Já está ficando até repetitivo: cada mês que se encerra é mais uma batalha perdida para os títulos do Tesouro Direto. Apenas cinco papéis tiveram rendimento positivo: os quatro vencimentos do Tesouro Selic e o Prefixado mais curto, para 2022.

O papel mais penalizado, o Tesouro IPCA+ 2045, já contabiliza perda de 21,11% no ano. Em agosto, ele sangrou 10,44%. Esses resultados são fruto de um aumento do risco-país, que se manifestou de diversas formas.

Emprestar dinheiro ao governo se torna mais arriscado e, por isso, o mercado passa a exigir prêmios maiores para comprar títulos públicos. De um lado, as taxas ficam mais gordas e, de outro, os preços dos papéis caem. Essa desvalorização é sentida no bolso por quem carrega os títulos, se optar por vendê-los nesse momento.

“O Tesouro fez leilões durante o mês e teve que ser muito cauteloso, antecipando ao mercado como faria e qual o tamanho dos lotes, para não aumentar ainda mais as distorções de preço, estimulando a exigência de taxas maiores”, conta Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos.

TítuloRentabilidade bruta (%) agosto/2021Rentabilidade bruta (%) no anoRentabilidade bruta (%) últimos 12 meses
Tesouro Prefixado 20220,360,601,65
Tesouro Prefixado 2023-0,43-2,47-1,60
Tesouro Prefixado 2024-2,21--
Tesouro Prefixado 2025-2,73-7,95-5,70
Tesouro Prefixado 2026-3,93-10,28-7,30
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2023-0,41-2,10-1,01
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2025-2,52-7,15-4,29
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2027-4,36-10,46-6,59
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2029-5,63-13,00-8,99
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2031-6,48-15,24-11,26
Tesouro Selic 20230,482,172,64
Tesouro Selic 20240,50--
Tesouro Selic 20250,461,932,10
Tesouro Selic 20270,22--
T. IGPM+ c/ Juros semestrais 2031-2,5212,1921,78
Tesouro IPCA+ 2024-0,85-0,772,42
Tesouro IPCA+ 2026-1,77-3,301,22
Tesouro IPCA+ 2035-5,70-9,87-1,07
Tesouro IPCA+ 2045-10,44-21,11-10,43
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2024-0,67-0,063,10
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2026-1,41-2,082,18
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2030-2,53-5,170,87
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2035-3,86-6,570,81
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2040-4,82-7,07-0,03
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2045-5,33-6,551,03
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2050-5,81-7,97-0,33
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2055-5,93-9,76-1,12

O que contribuiu para esse mau desempenho dos títulos do Tesouro Direto?

Uma combinação de fatores trouxe maior volatilidade para o cenário. “Os dados de inflação ficaram piores, as tensões políticas tiveram uma escalada e o aprofundamento da crise hídrica impactou os índices de preços e as perspectivas de inflação futura”, enumera Sandra.

Também cresceu a percepção sobre o risco fiscal do país. Propostas como o aumento do Bolsa Família, agora rebatizado de Auxílio Brasil, e o parcelamento do pagamento de precatórios da União, sugerido não para aliviar os cofres públicos, mas para liberar verbas para um aumento de gastos, também preocuparam o mercado.

“O receio fiscal não pesava tanto desde o ano passado. E esse risco é redobrado na medida em que se aproxima um ano eleitoral, em que historicamente os gastos crescem”, afirma Camilla Dolle, analista de renda fixa da XP Investimentos.

Essa volatilidade afeta todos os tipos de papéis do Tesouro com a mesma intensidade?

Não. Os títulos prefixados são os que mais pagam o pato em momentos de estresse. Isso acontece porque a marcação a mercado (o efeito das oscilações de juros) se dá sobre toda a taxa nominal desses papéis.

Já os títulos de inflação têm a remuneração formada por dois componentes: um é a variação do IPCA e outro é um cupom prefixado de juros. A marcação a mercado ocorre apenas sobre essa segunda taxa, que é bem menor que a taxa nominal do Tesouro prefixado de prazo equivalente.

Já o Tesouro Selic é pouco afetado. De forma geral, ele vai acompanhar a evolução da taxa Selic. Por isso, ele sempre apresenta variações positivas, salvo se houver alguma disfunção do mercado.

As perdas do Tesouro Direto vão dar uma trégua em setembro?

Tudo indica que não, já que os problemas que pesaram em agosto tendem a se aprofundar. A nova bandeira tarifária, criada pela Aneel para enfrentar um cada vez mais provável quadro de escassez de energia, representa uma alta de 50% sobre o valor da bandeira vermelha 2, que já havia sido reajustado em 52% em julho. O transbordamento desse custo aumentado para a inflação será sentido rapidamente.

