Para quem investe em títulos públicos de renda fixa, outubro foi mais um mês a ser esquecido. Dos 27 papéis disponíveis na plataforma do Tesouro Direto, 22 fecharam no vermelho. O pano de fundo desse mau desempenho são as diversas manobras do governo para tentar encaixar o Auxílio Brasil no orçamento, com pagamentos mensais de R$ 400 até o término do mandato do presidente Jair Bolsonaro, tornando cada vez mais palpável o agravamento da situação fiscal do país.

“Com a sensação de que o teto de gastos não vai mais valer, a curva de juros foi inteiramente reprecificada. O Banco Central reagiu com a maior elevação da taxa Selic em 20 anos. A incerteza para o longo prazo é grande: será que os juros estarão em 5% ou 15% ao ano?”, comenta Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Como isso afeta o Tesouro Direto? Na medida em que as projeções do mercado para os juros futuros aumentam, o governo é obrigado a adequar as taxas dos seus papéis a esse cenário.

“Há algumas semanas, o Tesouro Prefixado para 2024 pagava juros de 7% ao ano. Mas hoje o mercado precifica que, até o vencimento desse título, a Selic estará próxima de 12,30%. Então, o Tesouro precisou reajustar as taxas ao que o mercado está precificando, e hoje esse título paga 12,18%”, explica Victor Zucchi Meneghel, especialista em renda fixa da Valor Investimentos.

Se de um lado as taxas ficam mais gordas, do outro os preços caem, e quem carrega esses títulos verá seu valor de mercado corrigido para baixo. Essa desvalorização, que ocorre por força da marcação a mercado dos papéis, castiga mais severamente os títulos prefixados e os atrelados ao IPCA, que também têm um componente prefixado.

TítuloRentabilidade bruta (%) outubro/2021Rentabilidade bruta (%) no anoRentabilidade bruta (%) últimos 12 meses
Tesouro Prefixado 20220,351,332,51
Tesouro Prefixado 2023-2,02-4,31-2,32
Tesouro Prefixado 2024-4,05--
Tesouro Prefixado 2025-4,65-12,48-8,31
Tesouro Prefixado 2026-5,62-15,76-10,78
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2023-1,84-3,65-1,50
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2025-3,91-10,72-6,42
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2027-4,90-14,79-9,27
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2029-5,58-18,19-11,97
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2031-5,44-20,26-13,30
Tesouro Selic 20230,543,163,59
Tesouro Selic 20240,59--
Tesouro Selic 20250,603,043,62
Tesouro Selic 20270,57--
T. IGPM+ c/ Juros semestrais 2031-4,526,8311,53
Tesouro IPCA+ 2024-1,93-1,382,38
Tesouro IPCA+ 2026-2,98-5,260,64
Tesouro IPCA+ 2035-8,34-17,02-5,52
Tesouro IPCA+ 2045-15,03-33,05-18,23
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2024-1,76-0,363,19
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2026-2,60-3,401,86
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2030-4,11-8,03-0,45
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2035-5,78-11,19-1,79
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2040-6,59-11,83-3,09
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2045-7,50-12,16-2,75
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2050-8,62-14,28-4,98
T. IPCA+ c/ juros semestrais 2055-8,69-16,47-6,14

Comparando os retornos dos títulos em setembro e outubro, fica mais claro como o cenário se agravou no último mês. O Tesouro Prefixado 2025, por exemplo, teve retorno negativo em 1,73% em setembro e em 4,65% em outubro. Já no acumulado de 12 meses, o prejuízo saltou de 3,93% para 8,31%.

Com o Tesouro IPCA+, não foi muito diferente. O título com vencimento em 2026 caiu 0,22% em setembro e 2,98% em outubro, enquanto no papel para 2035 a rentabilidade foi de -3,92% para -8,34%. Prazos mais longos acentuam a marcação a mercado, como mostram os retornos do Tesouro IPCA+ 2045: -7,77% em setembro e -15,03% em outubro. No acumulado do ano, esse papel já contabiliza perda de 33,05%.

Esses prejuízos, é sempre bom reforçar, só serão sentidos pelo investidor que porventura fizer o resgate antecipado dos papéis, sujeitando-se às condições de mercado do momento. Quem carregar os títulos até o vencimento receberá sempre a taxa combinada no ato da compra, sem sustos.

O que vai acontecer nos próximos meses?

Tudo indica que a história de outubro vai continuar se repetindo, já que os elementos que trouxeram volatilidade ao cenário ainda estarão presentes nos próximos meses. Tanto os dados de inflação ainda fortes como o viés de permissividade fiscal do governo levam a crer que o ciclo de alta dos juros está pela metade. E a sucessão presidencial se aproxima, com a promessa de jogar mais pimenta nesse caldeirão.

“Devemos ter um período de 7 a 8 meses de muita instabilidade, com um discurso populista de Bolsonaro e Lula reagindo na mesma moeda, tipo ‘vamos dobrar o auxílio’. No primeiro semestre de 2022, quanto pior, melhor”, estima Cruz. “Já na segunda metade do ano, com a eleição mais próxima, não será de interesse de nenhum deles comandar terra arrasada, então eles vão tentar cativar o eleitor indeciso e moderar o discurso.”

