Os títulos do Tesouro Direto não escaparam dos efeitos da pandemia e sofreram uma queda vertiginosa com a chegada da crise causada pelo coronavírus. O pior parecia ter passado: esses ativos até estavam ensaiando uma recuperação desde maio, diante das perspectivas de uma retomada econômica futura, mas tudo voltou a mudar em agosto.

Dos 28 títulos de dívida pública negociados no mercado, 22 tiveram desempenho negativo no mês, e 5 ficaram abaixo do desempenho da inflação — somente um, portanto, se salvou. E o fato de os títulos terem voltado a fechar no vermelho tem tudo a ver com a piora das condições fiscais do governo.

As discussões sobre a expansão das despesas federais, o possível descumprimento do teto de gastos e a queda de braço entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia Paulo Guedes teve repercussões na curva de juros futuros. Em outras palavras: todos esses fatos sinalizam para uma piora das condições de endividamento da União.

“O investidor acaba cobrando um prêmio maior nos títulos do Tesouro, principalmente nos de prazos mais longos, dada a incerteza sobre a capacidade financeira do país”, diz Fábio Macedo, diretor comercial da corretora Easynvest. Ele explica que o pessimismo que contaminou a bolsa de valores em agosto chegou, também, aos títulos públicos, ainda que o cenário externo seja favorável.

Veja abaixo o desempenho dos títulos do Tesouro Direto em agosto:

TítulosVencimentoRendimento em agosto
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais01/04/20212,95%
Tesouro Selic01/03/20210,16%
Tesouro Selic01/03/20230,14%
Tesouro Selic01/03/20250,12%
Tesouro Prefixado01/01/20210,09%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/20210,09%
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais01/01/2031-0,02%
Tesouro Prefixado01/01/2022-0,25%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2024-0,65%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2023-0,78%
Tesouro IPCA+15/08/2024-0,84%
Tesouro Prefixado01/01/2023-0,90%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2026-1,90%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2025-2,26%
Tesouro IPCA+15/08/2026-2,51%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2030-2,64%
Tesouro Prefixado01/01/2025-2,72%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2027-2,96%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2029-3,34%
Tesouro Prefixado01/01/2026-3,52%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2035-3,69%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais01/01/2031-3,77%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2040-4,29%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2045-5,22%
Tesouro IPCA+15/05/2035-5,53%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/08/2050-5,65%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais15/05/2055-6,52%
Tesouro IPCA+15/05/2045-9,45%

Títulos atrelados ao IGP-M em alta

Chama a atenção o desempenho solitário e positivo do título com vencimento em 2021, cujo retorno é calculado pelo IGP-M. Esse índice inflacionário mede principalmente os custos para os produtores, e tem tido uma alta bem maior que o IPCA, indicador que acompanha os preços para os consumidores. Em razão da escalada do IGP-M, que acumula alta de 13% desde o início do ano, a busca dos investidores aumentou.

Porém, ainda que a rentabilidade potencial esteja em alta, Macedo explica que esses títulos não estão disponíveis para os investidores comuns. “É comum que o Tesouro deixe de negociar títulos com um vencimento inferior a 2 anos. A partir daí, só é possível adquiri-los no mercado secundário”, explica ele.

Assim sendo, os títulos rentabilizados pelo IGP-M estão principalmente nas carteiras de investidores institucionais e só costumam ser distribuídos em fundos, e não diretamente para o investidor do varejo. Então a alta de mais de 10% no ano, registrada por alguns desses títulos, infelizmente não beneficiou muita gente.

A decisão de deixar de lado os títulos curtos é parte da estratégia de financiamento do governo, mas também uma forma de estimular o investidor a custodiar as aplicações por mais de 2 anos, quando a alíquota de Imposto de Renda para o resgate atinge o piso de 15%.

Pré-fixados

Esses títulos do Tesouro Direto escaparam da primeira onda de pessimismo, ainda lá em abril, pois prometiam taxas previamente combinadas. Essa condição tornou-se atrativa em um cenário de queda rápida da taxa de juros, o que derrubou o rendimento dos títulos atrelados à Selic. No entanto, nem mesmo esses “queridinhos” escaparam do mês de mau agouro. No ano, eles ainda acumulam rendimentos atrativos — alguns superando a casa dos 7%.

Veja abaixo o rendimento dos títulos do Tesouro Direto desde janeiro:

TítulosVencimentoNo ano
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais203111,74%
Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais202111,05%
Tesouro Prefixado20237,44%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20237,03%
Tesouro Prefixado20226,50%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20256,21%
Tesouro Prefixado20255,79%
Tesouro IPCA+20245,49%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20245,13%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20274,61%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20264,23%
Tesouro Prefixado20213,80%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20213,73%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20293,51%
Tesouro Selic20212,10%
Tesouro Selic20232,05%
Tesouro Selic20252,02%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20350,06%
Tesouro IPCA+2035-3,14%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2045-4,66%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais2050-5,8%
Tesouro IPCA+2045-7,33%

No entanto, é possível que essa rentabilidade encolha nos próximos meses, diante do cenário de incerteza atual.

“Alguns investidores podem resgatar esses títulos para realizar algum lucro”, explica Macedo, da Easynvest. Ele explica que a recomendação para os clientes da corretora, que é a número um em negociação de Tesouro Direto no Brasil, tem sido a de manter os títulos na carteira até o vencimento, para evitar qualquer solavanco causado pelo momento de instabilidade.

“A economia está sofrendo para crescer, apesar de os economistas estarem reajustando para cima as expectativas do PIB. Tem bastante água para passar por baixo da ponte, mas podemos, sim, ver alguma piora de cenário”, diz o especialista.

É hora de investir no Tesouro?

Quem não tem posições nesse tipo de aplicação está avaliando se é hora de entrar no mercado, especialmente diante dos descontos dados nos títulos mais longos. Para o diretor comercial da Easynvest, estamos em uma janela positiva para quem planeja aplicar nesses títulos pensando no longo prazo.

“Temos títulos longos pagando o IPCA mais um prêmio de 4% ao ano. Isso tem a ver com a Selic mais baixa, mas nem mesmo quando os juros estavam altos o investidor teve um ganho real tão alto”, lembra Macedo.

Mas o conselho vale principalmente para quem quer investir por longos anos, sem se preocupar com as instabilidades do mercado secundário. Quem busca ganhos de curto prazo pode olhar para os títulos de vencimento em um ou dois anos, mas deve estar ciente de que as flutuações são capazes de gerar ganhos e perdas dignas de renda variável.

Mas por que os títulos flutuam diariamente? Os títulos do Tesouro têm datas de vencimento específicas, mas o investidor pode decidir vendê-los antes desse prazo. Se fizer isso, ele não estará resgatando o título e sim vendendo-o no mercado secundário. O preço do título é estabelecido pela chamada marcação a mercado, e é influenciado por dois fatores: a oferta e demanda pelo título e as condições da economia do país (juros e inflação, principalmente).

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