A XP Inc., holding dona da XP Investimentos, da Clear e da Rico, vai realizar o seu IPO (abertura de capital) no mercado americano. As ações da corretora serão listadas na Nasdaq, e a expectativa é que as negociações comecem já no mês que vem. A empresa deve levantar US$ 1,5 bilhão na operação, o que equivale a cerca de R$ 6,3 bilhões, na cotação atual — se a cifra for confirmada, será o maior IPO de uma empresa brasileira em 2019.

Antes de qualquer coisa, qual o tamanho da XP?  Nas informações financeiras anunciadas para a oferta de ações, a XP afirmou ter 1,5 milhão de clientes em suas três marcas (XP, Clear e Rico) e informou que obteve um faturamento de R$ 3,7 bilhões em 2019. O grupo possui mais de 2.000 funcionários.

A XP se coloca como a maior plataforma de investimento independente do Brasil, com uma participação de mercado de 3%. Ela observa que a fatia detida pelas corretoras independentes deve subir para 25% em 2024 — como a XP é a principal desse setor, é possível que ela abocanhe boa parte desse crescimento.

Mas por que ela vai abrir capital nos EUA? “O mercado americano tem mais liquidez (volume de negociação) e o acesso aos investidores é mais fácil”, explica Roberto Lee, fundador e presidente da Avenue Securities, corretora que atua nos EUA. Lee também fundou a Clear, que depois foi vendida à XP.

Ele faz a ressalva de que embora nem todos os detalhes da venda das ações da XP sejam conhecidos, já é possível saber de antemão que o IPO será considerado pequeno nas bolsas americanas.

O investidor brasileiro vai poder comprar ações da XP no IPO? As informações divulgadas no prospecto não permitem responder com certeza. Mas, levando em conta a dinâmica dos processos de abertura de capital nos Estados Unidos, a provável respostá é: não, o investidor brasileiro não poderá comprar ações da XP, não ao menos em um primeiro momento.

Apenas para explicar como funciona aqui no Brasil: quando as empresas divulgam as informações sobre o IPO, elas determinam um período de reserva, um valor mínimo de investimento exigido e o percentual de ações que serão destinadas ao investidor comum e aos investidores institucionais (fundos). Durante a reserva, o investidor comum poderá manifestar interesse em comprar as ações.

Nos EUA é diferente. “Os investidores comuns não participam de IPO, somente os investidores institucionais. Isso é fruto de um mercado mais maduro”, explica Lee, da Avenue. É provável que o mesmo aconteça com a XP.

O que isso significa? Fundos distribuídos pelas instituições que estão coordenando a oferta (Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Morgan Stanley, Itaú BBA e a própria XP Investimentos) devem ficar com a maior parte das ações à venda. Alguns desses bancos permitem que os clientes de uma lista restrita também comprem ações em abertura de capitais, mas em condições bem específicas, como possuir um patrimônio de mais de US$ 1 milhão nos Estados Unidos e um longo histórico de transações em bolsa.

“Fundos brasileiros são proibidos de participar do IPOs de outros mercados, por determinação regulatória”, explica Lee, da Avenue. Isso significa que nem os fundos com alguma composição de investimento estrangeiro, negociados aqui no Brasil, terão participação. Ou seja: nem mesmo por participação indireta será possível ter um pedacinho da XP.

Mas há uma luz no fim do túnel: Depois da oferta primária (a abertura de capital), a XP fará ofertas secundárias. Explicamos: na oferta primária, todo o dinheiro vai para o caixa da empresa. Nas ofertas secundárias, os acionistas originais podem vender suas ações, ficando com o ganho da operação pra si.

Mas não há, ainda, definição sobre a oferta secundária, principalmente porque não se sabe ainda quem vai querer abrir mão de parte da XP — especula-se no mercado, por exemplo, que o Itaú, que tem 49,9% da corretora, não está disposto a vender nem uma fração da sua participação.

Definidos o valor da oferta secundária e a data de negociação, aí sim os investidores comuns vão poder comprar. Tudo isso, claro, no mercado americano — então será necessário ter uma conta em uma corretora dos Estados Unidos para comprar essas ações.

Como é o processo de abertura de conta para investir nos EUA? Para estrangeiros (brasileiros inclusive), não é tão simples. A maioria das corretoras pede o número do Social Security, uma espécie de CPF de lá, para abrir conta. Algumas exigem que o cliente tenha conta em um banco dos Estados Unidos.

Algumas corretoras, incluindo a própria Avenue, fundada por Roberto Lee, têm um processo menos moroso. Para os brasileiros, a abertura de conta pode ser feita on-line, com o envio de RG, CPF e comprovante de residência.

A própria XP, aliás, tem uma corretora em solo americano: a XP Securities. Não há nenhuma limitação para que a XP Securities negocie ações da própria XP — aqui vale lembrar que a Charles Schawb, maior corretora independente americana, fez o IPO em 1987 e negocia, desde então, as próprias ações no mercado.

Mas para abrir uma conta na XP dos Estados Unidos é necessário ter um patrimônio aplicado de US$ 200 mil (algo em torno de R$ 840 mil). Não é para todos, portanto.

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