Os ruídos políticos podem se aprofundar com os atos de enfrentamento orquestrados por Jair Bolsonaro para o feriado de 7 de Setembro, que prometem engrossar o caldo da crise institucional que está em curso. E a questão fiscal continua merecendo atenção, já que a proposta de orçamento para 2022 enviada pelo governo ao Congresso traz vários pontos sensíveis, como o aumento dos benefícios sociais.

Nada leva a crer que setembro será melhor para o Tesouro Direto“, resume Camilla. “E o risco fiscal só deve crescer com a aproximação das eleições de 2022.”

Meu medo é a alta da inflação. Investir pesado em Tesouro IPCA+ é a melhor estratégia?

Em tese, os três tipos de papel trazem alguma proteção contra a inflação. Como o Banco Central eleva a taxa Selic na intenção de controlar a inflação e dar juro real ao investidor, o Tesouro Selic repassa essa reação ao bolso do investidor. E o Tesouro Prefixado traz embutida em sua taxa nominal uma expectativa de inflação.

Mas essas duas estratégias estão sujeitas a furos. Pode ser que a inflação suba demais e o BC não consiga fazer a taxa Selic acompanhar esse movimento, o que achatará o juro real de quem investiu em Tesouro Selic.

Quem comprou o Prefixado também sairá perdendo se a inflação for mais alta que o esperado. “Ele vai perder dos dois lados: no juro real e na correção da inflação. Já quem comprou o Tesouro IPCA não leva susto, porque o título é atrelado ao próprio índice de inflação, o que garante juro real em qualquer cenário”, explica Sandra.

Por outro lado, se houver melhora da expectativa de inflação (por exemplo, choveu muito e a crise hídrica escorreu pelo ralo), quem ganhará mais é o Tesouro Prefixado, porque ele já travou na taxa a inflação mais alta de antes. “Já no Tesouro IPCA, a correção pela inflação será menor e ele vai acabar ganhando um pouco menos”, compara a estrategista da Órama.

Como se vê, o investimento em Tesouro Prefixado depende de uma aposta mais complexa que a do Tesouro IPCA, em que se ganha em qualquer cenário, ainda que se possa ganhar menos. “Só vá de prefixado em oportunidades, se você gosta daquela taxa e quer carregar o papel até o vencimento”, recomenda Sandra.

Camilla concorda que o Tesouro IPCA é o melhor instrumento para proteção contra a inflação, mas faz uma ressalva: é importante diversificar.

Não é porque estamos com uma expectativa de alta da inflação que eu vou me posicionar 100% em Tesouro IPCA. É importante sim ter uma parcela em IPCA, por causa desse movimento. Mas não sabemos como estará o cenário daqui a alguns anos. Por isso é bom ter também outros tipos de ativos, que podem performar melhor que a inflação em outros momentos “, recomenda.

É melhor investir em papéis mais curtos ou mais longos?

Depende. Para quem tem objetivos como a aposentadoria, pode fazer sentido escolher papéis mais longos e carregá-los, já que o que se quer é proteger o patrimônio contra a inflação no longo prazo. Mas é preciso considerar que, quanto mais longo o papel, maior a imprevisibilidade do cenário, o que expõe o investidor a um risco muito maior.

“Mesmo para quem está formando uma poupança para a aposentadoria, o papel mais longo que a gente recomenda é o de 5 anos. Os títulos IPCA mais longos têm volatilidade equiparável à da renda variável”, avisa Sandra. “O investidor muitas vezes não entende a marcação a mercado. Ele pensa: ‘puxa, comprei um título de inflação para me proteger, como pode o meu papel estar caindo se a inflação está mais alta?’”

Investidores experientes às vezes usam esses papéis mais longos em estratégias para ganhar dinheiro em prazos menores. Se eles apostam que haverá melhora do cenário macroeconômico, compram esses papéis com taxas mais altas, como as de agora, para vender mais adiante, quando a taxa de juros tiver caído. Nesse caso, a marcação a mercado será positiva.

“As taxas altas de agora são uma oportunidade e investidores qualificados e gestores de fundos provavelmente estão olhando para isso. Mas, para o investidor comum, é mais difícil fazer esse trade”, diz a especialista da Órama.

Camilla recomenda os “ativos de meio de curva” (com prazos médios) e avalia que, neste momento, o Tesouro IPCA 2026 tem a relação risco-retorno mais interessante. “Olhando o que ele paga e o que o Tesouro IPCA 2055, o Tesouro 2026 está com um prêmio interessante, e o título mais longo não está pagando tão acima disso”, justifica. “Mas tudo depende da estratégia de cada um: pode fazer sentido pegar um papel mais longo para quem tiver um objetivo de prazo muito maior e quiser travar o ganho real prometido até o vencimento.”

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