O bitcoin é uma das aplicações que atrai mais interesse dos investidores, justamente por ser um ativo que não é de fácil compreensão. Mas é preciso que a curiosidade venha aliada à cautela, já que trata-se de um investimento de alta volatilidade.

Para entender o tamanho dessa volatilidade, basta olhar como a cotação variou em 2020. A criptomoeda começou o ano negociada na casa dos US$ 7 mil, caiu para os US$ 4 mil em março e há pouco mais de um mês engatou um ritmo de subida rápida, chegando aos US$ 11.400 na quarta-feira (26). A alta acumulada desde janeiro é de 59%.

Quem conhece o histórico do bitcoin sabe que essas altas e baixas repentinas não são exatamente inéditas. No final de 2017, a criptomoeda chegou aos US$ 13.800 e depois perdeu metade do seu valor em pouco mais de 3 meses. Quem investiu naquela época de alta nunca conseguiu recuperar o prejuízo, embora as cotações atuais estejam próximas do recorde histórico.

Diante desse cenário, duas questões importantes se apresentam. Será que o bitcoin repetirá uma trajetória de alta parecida com a que aconteceu em 2017? E mais importante: se a alta se concretizar, qual é a possibilidade de haver um tombo tão amargo quanto o que aconteceu no início de 2018?

Antes de tudo, pode me explicar melhor o que é o bitcoin? Trata-se de uma moeda digital, cuja emissão e controle são descentralizados. Isso significa que não existe um emissor oficial de bitcoins, e sim uma rede bastante extensa de mineradores que “produzem” seus próprios valores.

Como assim? Explicando de forma bastante simplificada: um supercomputador é utilizado para decifrar e validar transações de cripto na rede, e toda vez que ele é bem-sucedido, o minerador — que é dono daquele computador– recebe um determinado valor em bitcoins. Imagine, agora, que existem várias dessas máquinas minerando bitcoin diariamente.

É seguro? O pulo do gato da tecnologia não é só a descentralização, mas também o “encaixe” das informações transacionais que protege o sistema de manipulações e fraudes. Essas informações são organizadas em blocos encadeados, que são compatíveis somente em sequência — é a tecnologia do blockchain, que tem sido usada em várias outras frentes, não só nas criptomoedas.

Isso tudo permitirá que o bitcoin seja uma nova moeda mundial? A promessa é que sim, mas isso ainda não aconteceu. Lá em 2008, quando o bitcoin surgiu, a ideia era criar uma divisa que não fosse controlada por nenhum governo ou banco central, o que evitaria crises originadas na repentina falta ou na sobra de liquidez. Assim, cidadãos do mundo todo poderiam transacionar uma moeda única digital, que não estaria sujeita a taxas, impostos ou controles oficiais.

Mas a prova do bitcoin como moeda alternativa ainda não se concretizou. São poucos os pagamentos que podem efetivamente serem feitos com a criptomoeda, o que reduz seu potencial de aceitação. Por enquanto, o ativo é mais encarado como uma reserva de valor, assim como o ouro ou a prata. “Para que a tese do bitcoin como moeda seja confirmada precisaríamos ter uma estabilização nas cotações”, diz João Marco Braga da Cunha, gestor de portfólio da Hashdex, gestora de criptomoedas.

O que pode acontecer com o bitcoin daqui para a frente? Se já é difícil fazer previsões para as moedas tradicionais, como o dólar, imagine para um criptoativo. Mas o contexto atual nos dá algumas pistas. A corrida recente pelo bitcoin tem a ver com a desvalorização da moeda americana, em razão da imensa liquidez provida pelo Federal Reserve, e com a busca por ativos de risco que possam ampliar os rendimentos das aplicações.

Mas não é só isso. No fim de julho, o OCC, órgão pertencente ao Tesouro dos Estados Unidos e responsável por regulamentar os bancos, emitiu um comunicado dizendo que as instituições financeiras do país estão autorizadas a custodiar os bitcoins de seus clientes. Na prática, a medida tende a desburocratizar o acesso aos criptoativos, dando poder aos bancos, e não somente para as corretoras especializadas, para negociar bitcoins no mercado.

A divulgação dessa carta também coincidiu com o período de maior alta do bitcoin no ano, o que prova que mudanças regulatórias têm um alto poder de influência.

Algo mais contribuiu para a alta recente? Sim. Um relatório divulgado na semana passada por Raoul Pal, considerado um dos maiores gurus de investimento no cenário global, indicava uma janela de oportunidade para a compra de bitcoins. No texto, Pal dizia-se “irresponsavelmente comprado” na criptomoeda.

A tese é que o bitcoin está ganhando tração nesse cenário de desvalorização do dólar, o que pode gerar um novo pico nas cotações. Além disso, a compra da moeda digital seria uma forma de proteger-se da inflação mais alta nos Estados Unidos.

“Num mundo de alta liquidez e de juros zero, como o que vivemos agora, vamos ver muito dinheiro mudando de lugar. Então por que não comprar um bilhete de loteria? O custo de oportunidade de aplicar uma parte pequena do patrimônio em criptomoedas despencou”, analisa George Wachsmann, sócio da gestora Vitreo.

Ele alerta que a aposta não pode ser grande demais. “Não é para ser 10% ou 20% do seu patrimônio, mas por que não 2%, por exemplo?”, questiona o gestor.

Será que vamos ter outro tombo, depois disso? Por mais que períodos de alta, como de agora, sejam um grande chamariz para novos investidores, os gestores de criptoativos estão torcendo para que o bitcoin não repita o quadro de 2017. “É muito mais saudável que ele esteja numa rota de crescimento menos acelerada e mais sustentável. O movimento de 2017 foi especulativo, e não motivado pelos fundamentos do bitcoin”, diz Cunha, da Hashdex.

Ele pondera que a regulação das criptomoedas evoluiu muito desde então, e que os fundamentos para a valorização estão mais sólidos — basta ver a aprovação recente nos Estados Unidos. Mas qualquer solavanco causado pela crise atual pode mudar tudo, causando outro tombo nas cotações, e escaldando os investidores que embarcaram agora no bitcoin. Por isso, todo cuidado é ainda é pouco.

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