“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo; e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”. O trecho da famosa canção Aquarela, do músico Toquinho, é um clássico da música brasileira. Já pensou em ganhar dinheiro a cada vez que ela é tocada? Pois é dessa forma que investidores brasileiros vêm apostando em ativos alternativos e buscando ganhos acima da poupança.

Para além dos produtos já conhecidos, como CDBs ou ações, o investidor agora tem a possibilidade de investir em royalties de músicas, que prometem retornos próximos a 12% ao ano e podem até pagar dividendos mensais.

Mas não vá enchendo os olhos: os riscos são grandes, inclusive o de não ganhar nada – o que é um péssimo negócio.

O principal risco desse tipo de investimento é o do mercado musical. Como a remuneração estipulada segue um cenário onde as músicas deverão tocar um determinado número de vezes, caso o número de reproduções fique abaixo, o pagamento será menor do que o estipulado. Em um caso extremo, se nenhuma música daquele compositor nunca mais tocar, o valor é zerado.

Além disso, há também o risco de crédito da operação, caso a empresa responsável não consiga mais honrar seus compromissos.

“Há também todo o risco envolvido com a plataforma de negociação, já que a maioria das empresas está no exterior, e, por isso, não está no radar do BC (Banco Central) e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regulam o mercado”, diz Virginia Prestes, professora de finanças da Faap.

Como funciona?

Esses ativos alternativos funcionam como uma operação de recebíveis, no qual uma empresa compra os direitos futuros de reprodução da música de compositores e artistas e as divide em cotas. Essas cotas são ofertadas para os investidores, que se tornam os verdadeiros proprietários intelectuais das obras durante um período determinado.

O valor do montante dos royalties, normalmente, é baseado em uma projeção de receita futura, de acordo com o número de reproduções das músicas, que são calculadas pelo Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), o órgão responsável por arrecadar os direitos autorais de obras em execução pública, e empresas de streaming, como o Spotify e o Youtube.

E o mercado é grande. Segundo o Ecad, no acumulado do ano até março, apenas em reproduções públicas, foram distribuídos R$ 191 milhões a 159 mil artistas e outros titulares beneficiados.

Do lado do compositor ou artista, ao ceder suas composições às plataformas, ele consegue antecipar uma receita previsível por um valor justo a ele, já as plataformas lucram com o percentual pela intermediação entre os investidores e os donos das composições.

Esse tipo de investimento é comum?

No Brasil, eles ainda são uma novidade. No exterior, investimentos alternativos como os de royalties musicais são mais comuns. Plataformas como a Anote Music e Royalty Exchange, nos EUA, já oferecem esse tipo de investimento há quase uma década, e movimentam bilhões de dólares anualmente.

No Brasil, o mercado é ainda novo. A plataforma Brodr passou a ofertar neste ano direitos musicais por meio de tokens. Já a Hurst, especializada em ativos alternativos, como precatórios, passou a oferecer os royalties de música no ano passado.

O primeiro case da Hurst foi de compositores de músicas gospel e sertanejos. Depois, 590 gravações do portfólio de Paulo Ricardo, ex-RPM, também foram disponibilizadas na plataforma, projetando ganhos médios de cerca de 12% ao ano para os investidores.

“Há um crescimento grande do consumo de música digital, já que o streaming acabou com a pirataria. Ele nos dá dados com os quais conseguimos prever o que as pessoas vão escutar, além de também consultarmos mecanismos de execução [das músicas] de forma pública. Essas duas coisas juntas fazem com que a gente consiga precificar esse universo”, disse o CEO da Hurst, Arthur Farache.

Agora, a plataforma oferece, por meio de uma CCB (Cédula de Crédito Bancário), a título de crédito aos investidores, os royalties do músico e compositor Toquinho. A rentabilidade esperada é de 12% ao ano, com investimento mínimo de R$ 10 mil e prazo para resgate de um ano. Já as taxas da startup giram em torno de 7% do montante investido.

“O catálogo do Toquinho se comporta de maneira estável há muito tempo e isso dá uma segurança de estimativa de projeção muito grande. Estimamos quanto ele irá render e, com um desconto, conseguimos fazer o negócio”, afirmou Farache. O objetivo da plataforma é captar cerca de R$ 621 mil com essas músicas.

Vale a pena?

Tudo depende do perfil do investidor e da carteira que ele já tem. De acordo com Virginia Prestes, professora de finanças da Faap, os investidores de perfil arrojados podem ter um pequeno percentual destinado a esse ativo, mas não podem ficar desatentos aos riscos.

“Pode ser uma opção para aqueles investidores arrojados, que gostam da possibilidade de ter um retorno maior, mas também estão tranquilo em ter um risco maior. Há o risco do negócio em si, aqueles músicos não emplacarem mais as músicas e não deram retorno ao investimento”, afirmou.

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