Com forte queda na rentabilidade e preocupações de curto prazo trazidas pela pandemia de coronavírus, muitas pessoas estão fazendo o pior movimento possível do ponto de vista das finanças pessoais: resgatar recursos de fundos de previdência privada, ou seja, de investimentos de longuíssimo prazo.

Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que, apenas na primeira quinzena de maio, houve uma saída de R$ 2,1 bilhão de recursos dessas aplicações, a maior entre os diferentes tipos de fundo. No acumulado do ano, essa conta está negativa em R$ 1,4 bilhão.

Pela própria natureza desse tipo de investimento, pensado para durar por décadas, o resgate antecipado pune, e muito, o patrimônio do cotista. “Dependendo do tipo de fundo, o investidor pode ter que abrir mão de até 35% do patrimônio ao sacar os recursos”, explica Lucas Taxxweiler, especialista em investimentos da gestora digital Magnetis.

Um dos motivo para os resgates que estão ocorrendo é a forte redução da rentabilidade desses fundos, seja pela queda na taxa básica de juros, no caso daqueles de renda fixa, seja pela bolsa ter despencado neste ano, caso dos que investem em ações.

A crise mudou tudo

No ano passado, as contribuições para aposentadoria aumentaram mais de 23% em relação a 2018, somando R$ 11,5 bilhões, segundo a FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida). Naquele momento, o desempenho dos fundos de previdência estava muito bom, com ganhos de 11,1%.

A crise, entretanto, mudou tudo. Um levantamento feito pela Magnetis mostrou que, de 1.521 fundos abertos para captação que já fecharam os dados do primeiro trimestre, 79,7% tiveram resultado negativo e registraram quedas de até 40% na rentabilidade.

É um cenário assustador, que faz o investidor repensar suas aplicações, segundo Taxxweiler.

“Quando vemos uma variação tão brusca no mercado, por causa do coronavírus, investidores que não estavam tão convictos tendem a resgatar esse investimento, mesmo considerando que é o tipo de fundo que deve ser o último a ser resgatado”, afirma.

Para muitas pessoas, entretanto, essa não é uma escolha em um cenário de redução brusca da renda ou perda do emprego.  Uma pesquisa divulgada pela XP Investimentos, que foi realizada entre os dias 16 e 18 de maio, mostra que 56% dos brasileiros já sentiram impacto da crise na sua situação financeira. Mais de 80% acreditam que serão impactos em algum momento.

Ou seja, parte dos resgates acontece porque o investidor se vê sem saída e precisa resgatar suas aplicações para sobreviver.

Taxas de administração e portabilidade

As elevadas taxas de administração de fundos de previdência também ajudam a corroer o retorno dessas aplicações.

“Os fundos de previdência são investimentos que ficaram marcados por terem altas taxas de administração. Não é raro serem abusivas. Qualquer taxa acima de 1% para fundos de renda fixa, no momento atual, em que a taxa básica de juros está a 3%, não faz sentido, é abusiva”, diz Taxxweiler.

Ele lembra que, se achar que a rentabilidade do seu fundo de previdência não está satisfatória, o consumidor tem o direito de fazer a portabilidade dos seus recursos para outro fundo.

Segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados), que regula o setor, o consumidor não pode fazer a portabilidade de um PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) para um VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). Respeitando essa regra, entretanto, pode migrar seus recursos para outra instituição financeira ou para um outro fundo do mesmo gestor.

O caminho é fazer uma solicitação à nova instituição financeira (ou na mesma gestora) e apresentar os documentos que serão solicitados, como extrato e características do plano anterior.

Caso vá trocar de instituição financeira, o cliente deverá permanecer por 60 dias, no mínimo, no antigo plano após a contratação do novo.

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