Diversificar a carteira em busca de ganhos maiores virou um mantra do investidor quando a taxa básica de juros começou a cair – até chegar ao mínimo histórico de 2% ao ano. Agora a trajetória da Selic é de alta, mas, mesmo com o ajuste mais recente, que passou a taxa para 5,25% ao ano, a renda fixa mais conservadora vai continuar tendo juro negativo – ou seja, perdendo para a inflação – no curto prazo.

Um dos caminhos para ter essa diversificação pode ser alocar parte da carteira em crédito privado – por meio de debêntures, CRIs e CRAs, que são títulos de dívida de empresas. Emprestar dinheiro para empresas proporciona retornos mais generosos que investimentos de mesmo prazo em títulos do Tesouro Direto e CDBs – nos quais, respectivamente, os recursos são emprestados para o governo e bancos.

Parte da explicação para os ganhos maiores está no fato de que essas operações não contam com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que garante títulos como os CDBs. Por isso, é preciso ter cuidado na avaliação das empresas – ou então investir por meio de fundos de crédito privado, nos quais essa análise fica a cargo de uma equipe de gestão.

“O crédito privado é uma ‘pimenta’ dentro da renda fixa. Em termos de risco e retorno, ele fica no meio do caminho entre os investimentos mais conservadores e os fundos multimercado e de ações”, diz Marcia Ramus Lima, head de relacionamento com investidores da Quasar Asset Management.

Ela afirma que o spread médio de uma carteira de crédito privado mais conservadora é de 1% a 1,5% sobre a taxa Selic. “Com a Selic chegando a 7% no fim do ano, isso significará uma rentabilidade nominal de pelo menos 8%. Se considerarmos que a expectativa de inflação para 2022 está em 3,80%, o ganho potencial desses fundos será muito interessante. Haverá juro real positivo, mesmo com papéis que são atrelados ao CDI.”

Cenário parecido para 2022 é desenhado por Daniel Pegorini, CEO da Valora Investimentos. “Se não houver nenhuma ruptura política, vejo um arrefecimento da inflação para patamar entre 3,5% e 4%, com o Banco Central sustentando a Selic entre 6% e 7% e um juro real de até 3% ao ano, uma taxa bastante equilibrada”, projeta. “Correndo um pouco mais de risco [com o crédito privado], se o investidor já tem uma reserva de emergência formada e prazo para investir, ele pode ganhar algo como 3% a 4% acima da inflação.”

Veja como funcionam os dois caminhos possíveis para investir em crédito privado.

Comprando os títulos diretamente

Que tipo de papéis eu posso comprar? Principalmente debêntures, que podem ser comuns ou incentivadas (estas têm isenção de Imposto de Renda e geralmente prazos mais longos). Há também certificados recebíveis do setor imobiliário (CRI) ou do agronegócio (CRA).

As empresas que emitem os títulos têm um rating de risco, ou seja, são avaliadas quanto à sua qualidade de crédito. As consideradas como high grade são mais seguras, enquanto as classificadas como high yield pagam rendimentos mais altos, para compensar o risco maior de emprestar a essas empresas.

Nenhum desses títulos conta com a proteção do FGC. Mas os recebíveis geralmente têm lastro em garantias, o que não ocorre com as debêntures.

Quanto eu posso receber de retorno? Espere receber a variação do CDI, mais juros de 1,2% a 1,5% ao ano, em um título de dívida de empresa high grade. Já um papel high yield geralmente paga entre 2% e 2,5% acima da variação da Selic, mas esse spread pode chegar a 4% em alguns títulos muito arrojados.

Algumas debêntures incentivadas têm a rentabilidade atrelada ao IPCA. Elas costumam pagar um prêmio de 0,6% a 0,8% sobre a taxa da NTN-b de mesmo prazo. Ou seja, se o Tesouro IPCA+ 2026 paga o IPCA mais juros de 4,20%, na debênture esse cupom fica entre 4,80% e 5%.

Como escolher? “A compra direta dos títulos depende de uma análise própria, que exige conhecimento sobre o emissor. Nem sempre o pequeno investidor sabe balizar a taxa que seria justa em função do risco que está correndo naquele papel”, afirma Marcia.

Pegorini explica que altas na taxa de juros são um fator de preocupação para o risco de crédito, porque o custo do capital fica mais alto e as empresas que se alavancaram muito começam a ter problemas. Por isso, ele recomenda ao pequeno investidor que quiser montar uma carteira sozinho que se limite a papéis de empresas sólidas, com rating “AAA” ou “AA”, que oferecem risco de crédito menor.

“Fique nos créditos mais óbvios, como debêntures da Vale, da Natura, do Fleury, um CRI da Cyrela, um CRA da Raízen. Não desça aos outros espectros. O [investidor] pequeno, que usa o investimento como proteção, não tem como saber como aquela empresa está atravessando a crise. Ela pode estar muito alavancada”, justifica. “Se for para se arriscar em um papel que paga o CDI mais 2%, é melhor ir logo para um fundo.”

Prazos mais curtos ou mais longos? Há desde debêntures para 1 ou 2 anos até outros com vencimento em 5, 7, 10 anos. E esses papéis mais longos pagam taxas mais gordas. Mas isso não vem de graça. Abraçado ao título por mais tempo, é maior o seu risco de que aquela empresa venha a ficar insolvente no meio do caminho.