Para quem investe em títulos públicos, os recentes aumentos nas taxas pagas deixaram os papéis mais convidativos. Mas quem resolver aproveitar o momento para ir às compras de uma vez pode perceber que, meses depois, a deterioração do cenário macroeconômico se ampliou e as taxas ficaram ainda mais atrativas que as atuais. E aí?

Esse é o risco que se corre na renda fixa: se os prêmios abrirem muito, você deixou de aplicar em uma taxa ainda melhor. Mas acertar esse movimento [da curva de juros] e fazer as apostas no timing correto é algo que a gente não consegue fazer. Tesouro Direto não é para a gente ficar operando o mercado”, afirma Cristina Cardoso, advisor da Veedha Investimentos. “Por isso sempre insistimos que é importante construir um portfólio diversificado.”

Meneghel tem opinião parecida. “É difícil dizer qual é o ponto mais alto da curva de juros. Por isso, o melhor é não se precipitar e fazer as compras de títulos aos poucos.”

Qual o título que faz mais sentido para mim?

Tudo vai depender dos seus objetivos e prazos de investimento. Se você tem clareza de que poderá carregar os títulos até o vencimento (portanto, sem se preocupar com a marcação a mercado), tanto os papéis prefixados como os atrelados ao IPCA já estão oferecendo taxas bastante interessantes.

“Um título que paga uma taxa prefixada de 12% ao ano, ou a variação do IPCA mais cupom de juros de 5% ao ano são excelentes para se ter uma diversificação”, afirma Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos. “Mesmo com a desaceleração do IPCA esperada para 2022 e 2023, o juro real oferecido nessas taxas é bastante atraente.”

Tesouro Prefixado

A aposta em títulos prefixados tem um risco adicional. Não há como prever até onde chegarão a escalada da inflação e as altas da taxa Selic. Isso torna mais difícil estimar se a taxa prefixada em que o investidor estará se travando continuará vantajosa até o vencimento. Por isso, o estrategista da RB está evitando esses papéis no momento.

“Para novembro, vamos focar em IPCA [títulos atrelados à inflação] e CDI [pós-fixados]. Só vamos aumentar a exposição a prefixados quando tivermos uma visão de qual será a Selic terminal [até onde a taxa básica de juros vai subir]. Por ora, não há nada que sugira que a pressão inflacionária e o risco-país vão diminuir”, diz Cruz.

Tesouro IPCA+

Os títulos atrelados ao IPCA deixam o investidor seguro em qualquer cenário, já que o repasse da variação do índice garante a reposição da perda do poder de compra, enquanto o cupom de juros trava um ganho acima da inflação. Por isso, muitos investidores gostam pensam neles para o longo prazo, para proteção do patrimônio ou a construção de reservas para a aposentadoria.

No entanto, quanto mais longo o vencimento, maior o impacto da marcação a mercado no título. Isso aumenta a volatilidade dos papéis, sem um ganho extra de rentabilidade que justifique o risco. “Se compararmos as taxas pagas nos prazos médios e longos, a diferença de retorno é muito pequena. O Tesouro IPCA+ 2028 paga cupom de 6,40%, enquanto no papel para 2055 a taxa é de 6,50%”, aponta Meneghel.

Ele pondera, no entanto, que o investidor que acreditar em uma melhora do cenário no longo prazo pode usar os papéis mais longos de inflação na construção de uma estratégia de lucro, baseada na marcação a mercado positiva. “Se ele comprar um Tesouro IPCA+ 2035 e, daqui a dois anos, a taxa de juros cair [com a melhora do cenário], ele pode revender o papel com ágio”, diz.

Tesouro Selic

Já os títulos pós-fixados andaram desprestigiados quando a taxa Selic começou a ser desidratada e passou a ficar abaixo da variação da inflação. Com isso, quem comprasse o Tesouro Selic ainda tinha um retorno nominal positivo, mas os juros reais (após descontada a inflação) passaram a ser negativos.

Mas esse cenário está mudando: agora a taxa Selic está em ciclo de alta e, na medida em que o BC faz novos reajustes, a tendência é que ela volte a ficar à frente da inflação em 2022.

Isso aumentará a atratividade dos pós-fixados, que sempre foram os papéis mais indicados para o investidor mais conservador, avesso a grandes oscilações, já que eles não sofrem marcação a mercado em caso de resgate antecipado. Por essa característica, Sandra também os recomenda para quem não sabe com clareza por quanto tempo poderá deixar o dinheiro investido.

“É melhor investir neles do que correr riscos [com os papéis prefixados ou atrelados ao IPCA].
Sabemos que ainda haverá muita volatilidade pela frente, principalmente no ano que vem”, justifica a estrategista da Órama. “Com a Selic indo a dois dígitos no ano que vem, os pós-fixados pagarão bons retornos ao investidor.”

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