se desfez dele continua contando com o retorno contratado.

E vale a pena aproveitar o deságio para investir nesses títulos? Depende do seu objetivo. Os títulos de longo prazo estão sendo negociados com descontos significativos e podem ser um bom negócio para o investidor que pode e pretende manter esses papéis na carteira por mais alguns anos. Se esse não é o seu caso, comprar um título com vencimento longo é má ideia.

Os títulos prefixados estão com bom desempenho desde o início do ano, mas vale lembrar que em momentos de economia mais estável eles costumam andar de lado. Por isso, o investidor até pode aproveitar-se do momento para colher algum retorno de curto prazo, ou pode decidir manter esses títulos até o vencimento (em 2021 ou 2022).

De qualquer maneira, vale lembrar que apenas cinco títulos tiveram rendimento superior ao do CDI em abril, o que torna outras aplicações de renda fixa tão atrativas quanto o Tesouro Direto.

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