Quem tem na carteira títulos cujo rendimento é calculado pelo CDI terá que conviver com baixos ganhos daqui para frente. Com a queda da taxa básica de juros para 2,25%, os títulos referenciados pela Selic ou pelo CDI passarão a render menos até do que a inflação. Diante desse cenário de juro real negativo, muitos investidores estão reavaliando os ativos da carteira.

Quem tem títulos que ainda não venceram pode se sentir de mãos atadas nesse processo. Mas é importante saber que sim, que é possível resgatar um CDB, uma LCI, uma LCA ou até um CRI ou um CRA antes da data de vencimento. A questão é que os emissores costumam cobrar um penalty (uma multa) para quem toma essa decisão.

Pode explicar melhor? Títulos de crédito privado podem ter liquidez diária ou vencimento determinado — 1, 2, 4 ou até 6 anos. A razão para essa condição é que esses títulos financiam projetos de médio e longo prazo das instituições emissoras, e por isso os recursos ficam comprometidos até a época do resgate. Ou seja: os emissores não esperam ter que devolver o dinheiro antes do prazo.

Por outro lado, a maioria desses títulos é pós-fixada e tem o rendimento atrelado ao CDI ou à Selic. Quem aplicou em um título desse há 3 anos, por exemplo, tinha um rendimento anual de dois dígitos em vista. Quem aplicou em 2018 ou 2019 contava com um retorno de mais de 6% ao ano. Mas esses tempos ficaram para trás, e com o juro negativo à frente muitos desses investidores pensam em resgatar os seus títulos.

“O cliente que precisar resgatar, seja por emergência ou por mudança de estratégia de investimentos, consegue ter acesso a esses recursos. Mas nós não recomendamos que isso seja feito, pois nem sempre é possível ter de volta o rendimento acumulado do título, e em alguns casos, o cliente pode até mesmo perder o valor inicial investido”, explica Fabio Macedo, diretor comercial da corretora Easynvest.

Por que isso acontece? Na maior parte dos casos, o resgate desses títulos não acontece antes do prazo. O que as corretoras fazem é recomprar o título e tentar ofertá-lo para outro cliente — na chamada venda no mercado secundário. Quanto maior for o interesse por aquele título, maior o retorno para o investidor que resgatou antes do prazo.

“Existem alguns títulos em que os emissores garantem a liquidez, mas a maioria é negociada no mercado secundário, no balcão. Aí é cobrado um penalty, uma multa, que depende das condições oferecidas pelo emissor”, diz David Rocha, analista de fundos da corretora Guide Investimentos.

Mas há um ponto importante aqui: a pandemia do coronavírus e a queda dos juros básicos fizeram com que os emissores aumentassem as taxas de retornos dos CDBs, LCIs, LCAs, debêntures e outros produtos de renda fixa. Como contamos nessa outra matéria, hoje já é possível encontrar títulos de curto prazo que pagam 130% e até 140% do CDI. O retorno é maior porque, claro, o risco também aumentou.

Nessa nova realidade, um título que foi contratado há 3 anos com uma taxa de 120% do CDI, por exemplo, perde atratividade no mercado secundário. É provável, então, que o investidor tenha prejuízo ao tentar resgatá-lo.

Quando não vale a pena resgatar? Resgatar antecipadamente para aplicar em um título de renda fixa emitido com taxas maiores dificilmente valerá a pena. Isso porque embora a diferença de 120% para 140% do CDI pareça enorme, é importante lembrar que esse é um percentual sobre um valor baixo.

Por exemplo: 140% do CDI representa um rendimento bruto de 3,15%, e 120% representa 2,70%, nos termos atuais. É uma diferença de menos de 0,5% ao ano. Se o investidor perder mais do que isso ao resgatar o título, a troca já deixa de fazer sentido.

“Tem a questão da tributação também. Se o investidor resgatar o título antes de uma janela de 2 anos ele terá que pagar uma alíquota de Imposto de Renda maior”, lembra Macedo, da Easynvest. A tabela de tributação de títulos de renda fixa começa com uma cobrança de 22,5% sobre o lucro, para resgates antes dos 180 dias, e vai até 15%, para títulos resgatados após 2 anos.

E quando é um bom negócio trocar? Em duas situações principais. A primeira é se o investidor não fez um bom trabalho na diversificação da carteira e está, agora, refém de retornos baixos calculados sobre o CDI ou sobre a Selic.

“Se o investidor tem carteira muito concentrada em títulos que renumeram o CDI em taxas baixas, vale a pena levar parte do patrimônio para ativos que remuneram mais. E isso já está acontecendo, temos visto uma mudança de portfólio importante”, conta Rocha, da Guide.

A outra situação em que o resgate começa a fazer sentido é para mudar o método da carteira, para aumentar a exposição do investidor à renda variável, que tende a ter ganhos maiores. “Se o investidor quiser mudar o rumo do portfólio dele, se estiver pensando em sair da renda fixa e encontrou uma oportunidade na renda variável, aí sim esse tipo de estratégia pode fazer sentido”, aconselha Macedo, da Easynvest.

Claro que essa migração precisa levar em conta o perfil do investidor e o nível de aceitação a risco. No entanto, mesmo para os marinheiros acostumados com marés mais seguras, é importante lembrar que o curto horizonte da renda fixa é de retorno real negativo, e que concentrar seu patrimônio nessa modalidade significa perder para a inflação.

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