Os receios sobre a questão fiscal brasileira adquiriram novos contornos de quarta-feira (20) para cá. O governo passou a sinalizar abertamente que busca maneiras de burlar o teto de gastos para viabilizar o novo Auxílio Brasil com pagamento de benefício de pelo menos R$ 400 por família. Para custear a despesa, o ministro da Economia, Paulo Guedes, cogita pedir uma espécie de perdão temporário para furar o teto em R$ 30 bilhões.

A reação do mercado foi a pior possível. Na própria quarta-feira, o Ibovespa futuro fechou em queda de quase 2%. No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2023 cresceu 38 pontos-base, a 10,54%, o DI para janeiro de 2025 subiu 36 pontos-base, a 11,5%, e o DI para janeiro de 2027 teve elevação de 33 pontos-base, a 11,81%.

Na quinta, o principal índice da Bolsa brasileira despencou quase 3%, o dólar saltou para R$ 5,66 e, em Nova York, o EWZ, ETF de ADRs brasileiros, recuou 4,81%. Enquanto os investidores se debatiam, as alas política e econômica do governo se reuniram para tentam mudar a fórmula de correção do teto de gastos, malabarismo que abriria um espaço de R$ 83,6 bilhões para despesas adicionais em 2022.

Tamanha volatilidade respingou nos títulos do Tesouro Direto. Quando aumenta a aversão a risco do mercado, o governo precisa elevar as taxas oferecidas nesses papéis, já que o investidor passa a exigir um prêmio maior para lhe emprestar dinheiro.

De quarta para quinta-feira, o retorno do Tesouro prefixado para 2024 cresceu de 10,86% para 11,36%, enquanto a taxa do papel com vencimento em 2031 subiu de 11,57% para 12,1%. Entre os títulos de inflação, o Tesouro IPCA+ para 2026 aumentou seu cupom de juros de 5,06% para 5,29%. Já no Tesouro IPCA+ 2055 com juros semestrais, a taxa subiu de 5,29% para 5,55%.

O que tudo isso sinaliza para o investidor? À primeira vista, as taxas aumentadas são um convite para que quem já tinha um dinheirinho parado monte posições. Porém, em vez de correr atrás da primeira oportunidade, convém entender um pouco melhor o que está acontecendo. E ponderar que o cenário pode se agravar ainda mais.

O mercado está pesando a mão além da conta? Esse movimento de precificação do risco é exagerado? Pode ser algo passageiro? “Não é exagerado, é condizente com o nível de risco atual”, responde Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Research. “Flexibilizar o teto de gastos é perder a âncora fiscal do país, que foi o que permitiu ao Brasil sair de uma taxa de juros de 16% no ano do impeachment para menos de 5% antes da pandemia. O mercado vislumbrou que teríamos uma tendência de dívida pública em queda, e isso vai se perder.”

Marcos Iorio, gestor da Integral Investimentos, ressalta que a deterioração da situação fiscal do Brasil já ocorre há algum tempo. “Agora que caminhamos para um ano eleitoral, o governo pode tomar novas medidas negativas para tentar reverter a baixa popularidade. Há membros falando em um auxílio ainda maior que R$ 400. Não dá para afirmar que não teremos taxas ainda mais altas nas próximas semanas, porque o discurso do governo está bem ruim. O próprio Guedes afirmou que essa é uma questão mais política que técnica.”

O que poderia aliviar o mercado e fazer os juros futuros recuarem, reduzindo as taxas oferecidas pelo Tesouro Direto? Alguma sinalização do governo que indique melhora da parte fiscal ou, pelo menos, que o teto de gastos não será descumprido. “Por exemplo, uma reforma administrativa que reduza os gastos com a máquina pública. Ou o governo voltar atrás, não fazer o Auxílio Brasil e manter todos os gastos dentro do teto sem flexibilização”, diz Marília.

Iorio afirma que, no curto prazo, o alívio viria de uma mudança de discurso por parte do governo, mas ela está longe de acontecer. “Já no longo prazo, entra a questão eleitoral. O surgimento de uma terceira via mais comprometida com a austeridade fiscal poderia fazer as taxas recuarem. Mas essa é uma questão para 2022.”

