Ter um carro na garagem é uma escolha que cobra um custo e oferece benefícios. Mas os números envolvidos nessa conta mudaram bastante em 2021. Para começo de conversa, os preços dos carros novos dispararam. Alta do dólar, desabastecimento de componentes e a opção das montadoras por modelos de maior valor agregado, deixando os populares de escanteio, são fatores que pesaram – e acabaram inflacionando até o mercado de usados.

O Fiat Mobi Easy, por exemplo, subiu de R$ 38.000 em janeiro para R$ 49.532 em setembro, uma alta de 30,34%. E estamos falando de um modelo subcompacto pra lá de espartano, que acomoda só quatro pessoas e, nessa versão de entrada, dispensa ar-condicionado e direção assistida. Para incluir esses itens, a fatura salta para R$ 58.099, valor da versão Like.

Ao mesmo tempo, os preços dos combustíveis também foram reajustados com mão pesada. De janeiro a setembro, o etanol encareceu 41,34%, a gasolina subiu 33,37% e o diesel, 30,03%. Considerando que a variação do IPCA-15 foi de 7,02% no período, dá para dizer que os três combustíveis subiram muito mais que a inflação. Hoje o preço médio do litro de etanol, combustível mais barato, já passa de R$ 4,70, de acordo com a ANP.

Nesse cenário, pode ser o caso de repensar se bancar essa comodidade ainda faz sentido. A resposta a essa questão não será a mesma para todos, porque não depende apenas da matemática: envolve também questões subjetivas, que são igualmente importantes. Veja o que é preciso considerar.

Quanto custa ter e manter um carro?

O valor da compra do modelo escolhido é só o primeiro de muitos desembolsos que precisam ser colocados na ponta do lápis. Considere também o gasto com combustível (o site Carros na Web tem um catálogo que mostra as fichas técnicas com dados de consumo de todos os modelos à venda no país), os impostos (apenas IPVA e licenciamento, já que o seguro obrigatório DPVAT não é mais cobrado) e o valor do seguro.

As despesas com manutenção são importantes: se você não fizer as revisões dentro dos prazos estabelecidos pela montadora, perderá a garantia de fábrica do veículo – e a economia pode custar caro. Coloque na conta, ainda, o aluguel mensal da garagem (ou mensalidade do estacionamento), se necessário. E pelo menos uma lavagem por mês.

Ainda não acabou! Leve em conta a depreciação que o veículo sofrerá ao longo do tempo – e que não é a mesma para todos os modelos. Para ficar em alguns exemplos, hatches compactos se desvalorizam menos que modelos de maior valor agregado, pois têm mais liquidez; marcas japonesas preservam mais valor por sua fama de duráveis, enquanto as de origem francesa sofrem com o estigma das peças caras (mesmo que isso nem sempre seja verdade). A perda de valor é mais acentuada no primeiro ano de uso e vai se amenizando nos seguintes, até ficar linear a partir do quarto ano.

Por fim, é preciso considerar o custo de oportunidade: o dinheiro que você deixou de ganhar ao não investir o valor da compra do carro. “Use como base a taxa livre de risco do mercado, o Tesouro Selic, que paga 100% do CDI. E desconte a inflação do período, para descobrir o juro real que você deixou de ganhar”, ensina o planejador financeiro Andrés Montano.

Para os próximos 12 meses, ele afirma que a inflação vai perder força e prevê uma taxa Selic a 6,5% ao ano e o IPCA a 5%, o que dá um juro real de 1,5%. É com base nessa taxa que você deve calcular o custo de oportunidade.

Faça as contas

Para colocar tudo isso na ponta do lápis, o primeiro passo é descobrir qual seria o seu perfil de uso do carro: a distância dos seus trajetos diários, a frequência com que gostaria de viajar nos finais de semana e outros deslocamentos que fazem parte da sua rotina.

O setor automotivo tradicionalmente usa como referência uma média de mil quilômetros por mês, ou 12 mil km por ano, a partir de hábitos de consumidores brasileiros de grandes cidades que usam o carro em deslocamentos diários de casa para o trabalho.

Mas isso é parte de um mundo pré-pandemia, em que o home office era a realidade de 5% da população, se tanto. Por isso, é importante você conhecer a sua própria realidade e levá-la em conta em um cálculo que faça sentido na sua vida. Mas considere que, mesmo se rodar bem pouco, terá que fazer a primeira revisão depois de um ano de uso, para não perder a garantia.

Vale a pena também fazer cotações do seguro do modelo desejado em várias companhias, pois o valor da apólice muda muito conforme o perfil de risco de cada segurado.

Quer ver um exemplo de como fazer essa conta? Vamos simular os custos que você teria em um ano ao comprar um Hyundai HB20 Sense 1.0 zero-km. O preço de tabela desse modelo é de R$ 64.890, sem pintura metálica. Nesta simulação, estamos considerando uma rodagem de mil quilômetros por mês, por um ano, e os abastecimentos sempre com etanol, a R$ 4,70 por litro.

Combustível (1.000 km/mês, consumo urbano de 9,1 km/l de etanol): R$ 6.197,80
IPVA (em São Paulo, corresponde a 4% do preço de tabela): R$ 2.595,60
Licenciamento: R$ 131,80
Seguro (estimativa): R$ 2.178,00
1ª revisão de fábrica: R$ 252,96
Garagem (R$ 400 x 12 meses): R$ 4.800
Lavagem (uma vez por mês, a R$ 40): R$ 480
Desvalorização no primeiro ano (-10,6%): R$ 6.878,34
Custo de oportunidade (juro real de 1,5%): R$ 935,85
Total de despesas no ano: R$ 24.450,35, o que dá um custo de R$ 2.037,52 por mês

Como o carro se encaixa na minha vida?

Números à parte, a decisão de ter ou não um carro envolve fatores menos tangíveis, como o conforto (especialmente em dias de chuva), a sensação de segurança e até a busca por status. Eles são valorizados de forma diferente por cada um – e vinham sendo colocados de lado pelas novas gerações. Até que surgiu o coronavírus.

“Os jovens da geração Z não sentiam mais a necessidade de ter um carro, eles tinham outras prioridades. Eles fazem tudo pela internet e se contentam em chamar um carro pelo aplicativo. Mas, com a pandemia, muitos passaram a preferir manter o veículo para ter mais privacidade nos deslocamentos”, diz o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive.

Ele reconhece que algumas pessoas têm demandas que podem ser supridas de forma satisfatória sem a propriedade de um carro. “Conheço muitas pessoas que, quando precisam, alugam. Você tem uma necessidade efetiva de ter um carro próprio? Se sim, procure um bom negócio, que pode ser um seminovo, ou use Uber até a situação [da falta de carros novos] se normalizar. Mas às vezes pode ser melhor apenas alugar, ainda que por um período maior”, pondera.

Montano diz que, antes de fazer qualquer cálculo financeiro, é preciso verificar se o momento de vida é ou não apropriado para ter um carro. “Já tenho minha reserva de emergência? Não tenho dívidas? Como está minha empregabilidade, tenho uma boa previsão de renda?”, indaga.

O planejador financeiro argumenta que há situações em que o carro próprio faz mais sentido, como famílias com crianças pequenas ou idosos, que podem precisar de atendimento médico rápido em emergências. Mesmo quando não for esse o caso, o simples desejo pode acabar justificando a compra. “Nem sempre a melhor decisão será a financeira. Se fosse, tudo mundo só compraria carros baratinhos, como o Renault Kwid. As pessoas também querem ter conforto”, conclui.

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