Pode ser também que as condições do mercado tenham mudado – e aquela taxa na qual você se travou lá atrás já não seja mais tão vantajosa diante dos juros que se pagam no momento. Nesse caso, se você resolver sair antes do vencimento, já sabe o que vai acontecer: marcação a mercado e prejuízo na certa.

“De modo geral, não recomendo papéis mais longos, acima de 5 anos. Os mais curtos, de 1 a 2 anos, sofrem menos o efeito da variação de preços”, afirma Rafael Zlot, gestor de crédito privado da Plural Gestão. “Garantia de receber o retorno prometido, só mesmo no vencimento – mas pode ser difícil se comprometer a não mexer em um papel por 10 anos.”

Se eu quiser sair do papel, como funciona o resgate? Enquanto no Tesouro Direto você pode vender o papel de volta para o próprio governo, nos títulos de crédito não existe a recompra pelo emissor. A empresa só vai pagar aquela dívida no vencimento. Antes disso, para receber o dinheiro, o investidor terá que encontrar outro interessado em carregar aquele papel.

“O banco ou corretora até podem comprar o papel de volta [para revender], mas vão impor uma penalidade na saída”, explica Zlot. “Para o investidor de varejo, que negocia volumes menores, é difícil não ter liquidez [não conseguir sair do papel], mas ele pode sofrer um spread pior, conforme as condições do mercado.”

Entrando em um fundo de crédito privado

Como são esses fundos e quanto eles pagam? A essência dos fundos de crédito privado é ter alguma parte do capital alocada nesses títulos de dívida. O tamanho dessa fatia varia de um fundo para outro; conforme ele aumenta, crescem tanto o potencial de retorno como os riscos envolvidos.

Um fundo menos arrojado aloca apenas 20% da carteira em crédito privado – CRAs, CRIs e debêntures de empresas high grade – e o volume restante é ocupado por títulos públicos. Esses fundos podem ter liquidez diária ou pela regra D+1 (o investidor solicita o resgate e recebe o dinheiro no dia seguinte).

Conforme a estrutura do fundo fica mais complexa, a proporção de crédito privado cresce e a liquidez diminui. Na Valora, por exemplo, o fundo Guardian tem 60% de crédito privado e regra D+90, enquanto no Horizon essa alocação ocupa 80% da carteira, com liquidez em D+180.

“Se o gestor do Horizon tiver um pedido de resgate hoje, ele só vai pagar 180 dias depois. Por ter todo esse tempo, ele consegue carregar papéis mais ilíquidos, que pagam melhor. É de se esperar que a curva de rentabilidade suba de maneira proporcional”, explica Pegorini.

Enquanto o fundo mais “diluído”, com liquidez diária, tem retorno bem próximo ao do CDI, o fundo D+15 rende a variação do CDI mais 2% ao ano, o D+90 entrega o CDI mais 3,5% e o D+180, o CDI mais 4,5%.

Quais são as vantagens desse caminho? Enquanto uma compra direta de títulos pode exigir um desembolso na casa dos R$ 10 mil ou mais, os fundos têm acesso mais democrático, com tíquetes de entrada baixos, às vezes de R$ 100 ou R$ 500. Com um valor pequeno, o investidor consegue ter exposição a vários créditos diferentes, diversificando a carteira a um custo mais baixo. E pode resgatar o dinheiro quando quiser, obedecendo à regra de liquidez do fundo.

Além disso, por comprar volumes muito maiores de cada papel, o gestor do fundo consegue barganhar taxas de retorno mais interessantes que o pequeno investidor. E pode entrar em ofertas restritas a investidores qualificados, às quais o varejo não tem acesso.

Mas a vantagem mais importante é poder contar com a análise profissional da gestora, que sabe em que papéis vale a pena entrar. Por monitorar a vida das empresas, ela percebe quando há alguma mudança na qualidade de crédito e tem mais facilidade de sair do papel na hora certa, antes de uma situação de insolvência.

“O investidor que não é especialista pode até ter acesso à maioria dos papéis, mas tem dificuldade de fazer uma análise de crédito suficiente. E também não sabe avaliar se está pagando um bom prêmio em função do risco”, explica Zlot. “A gestora tem toda uma equipe dedicada a fazer isso.”

Como escolher a gestora? Marcia orienta o investidor a analisar o histórico dos profissionais que fazem parte da equipe e a rentabilidade que os fundos da casa entregaram nos últimos 12 meses, no mínimo.

“Veja também com quem a gestora faz parcerias, ter parceiros de peso dá maior credibilidade. E escolha um produto que entregue benefícios por um preço justo, com uma taxa de administração que seja compatível com o que ele promete em termos de rentabilidade”, ela recomenda.

O crédito privado é adequado a quais investidores? Essa é uma análise a ser feita conjunto com um planejador financeiro, dentro das necessidades de cada investidor. Mas a head da Quasar diz que mesmo os perfis mais conservadores podem carregar um pouco de crédito privado, ainda que em uma fatia menor da carteira.

“Mas não é um investimento indicado para a reserva de emergência, já que pode haver perdas”, ela ressalva. “Ele acaba sendo preferido pelos mais moderados, já que o perfil mais agressivo já tende a ir para os fundos multimercado e a renda variável.”

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