Faz sentido aproveitar essas taxas e comprar Tesouro Direto agora? Verdade seja dita: as elevações da taxa de juros encarecem o crédito e dificultam a recuperação da economia, mas para a renda fixa essa pimenta é refresco. Boa parte dos títulos indexados ao IPCA já paga cupons de juros acima de 5%, o que é bastante, se considerarmos que no começo do ano essas taxas ficavam entre 2% e 3%. E os prefixados não estão exigindo prazos longos para entregar ganhos acima de 10%.

“Estamos no meio do furacão, mas o que dá para falar é que está ótimo para entrar [no Tesouro Direto]. Até as taxas curtas estão boas, você consegue 11,20% para menos de três anos”, diz Alkeos Saroglou, sócio da Alta Vista Investimentos. “Para quem tem caixa, reservas, investimentos que se seguraram bem, o Tesouro está pagando muito bem pelo pouco risco que oferece.”

Sandra Blanco, economista-chefe da Órama Investimentos, também acha que as taxas generosas justificam a alocação. “Mas não dá para concentrar todos os ovos na mesma cesta. Para horizontes mais longos, vá de Tesouro IPCA com pagamento de juros semestrais. Já para [vencimentos em] 2024 e 2026, é melhor ir de Prefixado”, recomenda.

Iorio pondera que ainda pode haver uma deterioração adicional do cenário, o que resultaria em taxas ainda mais elevadas. Por isso, o investidor que tem liquidez deve entrar de forma gradual.

“Para quem consegue carregar até o vencimento e não vai sofrer marcação a mercado, é um posicionamento interessante. Mas não é o caso de colocar todo o dinheiro hoje, só para tentar aproveitar os papéis que ficaram mais atrativos. Já para quem está esperando ter ganho em um resgate antecipado [após a melhora do cenário], ainda não é o momento. O mercado se manterá volátil nas próximas semanas, com pouca notícia boa e muita ruim por vir”, prevê o gestor da Integral.

Já Marília desaconselha a entrada no Tesouro Direto neste momento, especialmente dos papéis prefixados e de inflação. “Estamos apenas no começo da discussão eleitoral. Vai ser um mercado de muita volatilidade e não acho que o investidor tenha que entrar nessa, principalmente o iniciante. Ele precisa ficar bem fora dos juros longos brasileiros até entender qual será a política macroeconômica adotada nos próximos 4 ou 8 anos”, aconselha a sócia da Nord. “Eu ficaria fora, a não ser dos pós-fixados. O Tesouro Selic é o Tesouro do momento, você não corre o risco de marcação a mercado negativa [que corre nos prefixados e nos indexados ao IPCA]”.

O risco dos papéis mais longos compensa o prêmio adicional sobre os papéis mais curtos? Não. “As partes curta e intermediária da curva de juros também abriram bastante, então não se vê grande diferença de retorno entre os papéis mais curtos e os mais longos. Do Tesouro IPCA mais longo [para 2055] para o mais curto [para 2028], são apenas 30 pontos [0,3%]”, diz Iorio. “Então faz mais sentido estar em prazos mais curtos. Vencimentos a partir de 2035 tendem a machucar bastante o investidor com volatilidade.”

Saroglou afirma que, para quem já tinha um horizonte mais longo de investimento, este pode ser um bom momento para conseguir boas taxas, para carregar. Mas a rentabilidade de papéis mais curtos, como os títulos de inflação com vencimentos entre 3 a 5 anos, já é bastante atrativa. “Fazia tempo que não víamos papéis pagando o IPCA mais 5% ao ano. Quem carregar um desses títulos até o vencimento não vai ficar triste com o resultado”, opina.

Para Marília, o melhor é ser mais conservador para atravessar a volatilidade dos próximos meses. Ela argumenta que os juros pagos pelos Treasuries norte-americanos tendem a subir, e isso influenciará os juros longos do Brasil. “Se o juro americano sobe, nossas taxas também sobem. E estamos vendo a inflação nos EUA acelerar, o que pode significar taxas ainda maiores. Ou seja, este é o pior momento para alongar o Tesouro. Eu esperaria um pouco mais e, por ora, me manteria no curto prazo e nos pós-fixados.”

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